Carta de EXAME — Vigilância, sempre

“O preço da liberdade é a eterna vigilância.” A frase do americano Thomas Jefferson é muito apropriada para o Brasil atual

“O preço da liberdade é a eterna vigilância.” A conhecida frase é atribuída a Thomas Jefferson, um dos autores da Declaração de Independência dos Estados Unidos e o terceiro presidente do país (1801-1809). Em quase dois séculos e meio, os americanos souberam observar o alerta de um dos pais fundadores da nação, que se manteve como uma democracia ininterruptamente, mesmo ante ameaças, as maiores delas provavelmente oriundas de fora de suas fronteiras. Hoje, na visão de alguns analistas, a democracia americana está submetida a um teste interno de estresse, sob o governo de Donald Trump.

Se para os americanos, com sua firme tradição de defesa das liberdades, a vigília não pode esmorecer, mais ainda isso se aplica aos brasileiros. Aqui, apesar de sermos um país à beira de completar 200 anos, a trajetória teve períodos ora democráticos, ora de autoritarismo. Ainda não faz 30 anos que o Brasil renovou a República com a primeira eleição direta para a Presidência pós-ditadura militar. Somos, portanto, uma jovem democracia, que avançou significativamente desde então em vários campos. Mas ainda tenra e precisando se fortalecer.

Chegamos às vésperas do primeiro turno da eleição de um novo presidente num quadro de disputa acirrada, uma situação que em si é bem-vinda por oferecer ao eleitor um leque de escolhas no espectro político-ideológico e com diferentes propostas para a economia. Porém, a fragilidade das promessas dos candidatos — algumas chegando ao descolamento da realidade — é um motivo de preocupação, analisado em uma das reportagens do conjunto de capa desta edição.

Mas o que talvez seja mais grave é a recente polarização da campanha. Dois extremos a esta altura, no dia 25 de setembro, dominam as pesquisas e têm gerado no país uma divisão que leva ao ódio, a ponto de um atentado contra a vida de um dos candidatos ter sido cometido. Não por acaso, esse candidato é o que sustenta um dos discursos mais radicais.

O problema maior dessa escalada é o que ela pode trazer de riscos futuros para a incipiente democracia brasileira. Sabemos como podemos entrar numa vereda dessas, mas não sabemos aonde ela pode nos levar. O alerta de Jefferson também merece ser lembrado porque o ambiente mundial em que a eleição no Brasil ocorre inspira cuidado — esta edição traz um artigo da ex-secretária de Estado americana Madeleine Albright sobre o perigo de uma volta à tona do fascismo no planeta.

Neste momento, em que a democracia no Brasil passará por mais uma prova, o papel que a imprensa exerce na vigilância ganha relevo — e EXAME continuará a fazer sua parte.


Uma pausa para assuntos mais leves: nesta edição, estreia a seção EXAME VIP, sobre cultura, moda, lazer e consumo. O título foi lançado em 1981 por EXAME e permaneceu até recentemente como uma revista da Editora Abril. Em sua nova versão, incorporada a EXAME, será editada pelo jornalista Ivan Padilla Albareda, ex-diretor da revista VIP e atualmente diretor de projetos especiais e do estúdio Abril Branded Content.

Boa leitura e bom divertimento!