Capitalização da Petrobras completa um ano sem motivos para festa

Acionistas que aplicaram dinheiro na empresa perderam muito; para o longo prazo, entretanto, analistas mantêm aposta no potencial de crescimento

São Paulo – Há um ano a Petrobras celebrava a maior capitalização já realizada no mundo. Com uma injeção no caixa de 120 bilhões de reais levantados com a emissão de mais de 4 bilhões de ações, a empresa buscou no mercado o dinheiro necessário para colocar de pé o projeto de exploração do pré-sal.

O desempenho das ações de lá para cá, contudo, ainda não recompensou os investidores que aplicaram na companhia acreditando no seu potencial de expansão. Do fim da oferta de ações até a última sexta, os papéis preferenciais caíram 26,9%. Para as ações ordinárias o tombo foi ainda maior: 28,4%.

Considerando que os papéis já tinham sofrido um desconto expressivo antes do processo de capitalização, o resultado acumulado pelas ações do começo de 2010 até agora é quase duas vezes pior.

Longe de positiva, a performance não chega a surpreender. Pelo menos é o que acredita Rodrigo Fernandes, analista da Fator. “O desempenho operacional da empresa não dependia da capitalização, realizada para prover recursos aos investimentos de longo prazo e diminuir os riscos de alavancagem financeira excessiva”, diz.

Não por menos, a orientação repassada aos investidores continua a mesma de um ano atrás. “O acionista não pode investir em Petrobras pensando em comprar de manhã e vender à tarde”, afirma o diretor financeiro da empresa, Almir Barbassa. “Quem investiu com a tranquilidade de não mexer nas ações por um período de três a cinco anos pode dormir sossegado e nem se preocupar com a crise.”

Marco Saravalle, da Coinvalores, reforça que diante da turbulência no mercado com o imbróglio fiscal na zona do euro e lenta recuperação da economia norte-americana, as ações da Petrobras são penalizadas por duas frentes. Primeiro, porque a estatal explora uma das commodities mais negociadas no mundo – o petróleo é sabidamente um dos primeiros a sentir os efeitos dos vendavais financeiros.

Segundo, pela alta liquidez das ações da empresa no Brasil e no exterior, que acabam facilmente desovadas em momentos de pânico. “Nos últimos dois a três meses, o cenário externo foi muito mais representativo para os papéis que os próprios fundamentos da companhia”, emenda Saravalle. Na visão do analista, o setor de commodities como um todo não deve performar acima do Ibovespa até o fim do ano. Embora não seja hora de aumentar a exposição ao papel, a ação da Petrobras está, na sua opinião, com um preço atrativo.

Segundo a Economática, a relação do preço sobre o lucro da companhia era de 7,38 imediatamente depois de concluída a capitalização, no dia 01 de outubro de 2010. Hoje, o P/L bate em 5,62. O número indica quantos anos o investidor leva para receber em lucros o que pagou pela ação. Quanto menor o indicador, mais barato está o papel.


Oswaldo Telles, da Banif, sustenta que o principal motivo para acreditar nas ações não se esconde por trás das cotações de hoje, mas no crescimento da empresa projetado para amanhã. “A Petrobras tem uma quantidade significativa de reservas enormes e não exploradas. Não há nada igual entre as companhias listadas no mundo inteiro”, diz. “O desenvolvimento destes campos requer recursos monumentais, mas principalmente tempo. À medida que nos aproximarmos de 2015, a percepção de valor para o acionista vai aumentar.”

Mão do governo e risco do dólar

Entoada pelos críticos à administração da estatal, a ingerência do governo sobre os negócios da Petrobras foi notadamente percebida com a escalada no preço do barril do petróleo no primeiro semestre do ano, um movimento embalado pelos conflitos na Líbia.

Como acionista majoritário da Petrobras, o governo tem participação na exploração e produção de óleo, podendo ou não repassar o aumento da commodity à gasolina. Para quem abastece com o combustível, a estabilidade não deixa de ser positiva quando o petróleo fica mais caro no mercado internacional. A decisão de abdicar do lucro, por outro lado, costuma provocar chiadeira entre os demais acionistas, que afinal de contas investem na empresa visando ganhar dinheiro.

Marco Saravalle, da Coinvalores, ressalva que quem aplica em companhias estatais assume um risco diferente, já precificado nas ações. “De certa forma faz parte do negócio e, por isso, quem compra Petrobras já deveria saber”, afirma. “Depois que o petróleo despencou com a crise em 2008, a companhia acabou sendo beneficiada porque também não houve redução do preço da gasolina.”

Embora seja difícil precisar exatamente o que deve acontecer com a gigante do petróleo diante de tantas variáveis, uma coisa parece certa no curto prazo: a Petrobras não passará imune à subida do dólar. “No último balanço trimestral, a companhia reportou uma dívida líquida de 40,9 bilhões de reais, sujeita à variação cambial”, afirma Rodrigo Fernandes, da Fator. “Isso significa que se a valorização do dólar persistir até o fim do mês, ela terá impacto negativo sobre o lucro.”

O diretor financeiro da Petrobras, Almir Barbassa, sublinha que a mudança não vai interferir no fluxo de caixa, mas no resultado contábil da empresa. Como a companhia tem cerca de 70% da dívida em dólar, as mudanças no câmbio podem afetar os próximos resultados. “A depender da taxa que vigorar no final desta semana, a correção pode sim contribuir para um balanço negativo”, diz. “Mas a própria capitalização trouxe recursos suficientes para criarmos um certo hedge a esse tipo de flutuação. A empresa está muito bem preparada para enfrentar o momento.”