Virada na Argentina inicia nova onda na América Latina?

O novo presidente da Argentina, Mauricio Macri, representa a esperança de uma era mais racional — em seu país e na América Latina

São Paulo — Assim como tanta coisa neste mundo, a política se movimenta em ondas. Na América Latina, a última década foi varrida pela tenebrosa onda do populismo. Com raríssimas exceções, os países da região cederam à tentação das soluções fáceis, das guerras de classe e do irracionalismo econômico.

O modelo, como se sabe, provou pela enésima vez sua incapacidade de funcionar, o que pode ser constatado pela falta de rolos de papel higiênico nos supermercados venezuelanos, pela profunda recessão brasileira, pela acelerada inflação argentina.

O fracasso, claro, reacende a esperança de que a racionalidade volte a ganhar espaço na região — e, hoje, ninguém simboliza essa esperança como Mauricio Macri, recém-empossado presidente da Argentina.

Em poucas semanas, ele já promoveu uma ruptura com a política econômica da antecessora, Cristina Kirchner, revogou a obscena Lei de Mídia, começou uma reforma em órgãos responsáveis por estatísticas oficiais (nas quais ninguém acreditava mais), liberou a flutuação do câmbio e denunciou o chavismo. Não é pouca coisa.

O principal desafio de Macri é consertar uma economia estagnada que sofre com uma inflação de 26% ao ano, segundo estimativas privadas. Filho de um rico empresário dos setores de construção, automóveis e alimentos, Macri presidiu o clube de futebol Boca Juniors nos anos 90 e entrou na política na década seguinte.

Foi deputado e, depois, prefeito de Buenos Aires por dois mandatos consecutivos. Em 2010, já era um líder oposicionista e dizia esperar que a região passasse por uma virada política. Não foi o que aconteceu naquele momento. Mas pode ter começado com sua eleição. Se Mauricio Macri der certo, quem sabe a sensatez volte a ganhar votos em outros cantos da América Latina.