Corretora coloca robô para aplicar pelo cliente

O modelo é de autoinvestimento, no qual o cliente opera por conta própria e o sistema e fornece as informações e as opções solicitadas

Os robôs estão finalmente chegando para os pequenos investidores brasileiros. Desde a semana passada, a corretora Rico passou a oferecer um serviço que monta uma carteira sugerida com ações e títulos públicos e faz as aplicações pelos clientes.

A corretora fechou uma parceria para representar a Alkanza, uma empresa de robôs-consultores (“robo advisor”) do Vale do Silício criada por um colombiano especialista em matemática e algoritmos financeiros.

A empresa está presente nos EUA, no México, na Colômbia, no Peru e no Panamá e pretende ampliar sua atuação na América Latina.

Lá fora, os robôs gestores já são bastante usados, diz Mônica Saccarelli, responsável pelo home broker da Rico. A Alkanza é o primeiro passo da Rico, que quer ser a corretora das empresas de tecnologia do mercado, as chamadas Fintechs, e das empresas emergentes (start ups), afirma a executiva.

O modelo da Alkanza é de autoinvestimento, no qual o cliente opera por conta própria e o sistema e fornece as informações e as opções solicitadas.

O sistema então faz o gerenciamento automático dos recursos a partir de modelos matemáticos e algoritmos, que eliminam os fatores emocionais que podem prejudicar a estratégia.

O valor inicial de aplicação é de R$ 5 mil e o investidor pode então escolher em um cardápio de objetivos, que incluem economizar, educação, aposentadoria ou a compra da casa própria.

O cliente escolhe também se quer muito ou pouco risco. O modelo então faz uma sugestão de carteira que, se aprovada pelo cliente, é executada pelo sistema via corretora automaticamente.

“É só apertar um botão e o sistema executa”, diz Mônica. O sistema prevê ainda uma revisão automática das estratégias, em 3 ou 6 meses. É possível também fazer várias simulações de acordo com os objetivos do investidor.

Tesouro Direto e ETF

As opções de investimento do sistema, por enquanto, são títulos federais via Tesouro Direto e fundos de índice com cotas negociadas em bolsa, os chamados Exchange Traded Funds (ETF).

Ações individuais ficarão para depois, explica Mônica. A Rico pretende incluir mais adiante também crédito privado, com as Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e do Agronegócio (LCA), bem como CDB de bancos.

Segundo Mônica, várias empresas estão criando modelos de montagem de carteiras a partir de modelos matemáticos, mas sem aplicação automática. A diferenciação será também nos resultados da gestão, acredita. “Será preciso criar um histórico de desempenho para ver quais são os melhores sistemas”, diz.

Suitability

No caso da Alkanza, a Rico faz antes a avaliação do cliente, ou seja, o suitability, para ver quais tipos de aplicação são recomendáveis para seu perfil. “Se a carteira não estiver de acordo com o perfil do cliente, o sistema não executa as aplicações”, explica Mônica.

A corretora cobra uma taxa de 0,5% sobre o patrimônio administrado pelo serviço. Atualmente, 5 mil clientes foram convidados a usar o Alkanza, dos quais 15% fizeram a simulação de carteira e 1% executou. “Estamos também ajustando o sistema com as experiências dos usuários”, afirma Mônica.

Otimista ou pessimista?

O sistema dá também dois cenários, um otimista e um pessimista para o investidor avaliar os possíveis impactos na carteira. E ele pode encerrar a aplicação quando quiser. Mas não pode mudar a carteira depois de montada.“É como se fosse uma carteira administrada”, diz.

Mônica diz que Rico é a primeira a levar o sistema completo para o cliente, já que os concorrentes até oferecem a orientação automática, mas não executam as ordens.

“Falta para as corretoras a integração entre os sistemas para permitir essa facilidade, que já é oferecida lá fora por grandes do mercado como a Charlew Schwab e a Fidelity, que estão desenvolvendo seus sistema próprios”, diz.

Além da ajuda para montar a carteira de investimentos, a Rico acompanha outras Fintechs que estão se desenvolvendo depressa, como as que ajudam na organização financeira, as de cartões pré-pagos e de seguros. Essas devem ser as próximas que a corretora quer oferecer para os clientes.

Número de clientes dobra em um ano e meio

A estratégia das Fintechs é uma das que a Rico quer usar para manter o crescimento no segmento de pessoas físicas. A corretora, que surgiu depois que a Link foi comprada pelo suíço UBS, completou neste mês cinco anos em um mercado em que o número de investidores pessoa física na bolsa ficou estagnado em 500 mil cadastros, grande parte dos quais de clientes inativos.

A Rico tinha 12 mil clientes e ganhou mais 80 mil com a fusão com a Caixa Geral de Depósitos há um ano e meio. Hoje, já tem 170 mil clientes, 90 mil ativos, ou seja, que fazem operações ou têm custódia. “Dobramos de tamanho em um ano e meio”, diz Mônica. 

A maior parte da receita da corretora ainda vem de bolsa, mas a renda fixa vem cada vez mais ganhando espaço e já representa quase metade dos ganhos, um reflexo da perda de interesse dos investidores por ações nos últimos anos.

O cenário, porém, mudou neste ano com a recuperação do Ibovespa. “No mês passado, 30% dos novos clientes aplicaram em bolsa, percentual era de menos de 10% nos meses anteriores”, afirma.

O maior crescimento de aplicações continua, porém, em renda fixa, especialmente com Tesouro, LCI e LCA. A corretora ganhou espaço com uma política de isenção de cobrança de tarifas no Tesouro Direto, mas depois passou a cobrar 0,10%, ainda assim uma das taxas mais baixas do mercado.

“Continuamos investindo em pessoas físicas de varejo, aproveitando que outras corretoras estão com outros focos”, diz Mônica. A XP Investimentos, por exemplo, passou a atuar apenas com clientes com mais de R$ 50 mil para aplicar.