Boa Vida | Você é Bordeaux ou Borgonha?

As duas regiões produtoras de vinho mais famosas da França têm estilos opostos e dividem aficionados ferrenhos

Nascido e criado na região francesa da Borgonha, apesar de trabalhar com vinhos desde muito jovem, Cédric Grelin, diretor da importadora PNR, só experimentou um vinho de Bordeaux quando já tinha 25 anos. “Era a Festa da Vindima e eu sentei do lado do meu então chefe”, diz. “Ele estava bebendo um Comtesse de Lalande [um grande Bordeaux, diga-se] e me serviu uma taça. Achei excepcional. Não queria que ninguém tocasse na minha taça. Era um outro mundo que se abria.”

Parece exagero, e é mesmo, para a maioria dos mortais. Não para um apreciador de um Bordeaux. Da mesma forma, os vinhos da Borgonha têm uma legião de ferrenhos defensores. Preferidas dos poderosos do mundo todo, essas duas regiões francesas produzem os vinhos mais caros do planeta, como o Château Petrus, de Bordeaux, e o Romanée-Conti, da Borgonha, cujas garrafas saem das vinícolas por alguns milhares de euros.

Histórias que mostram uma certa rivalidade entre as duas procedências são comuns. Apesar de fã dos Bordeaux, Grelin é também um admirador dos Borgonha. “Aqui na importadora isso até virou uma brincadeira”, diz ele, referindo-se ao fato de que trabalha para Philippe de Nicolay Rothschild, membro da famosa família de Bordeaux e radicado no Brasil. “Quando chego à Borgonha, mando uma mensagem para o senhor Philippe: ‘Cheguei ao centro do universo’. Ele responde: ‘Está em Lafite [Château Lafite Rothschild, o domaine de sua família em Bordeaux]?’ ”

Rivalidades à parte, as duas apelações mais famosas da França para vinhos tintos e brancos realmente têm estilos quase opostos, e revelar preferência por uma delas indica o perfil do consumidor. “Se um cliente me diz que prefere Bordeaux, eu sei que ele gosta de vinhos estruturados, com bom corpo, madeira mais evidente, fruta um pouco mais madura”, diz o sommelier Diego Arrebola, sócio da consultoria Entre Copos e três vezes vencedor do Campeonato Brasileiro de Sommelier. “Se prefere Borgonha, está em busca de algo mais fresco, menos encorpado, elegante, com taninos mais sedosos.” A diferença de estilos começa nas uvas. “Para começar, Bordeaux faz vinhos com a mistura de uvas, blends”, diz Philippe de Nicolay Rothschild. No caso dos tintos, as principais são cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc e petit verdot. Para os brancos, semillion e sauvignon blanc. “E a Borgonha faz monovarietais. Por lá, todos os tintos são de pinot noir; e todos os brancos, ou pelo menos os melhores, são de chardonnay.”

As escolhas já determinam que os Bordeaux tintos serão vinhos encorpados, com bastante taninos; e os Borgonha, mais elegantes, com acidez mais pronunciada. No caso dos brancos, acontece o contrário. Os Borgonha são mais encorpados, densos, e os Bordeaux são mais leves, frescos. Mas a diferença não para por aí. Em Bordeaux, as propriedades são maiores. “Na Borgonha, os vinhedos são pequenos e têm vários proprietários”, diz Gregory Georger, da Parigot Cremant de Bourgogne, uma produtora de espumantes. “Então, você pode encontrar várias expressões de um mesmo vinhedo. Isso pode ser um pouco complicado para novatos, mas é fascinante para os apaixonados por vinho.”

Desde sua formação na Idade Média, quando era cultivada por monges beneditinos, a viticultura na Borgonha é baseada em pequenas parcelas. Isso porque a região tem grande variedade de solos. “Apesar de a cepa ser a mesma, um vinho de uma parcela é diferente do vinho da parcela vizinha”, diz Ludivine Griveau-Gemma, enóloga do Domaine des Hospice de Beaune, vinícola pertencente a um hospital e formada de doações de parcelas de vinhedos ao longo dos séculos.  “A Borgonha é detalhe”, diz Alaor Lino, da Anima Vinum, importadora focada na região, que traz os vinhos do Hospice de Beaune para o Brasil. “Você compara vinhos de uma mesma variedade.” Segundo ele, na Borgonha a atenção ainda está mais na terra do que em Bordeaux. “Lá eles focam na vinificação, na arte do blend.”

Quando a rivalidade vem à tona, uns dizem que não ter a possibilidade do blend limita e, em safras mais difíceis, chega a prejudicar a qualidade. Outros afirmam que o blend tem menos sutilezas. “A maioria das uvas melhora com o blend”, afirma Lino. E crava: “Mas há três uvas que são state of art, ou seja, são tão boas que não devem ser mescladas: pinot noir, chardonnay e riesling”. Outra grande diferença é o tamanho das regiões. “Bordeaux é cinco vezes maior que a Borgonha”, diz Yann Schÿler, sócio do Château Kirwan, um dos grandes vinhos de Bordeaux, e da revendedora Maison Schröder & Schÿler. “São 58 denominações e 7 000 produtores de uvas. Por ano, são produzidos 600 milhões de garrafas; desses, 25 milhões são de vinhos classificados como cru classés (qualidade superior). Nenhuma região no mundo produz tanto vinho de qualidade. Além dos cru classés, há muito vinho médio por bom preço. Na Borgonha, os preços são mais elevados.

Outra diferença está no estilo de vida das duas regiões. Borgonha é no interior, Bordeaux fica no litoral. “A gente vive entre o mar e a floresta, com a cidade de Bordeaux no meio”, diz Jean-Jeaques Dubourdieu, do Denis Dubourdieu Domaines. “E estamos a 2 horas de carro da Espanha, somos um porto. Então, naturalmente, somos ligados ao resto do mundo. Bordeaux é uma cidade aberta, onde você encontra gente, degusta comidas e bebe vinhos de todas as partes do mundo.” Já a Borgonha é mais fechada. “Vivemos em pequenas vilas e nossas vinhas estão espalhadas em diversos vinhedos”, diz Veronique Drouhin, da Maison Joseph Drouhin. “Em Bordeaux, os produtores ou vivem no château [casa senhorial que é sede da vinícola] ou na cidade de Bordeaux.” Eve Faiveley, do Domaine Faiveley, completa: “Na Borgonha, somos mais pé na terra. Bordeaux é mais chique”. Mas que ninguém se engane: um pé na terra pode ser bastante sofisticado.