4 histórias de quem passou de perdedor a ganhador na Bolsa

Quatro histórias de traders que tiveram perdas de até 320.000 reais e ganhos de mais de 2 milhões de reais no mercado de ações

São Paulo – Uma das principais diferenças entre um investidor experiente e um iniciante pode ser a quantidade de prejuízos já sofridos. Com certa frequência, analistas, traders e outros profissionais que atuam no mercado de ações dizem que as experiências negativas foram os seus melhores aprendizados e fatores determinantes para que atingissem um nível de maturidade para saber como lidar com as inconstâncias da Bolsa e ganhar com isso. 

EXAME.com conversou com quatro traders que compartilharam os principais erros e acertos de suas trajetórias, que vão de perdas de 320.000 reais até ganhos que superam a casa dos milhões. Os quatro deixaram suas principais ocupações para trabalhar como traders e hoje são sócios do Trade ao Vivo, ferramenta do Rico, home broker da corretora Octo Investimentos, que promove aulas ao vivo para investidores durante os pregões. 

I. R. L. – Ex-militar: prejuízo de 320.000 reais e ganho de 800.000 reais

Em 2000 I. R. L. era militar e foi apresentado ao mercado de ações por um major que investia na Bolsa. Interessado, ele passou a gerenciar junto ao major os recursos de um grupo de investidores formado por 20 militares. Os investimentos foram muito bem até que eles decidiram aplicar em ações da Varig, quando estavam a 1,64 real. Por engano, em vez de comprarem 1.000 ações, compraram 10.000, um investimento de 16.400 reais. Na época, por volta de 2004, a empresa passava por uma série de mudanças, quase se fundiu à TAM e e em uma semana os papéis chegaram a passar de 50 centavos a 9 reais. I.R.L. vendeu o papel a 7 reais e os 16.400 reais investidos viraram mais de 70.000 reais. “Foi um baita golpe de sorte”, diz.

Empolgado, I.R.L. tomou um empréstimo de mais de 400.000 reais que o banco lhe ofereceu, com o consenso do grupo, e investiu um total de 516.000 reais novamente em ações da Varig. O papel teve então uma forte queda – quando a Gol ultrapassou a empresa em participação no mercado – e foram perdidos 230.000 reais em apenas um dia. “Minhas primeiras lições na Bolsa: não se deve pegar dinheiro dos outros para investir. Você ganha da maneira errada e pode perder muito depois”, comenta.

Depois de perder os amigos por causa do prejuízo, no final de 2005 I.R.L. deixou o quartel e se dedicou a estudar o mercado de ações. Então, em 2006, sua mãe vendeu um imóvel de 400.000 reais e pediu ao filho que investisse o valor na Bolsa. “Eu perdi 320.000 reais com a compra de opções e fiquei só com 80.000 reais. Mesmo estudando, na prática alguma coisa sempre dava errado”, lembra.

Por causa da perda, ele parou de investir, mas insistiu nos estudos. Passou a investir com mais cautela e, em 2007, quando a Petrobras anunciou a descoberta do campo de Tupi, em um dia I.R.L. recebeu o dobro do que havia perdido, acumulando 800.000 reais. “O mercado me perdoou e eu tirei todo o peso das minhas costas. Depois disso, resgatei todo o dinheiro e o devolvi aos meus pais”, afirma.

Lições

Um investimento alavancado pode ter consequências tão drásticas quando o tamanho da sua alavancagem. Além disso, não é tão simples comprar ações na baixas e esperar para vendê-las em um momento de alta. Investir em ações envolve uma análise detalhada e acompanhamento constante. Se alguns movimentos, mesmo quando estudados, podem não ser compreendidos por especialistas, as chances são menores ainda para investidores iniciantes. Por isso, cada movimento deve ser muito bem pensado e no início é preferível optar por investimentos de menor risco.


Rogério de Araujo – Prejuízo de 200.000 reais e recuperação com mudança de estratégia

Rogério de Araújo começou a investir em 1994, aos 16 anos, em ações do banco Banespa. Ele trabalhava prestando serviços a empresas do mercado financeiro e paralelamente coordenava seus investimentos. Em 1997, ele lembra que a Bolsa teve uma queda de 14% em único dia, e ele perdeu 200.000 reais com a compra de opções da Telebrás.

Em 1998, Araújo começou então a estudar análise gráfica e conseguiu manter uma boa rentabilidade nos investimentos. “Antes eu fazia especulação e não sabia o que estava fazendo. Por isso, me aventurei no mercado de opções, que eu não conhecia. Só depois de estudar, eu entendi que essas operações eram mais complexas e exigiam maior nível de conhecimento”, relata.

Ele formou então uma nova carteira, segundo ele, já com uma nova visão sobre os investimentos. Araújo tinha uma carteira de ações como patrimônio, que privilegiava papéis de bancos e que raramente era modificada e, paralelamente, ele trabalhava com day trade – operações iniciadas e encerradas em um mesmo dia – no mercado futuro – no qual a compra e a venda de um ativo são feitas por preços ajustados diariamente de acordo com as expectativas do mercado em relação ao seu preço futuro. “Eu era conservador na carteira que eu usava como patrimônio e agressivo na outra carteira para conseguir uma remuneração melhor”.

Usando essa estratégia e mantendo os estudos, em 2008, quase dez anos depois de sua maior perda, Araújo recuperou todo o valor perdido nas experiências passadas.

Lições

O investidor deve entender que algumas operações, como no mercado de opções, requerem um maior nível de compreensão. Rogério Araújo também diz que lidar com o mercado de ações não se trata apenas de conhecer a análise ou o papel, mas também do quanto se está preparado psicologicamente para entender as perdas e para encontrar oportunidades nelas. Depois da perda, ele mudou a estratégia e passou a diversificar mais seus ativos, mantendo parte da carteira em operações de maior risco, no mercado futuro, e parte na compra de ações à vista, aplicação com menor risco. 

André Ribeiro de Moraes – Ex-engenheiro: prejuízo de 50.000 reais e ganhos de mais de 2.000.000 de reais

Depois de se formar em engenharia, André Ribeiro de Moraes passou a trabalhar no setor de construção civil e ganhava um bom salário, mas não sabia como investir o seu dinheiro. O interesse pela análise gráfica o levou a iniciar os investimentos em ações em 2003. O retorno foi imediato, sobretudo por conta do bom momento do mercado. Em três anos, ele conseguiu dobrar seu salário. Em 2006, ele deixou o emprego de gerente de construção civil da prefeitura de Taubaté e passou a se dedicar inteiramente aos investimentos. 

No ano de 2007, ele teve seu maior prejuízo: em um único dia ganhou 25.000 reais e perdeu 50.000 reais. “Hoje eu sei que foi o melhor dia de trade para mim. Eu aprendi ali que o que separa o vencedor do perdedor é o gerenciamento de risco e eu não tinha isso definido, hoje eu tenho. Em todas as minhas operações eu sei o quanto eu posso perder e, se tudo der certo, eu sei o que vou ganhar”, afirma.


Depois de se dedicar aos estudos, em 2008 conseguiu conquistar o primeiro milhão com ações da Vale e com o aluguel de ações da Sadia, que ainda não tinha se fundido à Perdigão. O tomador do aluguel (arrendatário) aluga uma ação quando acredita na sua queda, pagando uma taxa ao dono do papel (doador). A ação é alugada com o objetivo de ser vendida por um valor e recomprada no vencimento do aluguel por um valor mais baixo.

Por exemplo, uma ação alugada a 100 reais, vendida pelo arrendatário durante o aluguel por 100 reais, que passe por uma queda e seja recomprada por 50 reais, resultaria em um lucro bruto de 50 reais. André não citou os valores exatos, mas diz que ganhou uma alta quantia ao alugar ações da Sadia, pouco antes de a empresa anunciar um prejuízo com uma operação em dólar, que levou à queda do valor do papel.

Em 2009, André montou a carteira com a qual segue até hoje e que considera ser a mais consistente de todas que já teve, composta, entre outras, por ações da Eztec, JHSF e Embraer. “Até então, eu não tinha visão de que se investia em longo prazo. Em 2008, aproveitei para alimentar a carteira de longo prazo”. Ele não revela detalhes do valor do seu patrimônio, mas conta que, pelo menos, já dobrou o seu primeiro milhão.

Lições

André diz que a sua maior lição foi ter aprendido que é muito difícil enriquecer no mercado de ações sozinho e que a melhor forma de compreender a flutuação do mercado é por meio da observação de seus riscos.

Aliakyn Pereira de Sá – Ex-gerente de vendas – perdeu 60% de tudo que tinha 

Aliakyn trabalhava como gerente de vendas e começou a investir no mercado de ações em 2005. No começo ele teve sucesso, mas em 2006 teve prejuízos ao investir em “micos” – papéis de pouca liquidez, geralmente baratos. “Eu não sabia nada e comprei a ação da Telebrás. Quando eu vi que ela estava subindo, ao invés de vender, eu comprei mais. Eu perdi 60% de tudo que eu tinha poupado na minha vida”, recorda-se.

Ele passou então a frequentar fóruns e fez alguns cursos de análise gráfica. “Antes, eu tinha como referência só a cotação. Eu não entendia as tendências de alta e baixa”. Em 2008, assim como André e os outros sócios, ele recuperou seu prejuízo acompanhando ações da Vale e da Sadia. “A partir daí eu parei de operar micos, como ações da Telebrás – antes de ser reestatizada -, JB Duarte, Parmalat e Mundial”, conta.

Em 2009, Sá conseguiu acumular mais ganhos e montou uma carteira com ações da Rossi, LLX Logística, Vale e Petrobras. “Eu aprendi que a Bolsa na verdade é muito justa, na medida em que, com uma análise técnica, nós sabemos sempre quanto vamos perder. Em outra atividade, como um posto de combustível, eu não sei eu vou ter lucro, se eu tiver, de quanto vai ser e, principalmente, eu não sei qual é o meu risco”, diz.

Lições

Os papéis com menor liquidez e mais baratos da Bolsa, chamados de “micos” no jargão do mercado, são altamente especulativos, podendo ser bastante arriscados. Por terem valor de face reduzido, pequenas variações absolutas se traduzem em grandes ganhos ou perdas percentuais, e muitas vezes essas oscilações sequer têm motivos claros para ocorrer. Foi o que ocorreu no ano passado, quando os papéis da fabricante de tesouras, alicates, esmaltes e bombas hidráulicas Mundial foram os protagonistas de uma alta de 1.500% antes de começarem a despencar. O movimento anormal, conhecido como “bolha do alicate”, chegou a se tornar alvo de investigação da Polícia Federal.

Aliakyn também diz que com as perdas ele entendeu que alguns investidores aprendem a ter bons resultados antes de outros, mas que é praticamente impossível ganhar no curtíssimo prazo, pois leva um certo tempo até que os resultados sejam mais consistentes.