Caso “Bolha do Alicate” é lição para o investidor

CVM rejeitou um acordo com um agente autônomo acusado de participar de esquema de manipulação de preços das ações da fabricante de alicates Mundial

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) rejeitou nesta quinta-feira (31) uma proposta de termo de compromisso com um agente autônomo acusado de participar de esquema de manipulação de preços das ações da fabricante gaúcha de tesouras e alicates de unhas Mundial.

Marco Beltrão Stein propôs cancelar seu registro de agente autônomo e pagar R$ 20 mil de multa para encerrar o processo sancionador 11.002, de 2012.

O relator do processo na CVM, Roberto Tadeu, considerou que, por sua importância, o caso deve ser julgado pelo Colegiado da CVM, até para orientar as práticas do mercado.

O caso da Mundial mexeu com os mercados entre 2010 e 2011 quando a ação de uma empresa de pequeno porte passou a ser fortemente negociada, chegando a superar em alguns dias o volume de grandes companhias como Petrobras e Vale.

A Bolha do Alicate, como ficou conhecida, fez o papel disparar, saindo de R$ 0,23 em março de 2011 para R$ 7,01 em julho, um ganho de impressionantes 2.950% em cinco meses.

No fim de julho, porém, o papel despencou e voltou a valer alguns centavos, causando fortes prejuízos para muitas pessoas físicas que entraram no meio da bolha. No auge, o papel quase entrou na carteira do Índice Bovespa, sendo barrado pela bolsa.

Febre da Mundial

A “febre” por ações da Mundial mostrou exatamente o que o investidor não deve fazer no mercado de ações.

As pessoas entraram no meio da euforia, comprando ações de uma empresa pouco conhecida, sem liquidez e sem muita cobertura de analistas, mas que vinha disparando enquanto anunciava boas notícias seguidas desde o fim de 2010, num esforço de marketing para valorizar seus papéis.

Intenção de entrar no Novo Mercado, melhorias operacionais, parcerias com fundos internacionais, tudo se juntou a um esquema de divulgação pesado, que incluiu ainda palestras para investidores em corretoras.

Tudo isso seria aceitável se não fosse acompanhado de um “esforço” extra de um agente autônomo de Porto Alegre, Rafael Ferri, que também era acionista da companhia e resolveu dar uma mãozinha, recomendando as ações para os clientes e amigos e negociando ele próprio, segundo a Polícia Federal (PF), volumes elevadíssimos de Mundial para dar volume e valorizar o papel.

Manipulação de mercado

O processo de “inchaço” das ações da Mundial é descrito no processo da CVM contra Stein, e que investigou o período de julho de 2010 a julho de 2011.

Segundo a CVM, as investigações revelaram um conjunto de operações com características de manipulação do mercado e negociação com uso de informação privilegiada realizadas por um grupo de investidores no Rio Grande do Sul “capitaneado por Rafael Ferri, agente autônomo de investimentos que manteria estreitas ligações com o diretor-presidente e Diretor de Relações com Investidores da Mundial, Michael Ceitlin”.

Empresas de agentes autônomos e clube de ações

Além de Ferri e Ceitlin, a CVM concluiu que o esquema envolveu outros agentes autônomos de investimentos, incluindo Stein, realizando operações em seu próprio nome e para clientes, infringindo as regras da CVM.

Segundo a CVM, Stein era sócio de Ferri na TBCS Agentes Autônomos de Investimentos e saiu da sociedade em 21 de janeiro de 2011 para se associar a Ferri e outro agente autônomo na Quantix Agentes Autônomos.

Operando pela corretora Votorantim, Stein comprou e vendeu ações preferenciais (PN, sem voto) da Mundial de 13 de maio a 26 de julho de 2011, obtendo um lucro de R$ 26.304,00, equivalente a um ganho de 43,7% sobre o valor pago. “Além disso, teria repassado inúmeras ordens transmitidas por Rafael Ferri e seus clientes”, diz a CVM.

Informações da corretora Citigroup também mostram, segundo a CVM, que Stein, juntamente com outros dois agentes autônomos, teriam atuado como assessores do Clube de Investimentos S/A, que teria ajudado na manipulação das ações da Mundial.

Negociação por lotes mínimos

A CVM observou que Stein teria ajudado Ferri na manipulação, feita por meio de um grande volume de compras de ações sempre por lotes mínimos, “que criaram condições anormais de liquidez”.

O processo cita uma conversa de Ferri e um operador da corretora Mirae, que questinou por que o agente autônomo fazia tantas operações em lotes de 100 ações e não de 1 mil.

A resposta era que a intenção era “fazer número de negócios…” “… ele quer ficar incomodando no book” (lista de ofertas de compra e venda de um papel na bolsa).

Em seguida, afirma que “a gente opera números de negócios… não é por que vai aumentar a quantidade por ordem que a gente vai fazer menos ordens… todas as corretoras acham ruim isso aí, mas pro papel é bom, entendeu?”.

Condenados por manipulação

Em dezembro de 2012, o Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul apresentou denúncia contra dez pessoas envolvidas no caso da alta das ações da Mundial pelos crimes de formação de quadrilha e manipulação de mercado.

Em abril de 2013, os dez envolvidos, incluindo o presidente da Mundial e Ferri, foram considerados culpados em primeira instância por manipulação do mercado financeiro. A decisão foi depois, porém, suspensa em julho por um habeas corpus.

Eles ainda respondem na Justiça por crime de uso de informação privilegiada, mas foram inocentados no processo pelo crime de formação de quadrilha.

Investidor tem de se cuidar

A lição que fica é que as autoridades pouco podem fazer em casos como esses para proteger o investidor. Há muitos casos de ações de pouca liquidez e preços baixíssimos, que viram moda, disparam e voltam a cair pouco depois.

No caso da Mundial, a bolsa só agiu quando as ações iam entrar no Ibovespa e as corretoras, depois disso. A CVM abriu inquéritos em seguida, mas é pouco provável que os milhares de investidores que perderam dinheiro recuperem as perdas.

Portanto, cabe ao investidor tomar cuidado ao receber “dicas” de ações de empresas pouco conhecidas, especialmente se elas estiverem apresentando fortes ganhos no passado recente. Pode ser um convite para pagar a conta.

Sem Novo Mercado

Depois de tanta confusão, a Mundial não conseguiu a autorização da BM&FBovespa para entrar no Novo Mercado. Mesmo assim, fez um processo de reestruturação acionária e eliminou as ações sem direito a voto, as PN, ficando apenas com as ordinárias, ou ON.

Ontem (31), os papéis da companhia valiam R$ 5,20 na Bovespa. A empresa tem um capital social de R$ 50 milhões.