Mossul, no Iraque, passa por uma retomada difícil

Empresas e comerciantes retomam os negócios numa região do mundo que é uma importadora relevante de produtos brasileiros

Quando deixa a aula na universidade, onde estuda geologia, o estudante Khaled Ibrahim, de 23 anos, quase sempre faz o mesmo programa. Como muitos outros jovens de Mossul, segunda maior cidade do Iraque, ele passa boa parte do tempo no café Book Forum, inaugurado há alguns meses. “Sei que vou encontrar algum amigo aqui”, diz Ibrahim. A programação do café é variada. Vai de sessões de música a debates sobre diversidade e tolerância em que todos participam e dão palpite. Em uma cidade como Mossul, declarada a capital do grupo terrorista Estado Islâmico em 2014, as atividades no Book Forum têm um sabor especial. “Decidi abrir o café justamente para promover a troca de ideias e o diálogo para evitar que movimentos extremistas voltem a emergir”, diz o empreendedor Fahad Sabah, de 30 anos, dono do estabelecimento.

A guerra na Síria, que já vai para seu oitavo ano, abriu caminho para grupos como o Estado Islâmico explorarem o vácuo criado pela ausência do Estado e conquistarem território. Os extremistas chegaram a dominar um terço do Iraque e parte da Síria. Os militantes passaram a explorar os poços de petróleo, vendido no mercado negro, e a extorquir os moradores, cobrando taxas dos empresários e comerciantes. Antes que seu domínio se estendesse por um território ainda maior, o Exército iraquiano e as forças de coalizão, lideradas pelos Estados Unidos, lançaram uma ampla ofensiva para combatê-los. Em Mossul, capital econômica do norte do país e importante ponto na rota comercial com a Turquia, a luta durou nove meses e só terminou em julho do ano passado, quando a cidade foi libertada do domínio dos terroristas. Os bombardeios obrigaram centenas de milhares de pessoas a deixar suas casas e destruíram quase metade da cidade, que, antes da guerra, tinha mais de 1,5 milhão de habitantes.

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Um ano depois do fim do conflito armado, a região começa a se reerguer. A poucos quilômetros do café Book Forum, o hotel Al Hadba, às margens do Rio Tigre, acabou de abrir as portas. Os 20 chalés para quatro pessoas e as oito suítes começaram a receber os primeiros hóspedes em maio. O bar e restaurante, no terraço do prédio principal, também ganhou vida. O empreendedor Ata Ali conta que comprou a propriedade do antigo dono no final do ano passado. “Os imóveis estão com um preço bom e quem for visionário vai obter bons resultados no médio prazo, pois agora é a hora certa de investir”, diz Ali. Ele e um grupo de sócios investiram 500 000 dólares na aquisição do hotel e na recuperação dos quartos e chalés — muitos foram atingidos por morteiros e bombas durante a guerra pela retomada da cidade. Os planos de Ali vão ainda mais longe. Ele pretende comprar uma área adjacente e construir um shopping. Se tudo der certo, será o primeiro de Mossul. “A cidade sempre foi um polo importante, e não há motivo para que não volte à antiga forma, ainda melhor”, afirma.

Há pouco tempo, o parque de diversões de Mossul, numa ilha do Rio Tigre, perto do hotel, também reabriu, tornando o local ainda mais movimentado. Num final de tarde ensolarado de maio, centenas de moradores faziam fila para participar da reinauguração. Nos fins de semana, agora são comuns os piqueniques, com pratos típicos, como charutinho de folha de uva e cooba, uma espécie de rissole recheado de carne moída. Com a chegada do verão no Hemisfério Norte, em que as temperaturas atingem facilmente os 40 graus, os moradores agora aproveitam para ficar fora até à noite, conversar na rua ou se refrescar no rio.

Nada disso era possível até pouco tempo atrás, quando o Estado Islâmico fez valer suas imposições radicais: atividades simples do dia a dia, como ouvir música, acessar redes sociais e usar o celular, estavam proibidas, assim como sair sozinha, no caso das mulheres. Os homens eram obrigados a manter a barba num comprimento determinado pelos extremistas. A bebida alcoólica foi banida. Quem infringisse as determinações estava sujeito a chibatadas em praça pública ou até à morte. “Muita gente preferiu simplesmente deixar de sair de casa e viver com o que tinha guardado”, afirma o comerciante -Ahmed Salih, de 29 anos. Quando os bombardeios começaram, ele correu até a loja de tapetes e lonas da família, inaugurada em 1940, para retirar o que conseguisse. O negócio, no coração comercial da área mais antiga de Mossul, onde mercadores se encontravam na Idade Média, ficou fechado durante quase três anos.

Obra em templo de Mossul: os moradores se organizam para reconstruir a cidade | Khalid Al Mousily/Reuters
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Toda a região foi severamente afetada pela guerra. Em algumas áreas, ainda não há água encanada nem energia elétrica. Para contornar a dificuldade, moradores instalaram geradores e passaram a comprar água de conhecidos, que fazem um preço especial. Essa foi a solução da maioria dos empreendedores da cidade para reabrir os negócios e atrair os clientes. “Se o governo não ajuda, temos de fazer nós mesmos”, diz Salih, cuja loja de tapetes foi uma das primeiras a reabrir. Os moradores também estão formando grupos de voluntários para pavimentar as ruas, já que o asfalto foi destruído pelos bombardeios, e refazer as calçadas.

A solidariedade tem sido fundamental. Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas, serão necessários 80 bilhões de dólares para reconstruir Mossul e outras cidades da região prejudicadas pela luta contra o Estado Islâmico. Em fevereiro, o governo iraquiano promoveu uma conferência internacional no vizinho Kuwait com o objetivo de arrecadar fundos para a reconstrução. Países ocidentais e do Golfo Pérsico prometeram 30 bilhões de dólares em crédito e projetos de investimento no Iraque. Os aportes, no entanto, não têm data para chegar. Por enquanto, os esforços para reerguer os municípios estão sendo conduzidos pelas Nações Unidas, por entidades humanitárias e pela população local. O programa da ONU para a reconstrução do Iraque, considerado prioritário para evitar o aumento da pobreza, que acaba alimentando os movimentos extremistas, concluiu 350 obras até o fim de 2017. O foco é a recuperação de escolas, hospitais e da infraestrutura básica. Cerca de 300 000 moradores passaram a contar com o fornecimento de água potável no fim do ano passado e 26 subestações de geração de energia elétrica estão sendo reabertas. Além disso, cinco hospitais, com capacidade para atendimento de 260 000 moradores, voltaram a funcionar. As escolas não ficaram de fora: 13 já voltaram a receber alunos e outras 30 deverão ser reabertas nos próximos meses.

A iniciativa conta com recursos de 225 milhões de dólares, obtidos via doações de países como Alemanha, Holanda, Estados Unidos e Japão. Segundo a ONU, são necessários outros 200 milhões de dólares para completar os projetos. “A destruição em Mossul não tem precedentes. A cidade foi palco da pior batalha urbana desde a Segunda Guerra Mundial”, diz Lise Grande, chefe do programa das Nações Unidas para a reconstrução do Iraque na época dos conflitos.

Não só as entidades internacionais atuam na reconstrução. Algumas ONGs têm se unido aos moradores para aproximar as diferentes culturas, outro passo considerado importante para sedimentar a coexistência pacífica. Em abril, um grupo de ativistas de Mossul e organizações humanitárias realizaram o primeiro Festival da Paz de Nimrud, cidade vizinha, de maioria cristã. O evento contou com a participação de cristãos e muçulmanos.

A população mais jovem tem aproveitado o momento de reconstrução. Alguns não se limitam a participar de atividades culturais e a colaborar para reerguer a economia. Com o fim do domínio dos extremistas, eles também puderam retomar a diversão noturna. É verdade que a maioria prefere se manter afastada dos bares, já que o consumo de bebidas alcoólicas não é permitido pelo Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. Os mais liberais, no entanto, estão garantindo o movimento nas pequenas lojas que recomeçaram a vender vodca, cerveja e vinho. Ayda Tarek é dono de uma delas. “O rendimento ainda não é muito expressivo, mas tem crescido”, afirma. A maioria dos clientes prefere beber em casa, longe dos olhos do público. “Não é fácil quebrar certos tabus”, diz Mohamed Waled, poeta e frequentador do café Book Forum. De qualquer forma, o mais importante neste momento é garantir uma retomada da rotina e dos negócios na cidade.


O COMÉRCIO COM O BRASIL VOLTA A CRESCER

Prejudicado pela guerra, o Iraque agora firma acordos bilaterais de cooperação com o Brasil para facilitar o comércio e garantir a reconstrução do país

Refinaria de petróleo no Iraque: as exportações brasileiras para o país dobraram | Khalid Al Mousily/Reuters

O Iraque já foi um dos maiores parceiros comerciais do Brasil. Nas grandes cidades do país, como Bagdá e Mossul, ainda circulam Passat produzidos pela Volkswagen no Brasil e vendidos aos milhares aos iraquianos nos anos 80. Na época, foram exportados mais de 170 000 veículos. Armamentos também faziam parte das exportações, assim como material de construção e produtos agropecuários. Em 1985, as exportações para o Iraque chegaram a quase 2,5 bilhões de dólares, mas caíram nas décadas seguintes. Com o fim da guerra contra o Estado Islâmico, as relações comerciais voltaram a ganhar musculatura. Em 2017, o Brasil vendeu o equivalente a 810 milhões de dólares ao Iraque, quase o dobro de 2016. Em junho deste ano, os dois países assinaram um acordo diplomático na sede da Embaixada do Brasil em Bagdá para estabelecer programas bilaterais, inclusive de cooperação comercial e técnica. “A expectativa é que o comércio atinja um novo patamar de crescimento”, diz Jalal Chaya, vice-presidente da Câmara Brasil-Iraque. Embora produtos como açúcar e carne bovina ainda dominem as exportações, itens de maior valor agregado, como cosméticos e máquinas, obtiveram recorde de vendas em 2017. O Oriente Médio exerce um papel importante na pauta de exportações brasileiras — é hoje o quarto maior comprador do agronegócio, consumindo 12,5 bilhões de dólares por ano em produtos do Brasil. “Problemas com a carne brasileira e a greve dos caminhoneiros devem afetar as vendas em 2018. Mesmo assim esperamos um crescimento de pelo menos 5%”, afirma Michel Alaby, diretor-geral da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira. “Há uma demanda crescente por material de construção, remédios e produtos hospitalares.”

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