Uma luz no debate ambiental na Rio+20

Em meio à crise, a Rio+20 tenta recolocar a questão da sustentabilidade entre as prioridades mundiais

São Paulo – A avaliação da vida na terra nos últimos 20 anos leva a conclusões aparentemente paradoxais. É tanto possível dizer que o mundo se tornou um lugar melhor como sustentar que piorou. Do ponto de vista social, houve grandes avanços. O PIB per capita aumentou 40%.

A participação das mulheres na força de trabalho cresceu 53%. Os anos de escolaridade foram ampliados em 48%. Isso tudo num período em que a população mundial passou de 5,5 bilhões para 7 bilhões de pessoas. Já nos indicadores ambientais, apesar de todos os acordos e protocolos que foram assinados, os motivos para comemorar não são muitos.

Afinal, a temperatura média do planeta subiu 0,5 grau, as emissões de carbono aumentaram 39% e o consumo do petróleo  subiu 30%. É para este planeta com imensos desafios que cerca de 50 000 pessoas, de mais de 190 países, deverão olhar na Rio+20, conferência das Nações Unidas que acontecerá de 20 a 22 de junho no Rio de Janeiro.

Passados 20 anos da Eco-92, o Brasil recebe novamente um evento de dimensões globais que definirá a agenda de sustentabilidade nas próximas décadas. Ainda não se sabe se o encontro contará com a presença dos grandes líderes mundiais — e o risco de um esvaziamento do evento é real. 

A conferência ocorre num momento de inflexão. Duas décadas depois, novas forças emergiram no mundo. Em 1992, a China era apenas a nona economia global — hoje é a segunda. O Brasil ainda era o país da instabilidade econômica e das promessas não cumpridas.

Os emergentes, que deverão continuar a puxar o crescimento global nos próximos anos, nem sequer eram encarados como uma força econômica. Esse é o ponto positivo.

O problema é que a atenção da maior parte dos países está longe de temas ligados à sustentabilidade. Se em 1992 a economia global começava a se recuperar de uma rodada inflacionária do final dos anos 80, agora não há perspectiva de quando ou como a crise que abate os países ricos, em particular a Europa, se dissipará.

“Os países do G8 estão mais preocupados em salvar sua economia do que o planeta”, diz Marco Fujihara, da consultoria Key Associados, de São Paulo, e conselheiro para assuntos ambientais do Banco Mundial. É essa percepção que coloca um grande ponto de interrogação nas expectativas de quem acompanha a organização do encontro deste ano.


Segundo a ONU, a conferência deverá gravitar em torno de dois temas: a estrutura de governança global para o desenvolvimento sustentável e a economia verde.

O primeiro trata da necessidade de instrumentos que viabilizem a transição dos países para o desenvolvimento sustentável. A crítica recorrente é que os diversos acordos e tratados são de difícil cumprimento sem um quadro institucional claro.

Por isso, há propostas para a criação de uma agência internacional nos mesmos moldes da Organização Mundial do Comércio, que estabelece regras globais para as trocas comerciais e resolve disputas entre paí­ses. Outra proposta sobre a mesa é transformar o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) num órgão independente.

Apesar de a questão institucional entusiasmar o debate entre os diplomatas, a economia verde é que deverá ser a grande estrela do evento. Esse é um conceito ainda em construção. Para a ONU, trata-se da promoção da melhoria do bem-estar humano e da igualdade social, com a redução dos riscos ambientais.

Dito de outra forma, o desenvolvimento da economia verde promoveria a exploração eficiente de recursos naturais, menor uso de carbono e maior inclusão social. O tema foi escolhido para marcar um certo distanciamento do foco ambientalista da Eco-92. A seu favor há uma profusão de estudos.

Um da Organização Internacional do Trabalho estima que a economia verde poderia gerar 60 milhões de empregos na próxima década caso os governos incentivassem novas tecnologias ambientais e apoiassem setores como o de energias renováveis. Calcula-se que 5 milhões de postos de trabalho tenham sido criados apenas no setor de energia renovável entre 2006 e 2010.

Somente na Europa, quase 15 milhões de pessoas já trabalham com a proteção da biodiversidade. Nos Estados Unidos, 3 milhões de empregos estão ligados ao setor de bens e serviços ambientais.

Pelos cálculos da ONU, a transição para a economia verde exigiria um investimento anual equivalente a 2% do PIB mundial — cerca de 1,3 trilhão de dólares — até 2050, o que, em uma época de crise, pode não ser uma tarefa das mais fáceis. Por isso, muitos acreditam que a pressão sobre a iniciativa privada aumentará.

“O setor privado produz hoje quase tudo o que consumimos, gerando 60% do PIB e do emprego no mundo. Precisamos de um novo modelo corporativo para fazer a transição para uma economia verde”, diz o economista indiano Pavan Sukhdev, da consultoria GIST Advisory e conselheiro das Nações Unidas na Iniciativa da Economia Verde.


Parte da ambição em migrar para um modelo global de economia verde envolve a discussão da vida nas cidades, onde já mora metade da população mundial.

Em 2030, estima-se que cerca de oito de cada dez pessoas estarão em zonas urbanas. Portland, nos Estados Unidos, Malmo, na Suécia, e Curitiba, no Brasil, costumam ser citadas como exemplos de cidades que desenvolveram sistemas de eficiência energética e de mobilidade urbana mais sustentáveis.

Há lugares na Ásia, porém, que estão nascendo preparados para oferecer qualidade de vida e respeito ao meio ambiente. O melhor exemplo é o da coreana New Songdo. Sua construção começou em 2009 e hoje é considerado o maior empreendimento privado urbano do mundo.

Projetada para receber 250 000 pessoas, a cidade vem sendo construída com foco na produção do menor passivo ambiental possível: a madeira utilizada em edificações tem de ser reciclada, os prédios comerciais e residenciais adotam sistema de eficiência energética e a água tem de ser reaproveitada. 

Não é por acaso que New Songdo nasce num país em que a economia verde passou a ser perseguida como meta de desenvolvimento. Desde que assumiu o governo da Coreia do Sul, em 2008, o presidente Lee Myung-bak estabeleceu metas ambiciosas para a sustentabilidade, como reduzir de 81% para 61% a participação de fontes fósseis na matriz energética do país até 2030.

Durante a crise financeira, a Coreia do Sul criou um pacote de estímulos econômicos no valor de 38 bilhões de dólares, mas atrelou 80% dos investimentos a projetos voltados para a economia verde, o chamado Green New Deal. O mais importante deles está ficando pronto agora.

Trata-se da recuperação dos quatro maiores rios do país, para a qual foram destinados 18 bilhões de dólares. A experiência coreana pode parecer uma extravagância, mas está sendo usada como uma prova de que a transição é possível mesmo em meio à crise. Essa é a mensagem que se espera que os chefes de Estado  presentes na Rio+20 escutem.