Como escolher um bom carro na aposentadoria

Saiba quais são os acessórios prediletos dos idosos e os veículos campeões em visibilidade - algo essencial para os motoristas em idade avançada

São Paulo – De jovens aventureiros a bem sucedidos executivos, quase todos os estereótipos já foram encarnados nas propagandas de carros. O aposentado, no entanto, não costuma assumir o papel de protagonista nessas situações. Há quem associe a performance dos senhores mais maduros a uma direção arriscada. Outros consideram que a predileção desse público por automóveis se limita às grandes e chamativas “banheiras”. A verdade, no entanto, é que os idosos vem comprando cada vez mais carros. E embora os veículos não sejam desenhados especificamente para eles, há diversos modelos que se encaixam nas necessidades que surgem com o passar do tempo, compensando a perda gradual da mobilidade e a diminuição dos reflexos.

Em apenas uma das lojas do grupo Itavema (maior rede de concessionárias da América Latina), os clientes com mais de 60 anos compraram 309 carros de janeiro de 2009 até agora. O número se aproxima dos 374 veículos vendidos aos jovens entre 19 e 25 anos, alvos reincidentes das campanhas publicitárias. A gerente Ana Maria Junqueira afirma que, ao contrário dos consumidores mais novos, os idosos têm maior poder de compra, colocando o conforto no topo dos pré-requisitos básicos.

“Normalmente esse consumidor tem uma vida mais estabilizada. Então é comum que ele opte por um veículo de médio porte, mais espaçoso, com direção hidráulica e itens de segurança, como airbags e travas elétricas.” Segundo ela, outro indicador do carro ideal é o tempo de garantia oferecido pela montadora, já que os aposentados não querem lidar com pequenos problemas no curto prazo. “Se a fábrica dá uma cobertura de três a cinco anos, é porque realmente confia no produto. Senão essa atitude lhe custaria caro”, diz.

Na Comark, concessionária paulista de luxo, os veículos mais procurados pelos idosos são os modelos sedãs. Ainda assim, o diretor da revenda Marcelo Ferraz explica que é difícil enumerar os automóveis prediletos, já que o que mais pesa nesse momento são os desejos pessoais, sejam eles realizados com uma minivan ou com um superesportivo. “A essa altura da vida, o aposentado não tem que transportar toda a família nem conciliar a demanda de outras pessoas. E aí o automóvel pode enfim atender às características que ele prioriza individualmente”, afirma. 

Em comum, esses veículos têm amplo espaço interno, baixo ruído, comodidades tecnológicas e – surpresa – até um motor mais potente. “Se a pessoa gosta de carros de alto desempenho, essa preferência vai atravessar o tempo. Temos vários clientes com mais de 80 anos com mais de um veículo esportivo porque eles têm tempo e condições financeiras para se dedicarem a esse hobby”, sustenta Ferraz. 


Vale dizer que um carro com uma aceleração razoável pode compensar a demora no tempo de reação para situações específicas e, por isso, não deixa de fazer sentido para os motoristas mais velhos. Além disso, a escolha por modelos básicos ou com pouca potência não evitará que os idosos motorizados se envolvam em acidentes.

Renato Fabbri, geriatra e diretor científico da SBGG/SP (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia), reforça que apesar do envelhecimento naturalmente retardar a resposta do indivíduo a uma série de estímulos, a idade por si só não é parâmetro para obrigar ninguém a abandonar o volante. “Já vimos o caso de uma senhora de 97 anos que conseguiu renovar a carteira. Preservada a visão, além das funções intelectuais e motoras, é possível sim continuar dirigindo.” O último anuário publicado pelo Denatran mostra que 9,8% dos motoristas do país tinham mais de 60 anos em 2008. E ao contrário do que pode sugerir o senso comum, eles foram responsáveis por um décimo do número de acidentes onde havia condutores entre 30 e 59 anos envolvidos.

No topo das listas

De olho nas preferências e necessidades do público aposentado, a revista Consumer Reports, considerada um guia de consumo entre os norte-americanos, elaborou uma lista com os cinco veículos ideais para os motoristas mais maduros. Com base em mais de 50 testes, foram avaliados itens como visibilidade, facilidade em entrar e sair do carro, ergonomia do assento e legibilidade dos controles. Dentre os eleitos, três podem ser encontrados por aqui: Subaru Forester (79.232 reais), Hyndai Azera (85.020 reais) e Honda Accord (97.000 reais).

“Lá fora, praticamente 100% dos carros são automáticos e, por isso, não podemos fazer uma comparação tão fácil com o mercado no Brasil”, afirma o consultor automotivo André Belchior Torres. “Como a renda do aposentado é muito menor, o consumidor acaba tendo dificuldade para ter um carro nesse padrão”, emenda. Para o consultor, as versões automáticas do Toyota Corolla (67.800 reais) e do Honda Civic (72.480 reais) são opções um pouco mais em conta para o motorista brasileiro, mas que mantêm o nível de qualidade. Quem estiver com o orçamento mais folgado, também pode incluir o Ford Fusion (80.760 reais) na lista.  


Questão de visão

Motoristas de todas as idades precisam de uma boa visibilidade para dirigir com segurança e conforto, mas para os idosos essa característica é ainda mais importante. “Com o tempo, a visão periférica fica prejudicada e o motorista passa a ter problemas em situações de ofuscamento”, afirma o geriatra Renato Fabbri. O médico ressalta que um idoso precisa de três vezes mais contraste na cor para distinguir um objeto de seu plano de fundo, o que torna manobras como balizas, ultrapassagens e mudanças de faixa mais difíceis. Vale lembrar que doenças como artrite e artrose são comuns na velhice e também podem diminuir a flexibilidade do condutor para dirigir e movimentar o pescoço.

Por todos esses fatores, um critério importante para o aposentado escolher um carro deve ser o campo de visão que ele oferece. Fruto da combinação entre área envidraçada, altura do automóvel, tamanho dos retrovisores e das colunas dianteiras, uma boa visibilidade aumenta a noção espacial do motorista e garante a diminuição dos pontos cegos. O Centro de Experimentação e Segurança Viária (Cesvi) desenvolveu em 2008 um índice de classificação segundo o grau de visibilidade, considerando eventuais obstruções na lateral, traseira e frente do carro. Embora a pontuação máxima seja de 5 estrelas, a maior nota conseguida entre os veículos foi 4,5. Confira aqueles que atingiram as melhores colocações em cada uma das categorias, segundo o levantamento atualizado em agosto pela entidade:

HATCH COMPACTO 
BMW Mini Cooper (2009 a 2010) – 4
Fiat 500 (2009 a 2010) – 4
Ford Ka (2007 a 20010) – 4

HATCH MÉDIO
Citroën Novo C4 (2008 a 2010) – 4
Volvo C30 (2007 a 20010) – 4
Fiat Stilo (2002 a 2010) – 4
Audi A3 (2007 a 2008) – 4
Nissan Tiida (2007 a 2010) – 4
Peugeot 307 (2006 a 2010) – 4
Ford Novo Focus (2008 a 2010) – 4

SEDAN COMPACTO
GM Prisma (2006 a 2010) – 3,5
Ford Novo Fiesta (2010 a 2010) – 3,5

SEDAN MÉDIO
VW Jetta (2006 a 2010) – 4,5

SEDAN LUXO
Audi A6 (2009 a 2010) – 4,5

PICAPE MÉDIA
Mitsubishi L200 (2006 a 2008) – 3,5
GM Nova S10 (2008 a 2010) – 3,5
Nissan Frontier (2002 a 2007) – 3,5

PICAPE COMPACTA
GM Montana (com sensor de ré) (2003 a 2010) – 3
Fiat Nova Strada Trekking (2007 a 2010) – 3
VW Nova Saveiro (2009 a 2009) – 3
Peugeot 207 (2010 a 2011) – 3

MINIVAN COMPACTA
Honda Fit (2004 a 2008) – 4,5
Honda Novo New Fit (2008 a 2010) – 4,5

MINIVAN MÉDIA
Citroën Grand C4 Picasso (2008 a 2010) – 4,5
Renaut Grand Scénic (2007 a 2009) – 4,5
Kia Soul EX 1.6 (2009 a 2010) – 4,5

SUV
Mercedes ML 320 (2008 a 2009) – 4,5

SW COMPACTA
Peugeot 206 (2005 a 2008) – 3
VW SpaceFox (2006 a 2010) – 3

SW MÉDIA
Toyota Corolla Fielder (2005 a 2008) – 3,5
VW Jetta 2.5 SW (2006 a 2010) – 3,5

COUPE
Audi TTS (2009 a 2010) – 4,5
Nissan 350 Z (2004 a 2010) – 4,5
Chamonix Spyder (2008 a 2010) – 4,5
Audi A5 (2008 a 2010) – 4,5