Bancos lançam crediário no cartão, mas isso pode ser ruim para você

A intenção é concorrer com o velho parcelamento sem juros praticado pelos lojistas, que, na verdade, embute taxas mascaradas. Entenda

São Paulo – Na quarta-feira (27), a Associação Brasileira de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) lançou uma forma diferente de parcelar compras: o crediário no cartão de crédito. A intenção é concorrer com o velho parcelamento sem juros praticado pelos lojistas, que, na verdade, embute taxas mascaradas. O problema é que a nova linha de crédito pode aumentar o endividamento de consumidoreso elo fraco —, segundo especialistas. 

Você deve se lembrar do crediário por meio do boleto, um tipo de parcelamento muito conhecido no passado. A partir de agora, com o cartão na maquininha, você poderá pagar no débito, no crédito à vista, no crédito parcelado ou no novo crediário. Essa modalidade terá juros explícitos, em vez de velados, e prazos mais longos. Você poderá simular os juros, os prazos e os valores das parcelas pelas maquininhas. Se escolher o crediário no cartão, as parcelas serão lançadas nas próximas faturas. 

O lojista receberá o valor da venda em até cinco dias, de uma só vez, como se fosse uma venda à vista. Por isso, a Abecs espera que consumidores consigam negociar um desconto com o varejista, já que ele vai receber antes o valor total da compra. Se isso acontecer, bom para você.

Segundo os bancos, a adoção do crediário com juros para diminuir o uso do parcelado sem juros pode reduzir as altas taxas do crédito rotativo, usado quando você só paga o valor mínimo da fatura. Se isso acontecer, bom para você também.

O problema

O problema do novo crediário é que os juros serão definidos de acordo com a estratégia comercial de cada banco, o perfil de risco do consumidor e o relacionamento com o cliente. Ou seja, no fim das contas, as taxas podem ser mais altas do que as embutidas no crédito parcelado, de forma mascarada.

“O problema não é a baixa oferta de linhas de crédito, e sim, os juros elevados. Se o novo crediário tiver juros mais baixos, pode ser uma boa opção. Por outro lado, pode ser só mais uma alternativa para os bancos cobrarem juros altos”, diz Paulo Roque, especialista em direito das relações de consumo e diretor do Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor (Brasilcon).

A nova modalidade de pagamento só deve beneficiar quem tem dinheiro para pagar à vista e negociar um desconto. Caso contrário, as chances de pagar uma taxa de juros mais alta são grandes, segundo Michael Viriato, coordenador do Laboratório de Finanças do Insper. “Você normalmente paga juros mais altos do que os juros do lojista, embutidos no preço, porque o risco para o banco dar crédito para você é maior”, diz.

Além disso, prazos mais longos podem significar mais tempo pagando juros, apesar das parcelas menores. Ou seja, você terá de redobrar o cuidado antes de escolher a melhor forma de pagamento. Seja no crédito parcelado ou no crediário no cartão, se não pagar o valor integral da fatura, corre o risco de se superendividar.

“O consumidor que toma crédito usando o parcelamento através do cartão está sujeito à exposição de juros sobre juros. Se não conseguir cumprir com o pagamento da fatura integral no vencimento, esse valor que já foi parcelado com juros será novamente parcelado por uma nova taxa de juros. Ou seja, ele volta para uma situação muito pior”, diz Ione Amorim, economista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

O novo crediário nos bancos

O Itaú informou que a linha já está disponível e que as parcelas podem chegar a 24 vezes, mas não informou as taxas de juros.

O Bradesco informou que os clientes já podem utilizar as novas linhas desde fevereiro. As taxas variam de 0,99% ao mês até 3,99% ao mês, de acordo com o perfil do cliente, e os prazos vão de 2 a 24 meses.

O Santander informou que lança na próxima segunda-feira (1º) o crediário no cartão. As taxas de juros serão a partir de 1,99% ao mês e os prazos, de até 36 meses.

O Banco do Brasil oferecerá crediário no cartão no dia 4 de abril, com prazos de até 24 meses. O banco não divulgou as taxas de juros.