Bancos oferecem planos de previdência para idosos

Banco detecta que cliente tem um valor elevado na poupança que rende pouco há muito tempo e oferece uma promessa de rendimento maior

O caso aconteceu com um amigo. A mãe dele, viúva de 80 anos, que vive sozinha, foi chamada ao grande banco onde tem conta para tratar de um assunto urgente relacionado com a aplicação em caderneta de poupança dela. Preocupada, e sem muito conhecimento do economês bancário, pediu ao filho para ligar para a gerente da conta para saber do que se tratava.

Segundo a gerente, o banco havia detectado que a mãe desse amigo tinha um valor elevado em poupança, que rendia pouco e estava aplicado lá há muito tempo. E queria oferecer uma alternativa que, além de um rendimento maior, tinha a vantagem de não entrar na herança, já que ela estava com mais de 80 anos. A alternativa: um plano de previdência privada Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL). Segundo a gerente, esses fundos tinham rendido bem naquele mês, mais que a caderneta, e teriam a vantagem de não ficar bloqueados no processo de herança.

Meu amigo, que conhece um pouco de mercado, questionou a gerente sobre o rendimento do fundo que ela indicava. Era sempre bom assim ou já tinha rendido menos? O ganho era garantido? Diante da resposta que não, que o rendimento variava, meu amigo perguntou se ela sabia que o fundo pagava imposto de renda, que poderia variar de 15% a 27% pela tributação progressiva a 35% na tributação regressiva. Sim, a gerente sabia, mas mesmo assim, afirmava, seria mais que o ganho de 0,3% ao mês da poupança.

Lembrada pelo meu amigo que os depósitos feitos pela mãe eram antigos, anteriores a maio de 2012, e portanto rendiam pelo sistema da poupança antiga, 0,5% ao mês ou 6,17% ao ano líquidos, a gerente ficou de refazer as contas. Meu amigo lembrou então a gerente que os planos de previdência aberta possuem taxas de carregamento, cobradas em cada aplicação, e que podem chegar a 3% do valor aplicado. No caso, esse percentual seria pago na transferência dos recursos para o VGBL. Além do mais, o VGBL tem um sistema de aplicações e resgates mais complexo que o das cadernetas, e mais difícil para uma pessoa de idade avançada usar.

Restava assim a questão da sucessão, pois o o VGBL realmente permite manter os recursos disponíveis logo após a morte do titular. Mas, diante dos custos da transferência, do rendimento incerto, além da inconveniência de falar da expectativa de morte para uma pessoa de 80 anos, a recomendação do banco acabou deixada de lado. E o dinheiro continuou na poupança.

O caso é um exemplo de como os bancos, em suas campanhas de metas, oferecem fundos de previdência e outros produtos sem muito cuidado. Dias depois, esse mesmo amigo recebeu a ligação de outro banco, sugerindo desta vez para ele a troca da poupança que tinha lá também por um VGBL. Segundo o gerente, o VGBL tinha rendido bem agora em julho. Perguntado sobre como tinha se saído o mesmo fundo em maio e junho, meses de forte instabilidade dos mercado, o gerente admitiu que “não tinha sido tão bom”.

A opção de usar os fundos de previdência para manter os recursos disponíveis após a morte do idoso, para pagar o inventário ou outras despesas, faz sentido. Desde que o idoso entenda o que estão fazendo com o dinheiro dele, às vezes acumulado durante anos de sacrifícios. O que mais preocupa é a falta de conhecimento, nem tanto do idoso, que já tem dificuldades de compreensão do mercado financeiro atual, mas principalmente dos gerentes, o que pode levar a pessoa a optar por uma aplicação com tributação mais alta, mais difícil de usar e com risco de rendimento menor. E, em alguns casos, até mesmo o planejamento sucessório deve ser visto com cuidado, para não complicar a vida financeira do idoso em troca do ganho financeiro de alguns herdeiros. Ou do banco.