Educação financeira começa a entrar no currículo das escolas

Colégios de elite e também de classe média falam sobre investimentos e dinheiro em competições, palestras e projetos

São Paulo – Com cinco anos, uma criança pode concluir que, para os pais comprarem algo, basta que tirem dinheiro de uma “caixinha”. Por outro lado, um aluno do ensino médio, que está se preparando para o vestibular, pode não ter ideia do que fazer com o dinheiro que irá começar a receber no mercado de trabalho em breve.

Ao menos três colégios de São Paulo querem mudar essa realidade: a Red House International School, com um projeto de educação financeira durante o quinto ano da educação infantil; o Colégio Bandeirantes, com o Bandinvest, uma disciplina complementar para alunos do ensino médio; e os colégios da Rede Decisão, com grupos que participam de competições globais sobre investimentos.

A proposta da Red House International School é clara: colocar na mente das crianças desde cedo, e na prática, o conceito de dinheiro. Durante seis semanas, uma das atividades consiste em fazer compras, produzir suco de laranja e vendê-lo para outros alunos da escola. “Trabalhamos com um programa suíço cujo pilar é generalizar conceitos da sala de aula e aplicá-los no dia a dia. É a idade mais produtiva para isso”, diz a diretora pedagógica Denise Lam.

Os colégios criaram os projetos inicialmente para despertar o interesse por carreiras ligadas ao mercado financeiro. Mas, como notaram que a falta de conhecimento do tema era tão grande, acabaram ampliando esse objetivo.

É o que já aconteceu no Bandeirantes. Impulsionado pelo projeto, o colégio incluiu matemática financeira entre suas disciplinas eletivas. Os alunos precisam, obrigatoriamente, escolher duas disciplinas eletivas no semestre. “Foi um movimento feito por nós, professores, depois que vimos o grande interesse dos alunos pelo projeto. Começamos a oferecer a matéria este ano para tentar difundir o assunto para mais alunos”, diz Franco Ramunno, professor de química do Bandeirantes.

Na Rede Decisão, os alunos que participam das competições de investimentos pretendem dar palestras para colegas sobre o tema.

As iniciativas de educação financeira são um diferencial em instituições de ensino. E, apesar de parecer, não está restrita a colégios de elite: as mensalidades da Rede Decisão giram em torno de 700 reais por mês, bem diferente da dos seus pares, onde as mensalidades partem de 3,6 mil reais no Bandeirantes e 3,7 mil reais na Red House —podendo chegar a 5,5 mil reais.

Conheça abaixo um pouco mais sobre os três projetos.

Bandinvest

Reunião do Bandinvest Reunião do Bandinvest

Reunião do Bandinvest (Ricardo Birrer/ Colégio Bandeirantes/Divulgação)

O Bandinvest, uma disciplina complementar disponível para todos os estudantes do ensino médio do Colégio Bandeirantes, foi criada há cerca de um ano e meio por dois alunos que tinham grande interesse pelo tema. Desde então, a demanda dos alunos só aumenta: de um ano para outro, as inscrições saltaram de 90 para 170. As aulas são limitadas a 30 alunos por ano.

Por conta do alto interesse, o processo seletivo para participar da disciplina teve até de se desdobrar em duas etapas: na primeira, os alunos respondem um questionário virtual, com questões de interesse geral e noções básicas sobre o assunto. Posteriormente, analisam uma série de ações.

O objetivo do Bandinvest é ensinar noções básicas sobre o funcionamento do mercado financeiro e como investir; desenvolver conhecimentos práticos que ajudem os alunos na vida financeira futura; e simular o processo de análise de mercados e cenários macroeconômicos para definição dos melhores tipos de investimentos. Entre os assuntos, são explicados conceitos de renda fixa, renda variável, o que são fundos de investimento, entre outros.

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O segundo módulo prepara os alunos para participarem em competições de investimento, como a “Knowledge@Wharton High School (KWHS) Investment Competition. Na última competição, o grupo participou de finais não oficiais no banco BTG Pactual, montando uma carteira de investimentos para um determinado perfil de cliente. Tudo isso em um simulador.

Além de reuniões semanais com duas horas de duração, o grupo promove palestras com grandes nomes do mercado financeiro. Já participaram delas Luís Stuhlberger. gestor do aclamado Fundo Verde; José Berenguer, presidente do J.P Morgan no Brasil, além da economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif. Reflexões sobre política econômica, como os investidores podem se proteger em tempos de incerteza e a própria trajetória do palestrante são temas pincelados nesses encontros.

Rafael Válio, 17 anos, e Lucas Braz. 16 anos, coordenadores do Bandinvest, clube de investimentos do Colégio Bandeirantes Rafael Válio, 17 anos, e Lucas Braz. 16 anos, coordenadores do Bandinvest, clube de investimentos do Colégio Bandeirantes

Rafael Válio, 17 anos, e Lucas Braz. 16 anos, coordenadores do Bandinvest, clube de investimentos do Colégio Bandeirantes (Ricardo Birrer/ Colégio Bandeirantes/Divulgação)

Rafael Válio, 17 anos, é um dos coordenadores da disciplina ao lado do colega, Lucas Braz, 16 anos. Apesar de sempre ter se interessado pelo mercado financeiro, pois sua mãe trabalha na área, foi depois de participar do projeto que teve o “clique” dos juros compostos a seu favor. “Eu saía bastante, mas comecei a pensar que poderia guardar e investir dinheiro”. Segundo ele, o grupo ajudou a dar esse impulso. “Todo mundo acaba se incentivando”.

Lucas entrou no grupo sem pensar em seguir uma carreira, mas tomou gosto pelo tema. “Fui mais pela educação financeira e agora tenho um projeto pessoal de ensinar sobre o tema em escolas públicas. Há carência tanto no setor privado como no público. O assunto é essencial, todo mundo deveria aprender”.

Red House International School

No último ano do ensino infantil, a preocupação da Red House International School não é tanto ensinar o que é o dinheiro, mas, principalmente, como ganhá-lo.

Para isso, alunos de cinco anos participam de todas as etapas que envolvem dois eventos: a gestão de uma barraca para vender suco de laranja para alunos de outras séries, e a organização de um bazar, cujo objetivo é vender coisas que os alunos de toda a escola não usam mais. O dinheiro arrecadado em ambos é doado para instituições de caridade.

Os alunos participam da compra de água e laranja para elaborarem o suco que será vendido, dão preços para os objetos que serão vendidos no bazar e escolhem até a instituição de caridade para a qual o dinheiro será doado, conta a diretora pedagógica Denise Lam. Cada sala pode arrecadar mais dinheiro realizando tarefas adicionais, como arrumar as bandejas do refeitório.

Alunos do 5º ano da educação infantil da Red House International School fazendo compras Alunos do 5º ano da educação infantil da Red House International School fazendo compras

Alunos do 5º ano da educação infantil da Red House International School fazendo compras (Red House International School/Divulgação)

Os alunos manejam dinheiro de “mentirinha”, que, ao final do projeto, é transformado em dinheiro de verdade. Todo o dinheiro que vão arrecadando vai sendo depositado no cofrinho da sala.

A criação de preços para os itens que serão vendidos no bazar é discutida entre eles, diz Denise. “Eles acabam colocando um preço maior no que valorizam mais: os brinquedos. No ano passado, um boneco do super herói Hulk, que deveria custar 30 reais, mas era um pouco grande, foi vendido por 150 reais, enquanto uma sandália de uma marca famosa foi vendida por 10 reais. Os pais ficaram loucos”.

A expectativa era arrecadar 300 reais, mas os alunos acabaram vendendo 1,4 mil reais em objetos no último projeto. “O projeto realmente engaja todo mundo na escola”, diz a diretora pedagógica.

Ao optarem por doar o valor para uma casa de assistência a crianças em situação de risco, a escola viu que as doações somente eram aceitas na forma de produtos de limpeza. Foi mais uma oportunidade para fazer compras e mostrar o que valia mais a pena comprar, e por quê. A lista de materiais foi dividida entre grupos de alunos, que iam subtraindo cada aquisição do valor que tinham para gastar.

Uma das crianças, que ia particularmente bem em matemática, conseguiu fazer a relação de que um produto era mais vantajoso porque, proporcionalmente, era mais barato do que outro.

Rede Decisão

No final do ano passado o Colégio Decisão resolveu aceitar o convite que recebeu para participar da competição da Wharton School, assim como o Colégio Bandeirantes.

O convite partiu de um conhecido dos sócios da instituição de ensino, entre eles Rafael Camacho, um dos mantenedores dos cinco colégios da Rede Decisão, que têm mais de 3 mil alunos e estão espalhados pela zona leste e norte da cidade de São Paulo. “Eu e outros sócios da escola já trabalhamos no mercado financeiro e achamos a iniciativa importante para os alunos”.

O objetivo era gerenciar um portfólio de ações, e sete alunos do 9º ano do fundamental e do primeiro e segundo ano do ensino médio foram destacados para enfrentar outros colégios nacionais e internacionais. “Despertou muita curiosidade porque o tema era muito desconhecido. Um deles tinha um tio que trabalhava em um banco, mas mesmo assim tinha apenas uma noção do que era”, diz Camacho.

Muitos deles nem sabiam o que era uma bolsa de valores, por quê o dólar e a bolsa sobem e descem, além de conceitos básicos sobre economia. “Tivemos de realizar aulas introdutórias e explicá-los em encontros semanais. Por exemplo, a compra de uma ação parecia algo inacessível para eles, até que perceberam que qualquer um pode adquirir uma. O mais legal foi ver que replicaram esses conceitos dentro de casa, para famílias que não investem, mas não por falta de poupança, e sim de conhecimento”, explica Camacho.

A competição durou dois meses e, em determinados momentos, o grupo ficou em segundo lugar no ranking entre 450 escolas pelo mundo. O grupo encerrou a competição em vigésimo lugar e, por conta do bom resultado, o colégio resolveu montar mais dois grupos competidores em colégios diferentes da rede. “Tem gente participando porque pretende seguir carreira em economia, mas outros não têm ideia do que vão fazer ainda. É um conhecimento que, acreditamos, vão levar para a vida. E ainda poderão colocar no currículo”.