Como uma dívida de R$ 2 mil evolui em 5 tipos de empréstimos

Enquanto uma dívida de 2 mil reais salta para 2.365 reais após um ano no crédito consignado, no rotativo do cartão de crédito ela chega a 9.902 reais

São Paulo – O número de inadimplentes já chega a 56,4 milhões, segundo a Serasa Experian, o que significa que uma parcela de 27,54% da população não tem conseguido pagar suas dívidas, se considerada a atual população brasileira, de 204,76 milhões de pessoas (de acordo com o IBGE).

Se o dado por si só já é preocupante, ao observar os juros cobrados nos empréstimos hoje a situação fica ainda mais assustadora.

Em julho, os juros médios do cartão de crédito rotativo, que são cobrados quando o cliente não paga a fatura do cartão, chegaram a absurdos 395,3% ao ano, ou o equivalente a 14,26% ao mês, de acordo com a pesquisa mensal de juros do Banco Central (BC).

Ainda que algumas pessoas usem essa linha de crédito com frequência, existem opções muito mais baratas disponíveis no mercado, como pode ser notado na tabela a seguir, que mostra os juros médios de cinco tipos de empréstimo, segundo a pesquisa do BC. 

Tipo de empréstimo Juros ao mês Juros ao ano
Consignado 2,84% 39,9%
Crédito pessoal 6,54% 113,8%
Parcelamento do cartão de crédito 6,77% 119,5%
Cheque especial 10,92% 246,9%
Cartão de crédito rotativo 14,26% 395,3%

Fonte: Pesquisa mensal de juros do Banco Central, referente ao mês de julho.

Para mostrar exatamente como suas dívidas se multiplicam nessas diferentes opções de crédito, que são algumas das mais usadas por pessoas físicas hoje, EXAME.com simulou qual seria o custo final de um empréstimo de 2 mil reais em cada uma das linhas após seis meses e um ano. Veja os resultados a seguir.

Crédito consignado

Dívida de R$ 2 mil após seis meses: R$ 2.365,93

Dívida de R$ 2 mil após um ano: R$ 2.798,82

Os juros do crédito consignado são alguns dos mais baixos do mercado. Eles são 9,9 vezes menores do que os juros do rotativo do cartão de crédito, por exemplo. Como as parcelas da dívida são descontadas da folha de pagamento do devedor, os bancos têm mais garantia de que receberão o pagamento em dia e praticam taxas reduzidas.

Na simulação foi considerada a taxa média do crédito consignado para trabalhadores do setor privado, de 39,9% ao ano, mas os juros são ainda mais baixos para pensionistas e aposentados do INSS: ficam em 28,1% ao ano em média, segundo dados do BC.

As taxas são mais baratas nessa linha porque o banco tem ainda mais garantia de que o pagamento da dívida será feito em dia, afinal o risco de o INSS não pagar pensões e aposentadorias é bem menor do que o risco de uma empresa privada deixar de pagar os salários de seus funcionários.

O mesmo acontece com o consignado para servidores públicos, já que o banco também tem mais garantia de que o governo pagará o salário em dia. Nesse caso, os juros médios são de 26,3% ao ano, segundo os dados de julho do BC. 

A desvantagem é que nem todas as pessoas têm acesso ao consignado. Ele é oferecido apenas a pensionistas e aposentados do INSS e a empregados de empresas que fazem convênios com bancos para oferecer o crédito consignado como benefício aos seus funcionários. Por isso, algumas empresas podem optar por não oferecer o benefício.

Crédito pessoal

Dívida de R$ 2 mil após seis meses: R$ 2.924,87

Dívida de R$ 2 mil após um ano: R$ 4.277,42

O crédito pessoal já é mais salgado que o consignado, mas ainda assim é bem mais barato do que o cheque especial e o rotativo do cartão de crédito. Conforme mostra a simulação, em um ano a dívida mais do que dobra na linha. Como é um crédito que não é descontado direto da folha de pagamento, os bancos já cobram juros mais altos.

Mas, ele pode ser uma opção para quem não tem acesso ao consignado. Uma dica pode ser buscar o crédito pessoal oferecido por sites, que têm juros mais baixos do que os cobrados em bancos grandes. Como esses sites não têm gastos com agências físicas e geralmente são mais rigorosos na concessão do crédito, eles possuem carteiras mais concentradas em bons pagadores, o que reduz os riscos e, consequentemente, os juros.

Alguns dos sites que oferecem esse tipo de empréstimo são o Bom Pra Crédito, o Geru e o Lendico (veja a matéria completa sobre os sites especializados em empréstimos). Esses sites fazem parcerias com bancos de médio e pequeno porte para oferecer os recursos e funcionam como correspondentes bancários.

É preciso ficar atento, no entanto, à cobrança de taxas de administração. Para isso, é importante consultar o Custo Efetivo Total (CET) da operação, taxa que inclui não apenas os juros, como todos os custos envolvidos no empréstimo.

Cheque especial

Dívida de R$ 2 mil em seis meses: R$ 3.724,68

Dívida de R$ 2 mil em um ano: R$ 6.936,63

O cheque especial, além de ser caro, é um crédito muito perigoso por causa da sua praticidade. Para usar o cheque especial, basta que o cliente entre no negativo, como popularmente se diz.

Normalmente, os bancos já disponibilizam um limite pré-aprovado para a linha. Assim, se o cliente tem um limite de cheque especial de 5 mil reais, por exemplo, a partir do momento em que sua conta fica zerada, os próximos gastos passam a ser descontados desse limite e os juros começam a rolar.

Alguns bancos oferecem a possibilidade de uso do cheque especial sem cobrança por alguns dias, mas, passado esse período, se o saldo não for regularizado, os juros cobrados serão contabilizados durante todo o tempo em que o crédito foi usado.

Uma dica para evitar esse tipo de cobrança é pedir ao banco para reduzir ou suspender o limite pré-aprovado do cheque especial. Também é importante checar com frequência seus extratos bancários para se certificar de que sua conta não está no negativo. Alguns bancos oferecem serviços de envio gratuito do saldo diário da conta por SMS. 

Parcelamento do cartão

Dívida de R$ 2 mil em seis meses: R$ 2.962,96

Dívida de R$ 2 mil em um ano: R$ 4.389,56

O parcelamento do cartão de crédito, como o nome sugere, é a linha de crédito cujos juros passam a ser cobrados quando a fatura do cartão não é 100% paga e o cliente opta por fazer o pagamento mínimo.

Ainda que os bancos mostrem o parcelamento como uma opção quase automática de pagamento – mesmo sem solicitar o crédito, a opção de pagamento mínimo da fatura é sempre oferecida – os juros são muito altos.

Assim, se não for possível pagar o cartão, o ideal é buscar as linhas de crédito mais baratas. Além disso, ao optar pelo pagamento mínimo, o cliente precisa pagar na fatura seguinte tanto o valor do parcelamento da fatura anterior, quanto o valor da fatura atual, o que pode transformar a dívida em uma bola de neve.

Rotativo do cartão

Dívida de R$ 2 mil após seis meses: R$ 4.450,36

Dívida de R$ 2 mil após um ano: R$ 9.902,86

Os juros rotativos do cartão de crédito quase dispensam comentários. Basta observar que eles chegam a 395% ao ano para saber que suas taxas são extorsivas. Com juros tão altos, rapidamente a dívida dobra de tamanho e após um ano seu custo final fica 4,95 vezes maior do que o seu valor inicial.

Assim como o cheque especial, também é uma linha perigosa, já que os juros passam a incidir a partir do momento em que o cliente não paga a fatura do cartão de crédito.

Portanto, é essencial que o cliente recorra a outras linhas de crédito ao perceber que não será possível pagar a fatura do cartão. 

Veja, no vídeo a seguir, algumas dicas para controlar o ímpeto de gastar: