Como a crise da água em SP pode secar também o seu bolso

Para especialistas, gastos das famílias paulistas com água podem ser multiplicados por dez nos próximos meses

São Paulo – É uma questão de tempo até que a crise de abastecimento de água no Estado de São Paulo chegue ao bolso das famílias paulistas, segundo especialistas e profissionais do setor de recursos hídricos.

Apesar de ser difícil precisar o tamanho do impacto nos orçamentos, Helio Mattar, presidente do Instituto Akatu, chega a palpitar que o custo da água será dez vezes maior do que o atual. E, caso o problema não seja resolvido, o céu é o limite para o aumento dos gastos.

“Se imaginarmos que vamos ficar sem água, quanto vale um litro? Qualquer coisa. Em um chute eu diria que uma casa que gasta 100 reais com água por mês deve passar a gastar 1 mil reais. Não tem chovido em outubro e a chuva de novembro é esperada com base em dados históricos, por isso eu chutaria que em dois meses o custo da água deve ser multiplicado por dez”, afirma Mattar.

A equação é muito simples: com uma redução na oferta de água e manutenção da demanda, o preço sobe. É a lei da oferta e demanda, quanto maior a demanda e menor a oferta, maior é a pressão sobre o valor do bem em questão.

Ocorre que, como a água é um recurso de necessidade básica os preços não flutuam tão livremente e de maneira tão óbvia quanto o preço de um tomate por exemplo, que sofre uma alta se a safra é ruim e não conta com subsídios.

Como o governo interfere nos preços da água, é difícil estimar com exatidão qual pode ser o comportamento dos preços, já que isso dependerá da forma como será gerenciada a crise daqui para frente.

O problema

A crise de abastecimento afeta a Grande São Paulo e a região de Campinas, onde cerca de 12 milhões de pessoas são abastecidas pelo Cantareira.

Neste momento, a Sabesp está usando o volume morto do Sistema Cantareira para abastecer os lares paulistas, um reservatório que armazena a água que fica no fundo das represas.

O uso dessa primeira reserva de volume morto deve durar até o dia 15 de novembro, segundo a concessionária, e o próximo passo é usar a segunda cota do volume morto. “Mesmo se usado o segundo volume morto, temos água apenas até abril do ano que vem, mas essa previsão pressupõe que ocorra o regime de chuva normal e isso absolutamente não se pode garantir”, diz Helio Mattar.

Segundo a Sabesp, o segundo volume morto seria suficiente para garantir o abastecimento até março de 2015, sem que seja decretado racionamento.

Mattar diz, no entanto, que o racionamento já começou, por mais que o governo não admita. Ele explica que o fluxo de água que sai do Sistema Cantareira era de 33 mil litros por segundo antes da crise, em novembro de 2014, em fevereiro passou a 31 mil litros, 20 mil litros em maio e no início de outubro passou a 16,5 mil litros por segundo.

“O governo afirmava que não havia racionamento, então como é possível não ter racionamento se o volume de água caiu pela metade? É óbvio que há racionamento e ele começou pela periferia, lentamente foi se aproximando do Centro e hoje está em todas regiões”, afirma Mattar.

Pesquisa do Datafolha, divulgada nesta segunda-feira, mostra que 60% das famílias da Região Metropolitana de São Paulo já ficaram sem água ao menos uma vez nos últimos 30 dias. 

Veja a seguir alguns dos reflexos que a crise de abastecimento em São Paulo pode ter nos preços.

1) Aumento dos preços dos caminhões-pipa

O racionamento já começou a refletir na demanda por caminhões-pipa. De acordo com Rita Furquim, gerente da SR Transporte de Água, que fornece água por caminhões-pipa, a empresa recebe hoje 70 solicitações por dia, ante 15 solicitações antes da crise, um aumento de 466%.

E os preços já aumentaram. “O cliente fixo pagava 14 reais por metro cúbico de água e o esporádico 20 reais. Agora já aumentamos o preço do fixo para 20 reais e do esporádico para 35 a 60 reais”, afirma Rita.

Ela diz que antes os caminhões eram abastecidos em 20 minutos e hoje demoram uma hora e meia porque, com o aumento da demanda, a água tem sido bombeada diretamente dos poços artesianos para o caminhão, sendo que antes o caminhão retirava a água já bombeada para uma caixa d’água.

A maior demanda também passou a gerar filas que têm durado cerca de três horas, segundo Rita. Assim, se antes o abastecimento era feito em 20 minutos e não havia fila, agora todo o processo demora em média quatro horas e meia.

“Tivemos de contratar mais motoristas e estamos comprando mais caminhões. Também aumentou o gasto com diesel e com desgaste dos pneus. Não dá para saber exatamente quanto pode subir mais, mas se continuar a crise chegaremos a leiloar a água”, diz Rita.

Como os caminhões-pipa são uma das primeiras alternativas de abastecimento na falta de distribuição pela Sabesp, se a crise se agravar e a população começar a solicitar o serviço, o custo pode ser altíssimo, sobretudo se chegar ao ponto de haver uma necessidade de leilão.

2) Perfurações de poços artesianos

A fonte da água dos caminhões-pipa, os poços artesianos, também seriam uma nova possibilidade de abastecimento durante a crise.

Segundo o presidente do Instituito Akatu, os poços artesianos já têm uma vazão de 10 mil litros por segundo na cidade de São Paulo e nos municípios vizinhos, mas eles teriam capacidade para fornecer de 16 mil litros por segundo. “Hoje a Sabesp distribui 16,5 mil litros por segundo, portanto esses 6 mil litros dos poços representarim 40% do volume distribuído hoje, não é irrelevante”, afirma Mattar.

A retirada de água de poços artesianos deve ser autorizada pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE). E, caso condomínios passem a fazer isso, essa também não será uma fonte de água barata.

Eduardo Zangari, diretor de relações institucionais da Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo (Aabic) diz que alguns condomínios já estão estudando a possibilidade.

“A perfuração custa cerca de 70 mil reais. Mas se não chover e o volume morto chegar ao fim a projeção é péssima, cria-se um colapso porque todo mundo vai querer perfurar o solo e as empresas vão jogar o preço lá para cima”, diz Zangari.

Ao considerar o custo de 70 mil reais, a perfuração resultaria em uma despesa extra de 5.800 reais na taxa de condomínio de cada morador, em um prédio com 12 apartamentos e em um prédio de 14 andares, com quatro apartamentos por andar, cada morador pagaria 1.250 reais.

3) Aumento das contas de água

Para reduzir o nível de consumo, também existe a possibilidade de a Sabesp aumentar o preço da água.

“O aumento do custo é uma ferramenta que a concessionária tem na mão. Para inibir o consumo, esse seria o caminho natural com qualquer insumo, se há um descompasso de oferta em relação à demanda sobe o preço”, afirma Osvaldo Oliveira, engenheiro de aplicação da Deca e doutor em engenharia civil, na área de sistemas hidráulicos prediais pela Unicamp.

Ele ressalta que o governo estadual sempre subsidiou o preço da água, mas com a crise os preços fogem do seu controle. “A água sempre foi tratada como um direito do cidadão, por isso o estado sempre subsidiou seu custo. Mas, se o estado não oferece água para a população, ela cai na vala comum, deixa de ser um recurso básico e vira uma commodity e aí o mercado é que vai mostrar custo dela”, afirma Oliveira.

4) Gastos com reservatórios

O engenheiro da Deca também acredita que cada vez mais famílias e condomínios devem comprar caixas d’água para realizar a captação de água pluvial. Nesse caso, a instalação seria outro custo possível.

“As famílias podem implantar um sistema de captação das águas de chuva, mas o maior receio é a proliferação de doenças, porque a água da chuva tem poluição difusa e a água na caixa d’agua pode entrar em contato com fezes de bichos, como de pombas”, diz Oliveira.

Os valores de uma caixa d’agua podem variar muito de acordo com o porte, mas algumas caixas pequenas são vendidas a partir de 100 reais.

Algumas casas e condomínios afetados pelo racionamento já têm comprado caixas d’agua, segundo o presidente do Instituto Akatu, para reservar um volume maior de água nos períodos em que o abastecimento é normal, obtendo assim um volume de água suficiente para cobrir os períodos de interrupção no fornecimento.

A medida, no entanto, é extremamente prejudicial pois antecipa a crise. “Não tem milagre. Se as pessoas colocam caixas d’água maiores, elas estão roubando água de alguém, elas tomam um medida individual contra o coletivo. Elas ficam com a percepção de que estão conseguindo driblar o racionamento, mas ao fazer isso só antecipam o fim da água”, diz.

5) Aumento das taxas condominiais

O eventual aumento nas contas de água pela Sabesp por si só pode gerar um aumento nas taxas condominiais, mas, além disso, os condomínios podem aumentar os investimentos com sistemas que driblem o problema da água.

Eduardo Zangari, diretor da Aabic afirma que os investimentos devem ocorrer mesmo se a atual crise for solucionada. “Se algum condomínio não investiu, agora vai investir para uma futura crise de água. É um problema real, não vai dar para ficar sem investir”, diz.

Além do reservatório, já citado, e da perfuração de poços artesianos, os condomínios podem implementar sistemas de reúso de água e aparelhos de medição para individualizar as contas.

Zangari afirma que os bônus garantidos pela Sabesp não surtiram grandes efeitos porque mais de 90% dos condomínios não têm contas individualizadas, portanto os moradores não se sentem mobilizados a economizar, uma vez que a economia fica para o condomínio.

“O maior custo do condomínio é com a folha de pagamento, a água representa uma parcela de 10% a 14% dos gastos. Por isso, se houver uma economia de 30% em algo que representa apenas 10% do total de gastos, a economia é de apenas 3% na taxa condominial”, diz o diretor da Aabic.

Segundo ele, os prédios antigos têm diferentes colunas de água para cada apartamento, por isso, para instalar um medidor, seria preciso quebrar a parede das casas e instalar o aparelho em cada ponto. Já os prédios novos possuem uma coluna apenas, facilitando a tarefa.

“O custo de implantação de um medidor para um prédio velho é sete vezes maior do que um prédio novo, por isso não vem acontecendo. Não seria uma solução de fácil implantação e o custo seria muito alto”, diz Zangari.

6) Encarecimento das garrafinhas

Os especialistas consultados também acreditam que o preço da água mineral, vendida em garrafas plásticas, deve aumentar.

Segundo a Lindoya Verão, empresa que comercializa água mineral, o preço das garrafinhas já teve um acréscimo de 10% neste ano, mas não apenas em decorrência da crise.

“Quanto aos preços, lembramos que o dissídio da categoria foi em setembro. Incluindo o custo Brasil, como por exemplo com o aumento de 20% na energia elétrica, o preço da água mineral, em média, teve acréscimo de 10%”, disse a empresa por meio de nota.

A companhia também afirmou que já está preparada para atender um aumento de até 50% na demanda atual.

“Eu apostaria que já houve um aumento na demanda por água mineral. As pessoas ficaram inseguras por achar que o governo não seria capaz de dar o tratamento adequado ao volume morto. Especialmente mães com filhos pequenos já têm comprado água de garrafinha”, diz Helio Mattar, do Instituto Akatu.