Por que o cartão de crédito virou o campeão da inadimplência

Saiba como utilizar bem o cartão para não contrair uma dívida impagável e engordar as estatísticas

São Paulo – Em 2001, o músico João Batista fez uma compra de 1.200 reais no cartão de crédito contando com o dinheiro de um contrato que iria assinar no mês seguinte. Mas o trabalho acabou cancelado e João, que é autônomo, não viu outra alternativa a não ser empurrar o pagamento para frente. Em um ano, a dívida triplicou de tamanho. Hoje, ela já bate em 52.000 reais. Para o médico José Tarcísio, servidor da prefeitura de São Paulo e do Ministério da Saúde, o problema começou com a decisão de comprar uma casa maior e mais confortável. “Não estava conseguindo liquidar a hipoteca e comecei a me endividar de outros lados”, afirma. O cartão de crédito foi um deles. Para cobrir os gastos, o ortopedista, que tem consultório próprio, voltou à antiga rotina de plantões noturnos. E só conseguiu renegociar a dívida a uma taxa de 10% ao mês.

Como João e José, existem milhões de brasileiros que arcam mensalmente com os exorbitantes juros do cartão de crédito. Segundo pesquisa realizada pela CNC (Confederação Nacional do Comércio), o uso indiscriminado do dinheiro de plástico é a causa do endividamento de 70,8% das famílias com renda de até dez salários mínimos. A falta de controle não acomete apenas quem nunca teve acesso a crédito. Até mesmo pessoas das classes A e B que já têm o hábito de tomar dinheiro emprestado costumam perder o controle dos gastos. O cartão responde pelas pendências de 67% das famílias endividadas que ganham acima de 5.100 reais.

Seja qual for o tamanho do contracheque, a explicação para o fenômeno é uma só. Especialistas não titubeiam em apontar os juros como os responsáveis pela bola de neve que se avulta toda vez que o consumidor quita a parcela mínima e deixa o restante para pagar depois. “Muitas vezes o sujeito entende que está honrando seu compromisso quando paga somente essa fatia da fatura. Mas ele não considera que aquele montante que ficou em aberto vai entrar no rotativo e sofrer a incidência de taxas altíssimas”, afirma Valéria Cunha, assistente de direção do Procon-SP. Dados da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade) mostram que quem adota este comportamento imediatamente submete o restante da dívida aos juros mais caros do mercado – uma média de 238,3% ao ano, contra 138,1% do cheque especial e 76,9% dos empréstimos em bancos. 


Para o consultor financeiro Mauro Calil, a prática é ainda mais perigosa por permitir que o usuário recupere seu limite de crédito mesmo deixando a maior parte das obrigações para trás. “Quem paga 400 reais de uma dívida de 4.000, terá colocado os 3.600 reais restantes sobre juros de até 15% ao mês. Mesmo assim, será possível renovar o limite original e fazer ainda mais compras”, explica. Entretanto, esticar artificialmente o orçamento cobra um preço salgado. Caso repetisse a dose pelos próximos cinco meses, a pessoa que liquidasse a parcela mínima e gastasse sistematicamente o limite de 4.000 terminaria o semestre devendo 26.200 reais.

Por isso, alerta Mauro Calil, é importante quitar a fatura do cartão na íntegra. Seja com o intuito de comprar uma roupa ou mesmo financiar um eletroeletrônico mais caro, só vale usar o cartão quando houver plena convicção de que não será preciso recorrer ao parcelamento mínimo para encher o carrinho. Isso porque qualquer outra linha de crédito irá oferecer taxas mais baratas. Enquanto o cartão cobra uma média de 10,7% ao mês, os juros orbitam em torno de 4,8% no empréstimo pessoal e 2% no crédito consignado. Portanto, o consumidor que tiver saldo devedor também sairá ganhando se procurar outro tipo de crédito para trocar a dívida do cartão por outra mais em conta.

A possibilidade mais vantajosa, no entanto, é parcelar a compra diretamente com quem está vendendo o produto ou prestando o serviço, explica Adalberto Savioli, presidente da Acrefi (associação de instituições de crédito). Muitas empresas permitem que seus clientes parcelem pagamentos no cartão em até dez vezes sem juros. Com essa simples medida, o consumidor poderá economizar centenas ou milhares de reais. Outra dica é fixar um teto para o montante que pode ser gasto com o plástico. “Independente do número de cartões que o consumidor tiver, a soma de todos os limites deve corresponder a no máximo 50% da sua renda líquida mensal”, ensina Mauro Calil. Dessa forma, o usuário fica impedido de assumir compromissos que não poderá arcar. 


Benefícios e cuidados

As tentações para o consumo são muitas e as facilidades que o cartão de crédito oferece costumam ser ainda maiores. Além de ser aceito em cada vez mais estabelecimentos, diminuindo a necessidade de o consumidor andar com dinheiro na carteira, o cartão possibilita o parcelamento das compras e a concentração de todas as despesas em uma única data de vencimento. Se utilizado com responsabilidade, é uma ferramenta que auxilia o planejamento do orçamento, discriminando as despesas efetuadas e aquelas que ainda estão por vir. Os programas de benefícios também oferecem vantagens para os usuários, com a troca de pontos por produtos diversos ou por milhas em companhias aéreas.

Somados tantos atrativos, o crescimento do uso do dinheiro de plástico não chega a surpreender. Em 2009, foram realizadas 2,8 bilhões de transações, um aumento de 28,7% em relação a 2007. Neste mesmo período, o número de cartões cresceu duas vezes menos. Embora existam mais cartões no mercado, são, principalmente, mais operações sendo processadas. “Hoje em dia, a oferta é tão grande que até a taxa anual está sendo isentada de muitos clientes”, afirma o consultor financeiro Maurício Galhardo. “Mas uma coisa é ter dinheiro, e outra é ter crédito. Como menos de 5% da população sabe fazer cálculo de juros, muita gente continua pagando a menor parcela e não se dá conta que a dívida ficará impagável”. Reflexo disso é o aumento da inadimplência no país. Em uma década, essa taxa passou de 1,92% para 24%, ocupando o lugar mais alto no ranking das operações de crédito à pessoa física.

“O cartão é um facilitador. Mas não manusear o dinheiro dá uma sensação bastante equivocada, a de que aquela transação não envolve dinheiro e que é possível comprar à vontade”, diz Valéria Cunha, do Procon. “Mas é claro que você vai ter que pagar no final. E nessa armadilha do valor mínimo, os juros podem levar ao superendividamento”, emenda. Por isso, não compre somente pelos benefícios que poderá ganhar depois. Barganhe a isenção ou o abatimento na anuidade junto a sua operadora e pague em dia a fatura que receber. No fim das contas, ver o cartão transformado em vilão depende, em boa parte, do uso que você faz dele.