Carta de EXAME — Uma grande oportunidade

O Brasil está diante de uma grande oportunidade: entrar para o grupo de países com estabilidade econômica e juros baixos.

O Brasil vive atualmente uma situação inédita em sua história: queda da inflação, juro oficial baixo (para os padrões do país, é claro) e economia em recuperação. A inflação em 2017 fechou em 2,95%, abaixo do piso da meta fixada pelo governo, de 3% — foi a primeira vez que isso ocorreu desde a adoção do regime de metas em 1999. Com a inflação abaixo das expectativas, o Comitê de Política Monetária (CPM) do Banco Central anunciou no dia 21 de março o 12o corte consecutivo da Selic, taxa de juro básica da economia, para 6,5% ao ano — o menor nível desde a criação do Copom em 1996. Após dois anos de recessão, o PIB brasileiro cresceu 1% em 2017 — para este ano, as projeções dos analistas apontam um crescimento em torno de 3%.

Tudo somado, o Brasil está diante de uma grande oportunidade: entrar para o grupo de países com estabilidade econômica e juros baixos. Houve uma época em que os brasileiros se acostumaram com inflação anual de dois ou mais dígitos. O Plano Real mostrou que era possível derrotar a “cultura inflacionária”. Agora chegou a hora de colocar os juros em níveis civilizados. E o que os brasileiros ganhariam com isso? Num cenário de juros de um dígito e inflação sob controle, o crédito mais barato estimularia a economia. De acordo com uma estimativa da consultoria 4E, em termos reais, o PIB per capita poderia crescer 20% em cinco anos, para cerca de 35 000 reais — seria algo em torno de 4 300 reais a mais no bolso de cada brasileiro em comparação com 2017. O crédito mais farto poderia também aumentar o interesse do capital privado em investir em setores em que o país tem enormes carências, como saneamento e transportes. Com juros e inflação controlados e um crescimento de 3% do PIB, a estimativa é que 1 trilhão de reais poderiam ser destinados à infraestrutura até 2022, segundo a consultoria Inter.B.

Esse cenário auspicioso, no entanto, só terá chance de se materializar se o próximo governo levar adiante a atual agenda de reformas, especialmente a da Previdência. E aí entra o imponderável: com o quadro eleitoral nebuloso, ainda não dá para cravar quem será o próximo ocupante do Palácio do Planalto e saber qual é o grau de compromisso que terá com as reformas em curso. Não custa lembrar que, não faz muito tempo, a presidente Dilma Rousseff tentou derrubar os juros com um canetaço, pressionando os bancos públicos a reduzir suas taxas. A Selic chegou a cair momentaneamente, mas, com as gastanças de dinheiro público para tentar estimular a economia, os juros voltaram a subir com toda a força.

Que os erros do passado sirvam de lição. Como mostra a reportagem de capa desta edição, a história recente tem diversos exemplos de que transformar um país habituado a juros altos numa economia saudável exige persistência, pois os ganhos duradouros demoram a aparecer. O Brasil começou a andar na direção certa, mas ainda há muito o que fazer.