Dólar deve seguir em queda, diz Schwartsman

Ex-diretor do BC afirma que as constantes medidas anunciadas pelo governo para segurar a cotação do dólar não atacam a raiz do problema

São Paulo – Quem está pensando em viajar ao exterior ou realizar compras em dólar nos próximos meses não deve se impressionar com as constantes aparições do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para anunciar medidas cambiais. Desde 2009, o governo já aumentou os impostos para a captação de recursos no exterior por bancos e empresas e também taxou os investimentos estrangeiros em renda fixa, ações e no mercado futuro. O Tesouro Nacional também se endividou para que o Banco Central pudesse comprar a moeda americana, elevando as reservas internacionais para o atual patamar de 320 bilhões de dólares.

Mesmo com esse arsenal de medidas, o ex-diretor de assuntos internacionais do Banco Central Alexandre Schwartsman acredita que o real continue a se valorizar devido ao aumento dos preços internacionais das commodities e à fraqueza global do dólar. O que tem sido feito pelo governo não ataca a raiz do problema. Tanto que a entrada líquida de dólares alcançou US$ 35,6 bilhões no primeiro trimestre. Para Schwartsman, o governo deveria deixar de remar contra a maré e permitir que a moeda americana se desvalorize, o que ajudaria no combate à inflação, que em breve pode se tornar um “problemão”. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

EXAME.com – O dólar deve continuar em queda mesmo com todas as medidas que estão sendo anunciadas pelo governo para segurar a cotação?

Alexandre Schwartsman – As pressões sobre o dólar vão continuar. O que o governo tem feito não ataca a raiz do problema. O real está se valorizando principalmente porque as commodities estão subindo. Desde 2006, o que dita o comportamento da moeda brasileira é a cotação das commodities no mercado internacional. Para chegar a essa correlação, eu já comparei o comportamento do real com o do índice CRB, principal indicador mundial dos preços das matérias-primas. É verdade que a composição desse índice tem pouco a ver com a cesta de produtos mais exportados pelo Brasil. Mas ao mesmo tempo, há uma relação muito estreita entre os preços das exportações brasileiras e o comportamento do CRB, que subiu muitos nos últimos anos.

EXAME.com – Se não fossem os altos preços das commodities, o Brasil ainda estaria com a balança comercial superavitária?

Schwartsman – Acredito que não. Em economia, existe um conceito chamado “termos de troca” que mostra a relação entre os preços das importações e das exportações de um país. Atualmente, os termos de troca do Brasil estão muito acima da média histórica. Isso significa que nossas exportações estão valorizadas e nossas importações, desvalorizadas. Pelas minhas contas, se os preços estivessem dentro da média histórica, o Brasil teria registrado um déficit comercial de 40 bilhões de dólares no ano passado ao invés do superávit de 20 bilhões de dólares que efetivamente foi alcançado. O resultado da balança comercial está 60 bilhões de dólares acima do que estaria com os termos de troca ajustados à média histórica.

EXAME.com – Os preços das commodities são o único fator de pressão sobre o dólar?

Schwartsman – Não. O dólar está perdendo valor em todo o mundo. Não é apenas o real que está se valorizando. No mercado de câmbio, a queda global do dólar e a alta das commodities são muito mais fortes do que todas as medidas que o governo está tomando.

EXAME.com – A diferença entre os juros brasileiros e as taxas reais negativas praticadas em muitos países do mundo também não explicam a forte entrada de dólares?

Schwartsman – O juro alto tem seu papel, mas não é o mais importante. O que faz o dólar perder valor é principalmente o preço das commodities e, em seguida, a fraqueza global da moeda americana. Se fosse o diferencial de juros que determinasse o valor de uma moeda, o iene estaria super desvalorizado, por exemplo.


EXAME.com – O ministro Guido Mantega (Fazenda) diz que se o governo não estivesse agindo, o dólar já estaria em 1,50 real ou menos. De uma maneira geral, as medidas anunciadas até agora parecem corretas?

Schwartsman – O governo tomou a decisão de impedir como pode a apreciação do real. A justificativa é de que os produtos industrializados do país perdem competitividade no exterior se nada for feito. Isso é verdade, mas o país também tem um problema de inflação que está se tornando sério. Seria benéfico para o combate da inflação se o governo deixasse o dólar se desvalorizar. A alta dos preços das commodities poderia ser atenuada pela queda da moeda americana. Como isso não foi feito, as commodities passaram a alimentar a inflação. As altas dos preços industriais e agrícolas no atacado mostram os efeitos dessa política. A dificuldade que o governo está encontrando para combater a inflação está relacionada a tudo isso.

EXAME.com – O país não corre o risco de passar por um processo de perda de competitividade ou desindustrialização se permitir a sobrevalorização do real?

Schwartsman – Não é apenas o real forte que tira a competitividade das exportações brasileiras. Se a inflação sobe porque o dólar não enfraquece, o produto brasileiro fica mais caro no exterior do mesmo jeito. O Brasil perde competitividade com real forte ou com inflação porque o que importa é o câmbio real. É uma ilusão achar que não.

EXAME.com – Então seria mais importante combater a inflação do que deter a desvalorização do dólar?

Schwartsman – Se a inflação sobe demais, vira um problemão controlá-la. Talvez agora já seja tarde demais para usar apenas o câmbio.

EXAME.com – Por que o dólar perdeu valor mesmo nos dias que se seguiram aos anúncios de medidas?

Schwartsman – O mercado sentiu que o governo começou a ter dúvidas sobre a sabedoria de continuar impedindo a apreciação do real. A lentidão na desvalorização do dólar nos últimos seis meses é explicada pelos esforços do governo em segurar a moeda. O governo gastou os tubos para manter o dólar por volta de 1,70 real. Muita gente entendeu que isso seria impossível e ficou vendido no mercado futuro. Sobrou para o governo um enorme prejuízo.

EXAME.com – Que outras medidas podem vir por aí?

Schwartsman – Há muito receio no mercado sobre o que nos aguarda. No limite, o governo poderia até proibir a entrada de qualquer capital no Brasil. Mas o efeito disso seria devastador. O Brasil não tem como financiar o volume de investimentos necessário para que a economia cresça sem inflação se abrir mão do capital externo.


EXAME.com – Aumentar o IOF sobre os empréstimos externos de até dois anos pode ter sido um tiro no pé?

Schwartsman – Muitos bancos e empresas usam as captações externas para tomar dinheiro barato para investir. Essa medida é negativa para eles. No Brasil, o investimento é de 19% a 20% do PIB. É pouco quando comparado a outros países como a China e a Índia. Aumentar a poupança interna é muito difícil no Brasil. Então de onde vão vir os recursos para se investir se o governo começa a fechar as torneiras?

EXAME.com – O governo pode aumentar ainda mais o IOF para a compra de ações por estrangeiros?

Schwartsman – Não duvido que isso aconteça. Agora pense nas milhares de pessoas que compraram ações na capitalização da Petrobras no ano passado. Seria justo mudar as regras e prejudicá-las?

EXAME.com – Dentre as medidas já anunciadas pelo governo, com quais ele conseguiu atingir seu objetivo de segurar a queda do dólar?

Schwartsman – Não sei qual vai ser a eficácia do IOF agora, mas no passado não houve grande impacto. Para segurar o dólar, o que surtiu efeito foi o aumento do volume de intervenções do Banco Central no mercado de câmbio pronto e futuro. A compra de reservas cumpre seu objetivo.

EXAME.com – Por que mesmo diante de tantas incertezas na economia os investimentos estrangeiros diretos estão cada vez mais altos?

Schwartsman – Neste momento, o Brasil é visto pelos estrangeiros como o país do futuro. O que está sendo criado pelo Eike Batista e a capitalização da Petrobras no ano passado são prova disso. Há muitas oportunidades de investimento aqui, como o pré-sal e as obras de infraestrutura para a Copa e as Olimpíadas. O real forte também favorece a importação de máquinas e a ampliação da capacidade produtiva.