Bancos ampliam oferta de fundos de gestoras independentes

Ameaçados pelas plataformas online de investimento, bancos começam a oferecer mais fundos de casas independentes e para clientes de menor renda

São Paulo – De olho no aumento de competição provocada pelas plataformas de investimentos, os bancos se movimentam para ampliar a oferta de fundos de gestoras independentes para clientes.

A ampliação da oferta acontece de duas formas: a quantidade de fundos ofertados cresce e mais clientes passam a ter acesso a esses produtos em ao menos quatro  bancos: Itaú, Banco do Brasil, Bradesco e Santander.

Voltados para investidores que aceitam tomar mais risco, esse tipo de investimento era restrito a clientes Private, com mais de 3 milhões de reais para investir. Depois, chegaram ao Prime, voltado para quem tem mais de 1 milhão de reais para investir. A ideia é, no futuro, torná-los acessíveis a todos os clientes do varejo.

É o que aconteceu recentemente no Banco do Brasil. O banco anunciou, na semana passada, a comercialização de três fundos de terceiros para os seus clientes do segmento Estilo, que têm renda a partir de 10 mil reais. Os fundos escolhidos foram das gestoras Bahia AM Maraú, Gávea e SPX Nimitz. Até agora, os fundos de terceiro estavam apenas disponíveis para clientes Private do banco, processo que teve início há mais de dez anos.

De dezembro até junho o Bradesco ampliou de três para seis o número de fundos de terceiros ofertados a clientes. No banco, os fundos de terceiros eram oferecidos pelo segmento Private há muitos anos. Mas foi desde dezembro que o banco ampliou esta oferta para o segmento Prime.

A ideia do Bradesco é ampliar a oferta gradativamente para outras faixas do Prime, que são clientes com investimentos acima de 100 mil reais. Estes clientes podem ter acesso aos fundos de gestoras independentes oferecidos pelo banco. Mas, para isso, o cliente precisa solicitar o acesso ao gerente de sua conta de relacionamento.

O Itaú é o que está mais avançado na oferta de fundos de casas independentes. No total, 35 fundos de terceiros são oferecidos pelo banco, incluindo multifundos, fundos espelho e da Kinea, gestora independente adquirida pelo banco. É quase o mesmo número de fundos oferecidos pela gestora do banco, a Itaú Asset. Os fundos já são oferecidos a clientes do segmento Personnalité, e não apenas a clientes Private. Segundo o próprio banco, quem já tem 50 mil reais investidos consegue acessar grande parte desses produtos. 

Desde meados do ano passado o Santander dobrou a oferta de fundos de terceiros para clientes. Hoje, o banco oferece dez fundos, mas somente para clientes Private: a maioria exige aplicação inicial mínima de 50 mil reais e tem taxa de administração de cerca de 2%.

Veja alguns fundos de gestoras independentes oferecidos pelos bancos:

Banco Fundo Categoria Taxa administração Aplicação inicial
BB Gávea Macro Multimercado 1,97% R$ 50 mil
Bradesco Pimco Income Multimercado 1,56% R$ 50 mil
BB SPX Nimitz Multimercado 2,20% R$ 50 mil
Bradesco Adam Multimercado 2% R$ 50 mil
BB Bahia Maraú Multimercado 1,90% R$ 50 mil
Bradesco Kapitalo Kappa Multimercado 2,20% R$ 50 mil

Queda de participação 

Plataformas abertas de investimento, como a da XP e outras corretoras, permitiram a clientes de diversos segmentos acessarem fundos de casas renomadas. Como resultado, os bancos se viram obrigados a oferecer as mesmas opções, sob o risco de perderem clientes.

A gestora do BB tinha 21,1% do patrimônio líquido total do mercado de fundos de investimento em junho de 2017. No mesmo período desse ano, sua participação encolheu para 20,9%. No Bradesco, a participação diminuiu de 15,1% para 14,5% no mesmo período. No Itaú, passou de 14,9% para 13,6%. No Santander, passou de 6,4% para 5,9%, segundo dados da Anbima.

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Michael Viriato, professor de finanças do Insper, diz que os bancos estão ampliando a estratégia aos poucos porque ela é mais defensiva do que proativa. “Os bancos sabem que se ampliarem demais vão perder receita para os outros gestores. Mas é um movimento sem volta, e que está sendo feito tarde. Além disso, em um cenário de maior tomada de risco, com a Selic baixa, você precisa oferecer mais opções de investimento”.

O movimento, segundo ele, é benéfico aos investidores. “Eles têm acesso a produtos melhores. E o crescimento do mercado incentiva a criação de mais casas independentes”.

Viriato explica que os fundos das casas independentes não serão sempre melhores do que os oferecidos pelos bancos. Mas, em geral, por ter uma estrutura mais flexível, os gestores conseguem arriscar mais. “O banco, que zela por sua imagem e marca, tende a sempre ser mais conservador na gestão de recursos. Além disso, por conta de uma estrutura burocrática, perde muitos gestores para as casas independentes, o que acaba afetando a continuidade de uma gestão de qualidade”.

Seleção é comodidade

Uma característica que os bancos fazem questão de ressaltar é que os fundos de terceiros são cuidadosamente selecionados por eles, o que é um conforto para o cliente.

Para escolher os gestores e seus fundos, a gestora do BB diz analisar aspectos qualitativos de avaliação das equipes de gestão, conformidade e riscos dos gestores, além do nível de volatilidade, histórico de rentabilidade e evolução do patrimônio líquido dos fundos.

Bruno Stein, superintendente do Itaú, destaca que os fundos não complementam a carteira da gestora do banco, mas representam os melhores produtos oferecidos pelas casas independentes. “A ideia é oferecer o máximo de opções aos clientes, não apenas o que não estamos oferecendo dentro de casa. O intuito é que o cliente tenha poder de escolha. E, o mais importante: não é cobrada qualquer taxa adicional para ele aplicar nesses fundos pelo banco”.

Contudo, essa comodidade não deve dispensar a pesquisa em plataformas de investimento, diz Viriato. “A oferta de fundos dos bancos, apesar de bem selecionada, ainda é bastante restrita. Vale pesquisar em outras plataformas se as opções são, realmente, as melhores para o perfil do investidor. Mesmo porque os bons fundos costumam ser oferecidos primeiro nessas plataformas antes de chegarem aos bancos”.