J. R. Guzzo: a queda dos juros mostra uma diferença essencial

A queda da taca de juros não foi obtida na base da paulada, por teimosia ideológica, sem prestar atenção no que ocorria no mundo das realidades

Eis aí, mais uma vez: o Banco Central acaba de jogar os juros para 7,5% ao ano, o segundo menor nível da taxa desde 2013, quando o tresloucado laboratório de experimentos econômicos da ex-presidente Dilma Rousseff (testados em seres humanos, ao vivo) achou que diminuir a taxa Selic na base da paulada, sem prestar a mínima atenção no que acontecia então no mundo das realidades, era a salvação do Brasil. A estupidez terminal de mais esse passe de macumba na economia acabou da única maneira que poderia ter acabado. A inflação disparou, é lógico, mas o juro artificialmente baixo, reduzido por teimosia ideológica, ignorância e demagogia, não trouxe nenhum dos benefícios que deveria trazer. Não houve retomada da economia, não aumentaram os investimentos, o desemprego continuou explodindo, o país afundou na pior recessão dos tempos modernos. E, naturalmente, passadas as eleições de 2014, a taxa de juro voltou exatamente para onde estava, lá em cima. Tudo para nada, como de hábito na economia de “conquistas sociais” imposta ao Brasil pelos dois presidentes que antecederam Temer —criação exclusiva e original, aliás, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o enfiou à força na chapa presidencial de Dilma.

A situação de agora, felizmente, é outra coisa. O juro começou a cair em outubro de 2016, pouco após Michel Temer assumir a Presidência, quando a taxa estava nas alturas dos 14,25% — o dobro, simplesmente, do nível em que está hoje. De lá para cá, foram nove cortes seguidos — e, ao contrário de Dilma, desta vez as reduções na Selic foram resultado de melhoras reais na economia brasileira. Ou seja, os juros estão caindo como consequência de fatos econômicos positivos e concretos. Não são tratados como uma varinha mágica para anular problemas, e sim como a colheita lógica de um processo econômico mais sadio. Um processo no qual há mais produção, custos menores, menos inflação, mais investimento, mais emprego, mais competição, melhor desempenho no comércio internacional, volta do crescimento em vários setores-chave, e assim por diante. É uma diferença essencial.

Naturalmente, como Temer é Temer, nada do que acontece com ele, segundo o olhar de seus observadores, está certo. A Câmara dos Deputados, pela segunda vez seguida, acaba de rejeitar um novo pedido para que o presidente seja processado no STF e, assim, afastado do cargo. Seus adversários ficaram com 139 votos a menos do que precisavam para levar a coisa adiante, um número praticamente mantido em silêncio; o importante, segundo a maioria dos registros da mídia, foi que a votação a favor de Temer “desabou” em relação ao resultado que obteve na primeira denúncia: teve 12 votos a menos, num total de 513 possíveis. A ministra Rosa Weber, do STF, nos informa que a regulamentação da lei de combate ao trabalho análogo à escravidão vai criar graves problemas internacionais para o Brasil; como o resto do mundo é contra o trabalho escravo (e o governo Temer é a favor, segundo a ministra), haverá sanções comerciais contra o comércio internacional brasileiro, boicotes e sabe-se lá que outros desastres. O governo também fez a inflação baixar em excesso. Eis aí outro horror: com esse exagero, Temer está fazendo os juros subirem — isso mesmo, subirem — em vez de baixarem. Como assim? Pois é, a vida só é simples para quem não entende nada de economia; para quem entende, já é outro negócio. No caso, quando o governo Temer baixa pela metade a taxa de 14,5% que existia 11 meses atrás, está apenas tornando maior, hoje, a diferença entre a inflação e a taxa vigente na época. Quer dizer: o juro de 14,5% de Dilma é menor do que o juro de 7,5% de Temer, entende? É que no tempo dela tínhamos a sorte de ter inflação acima de 10% ao ano, e hoje temos o azar de viver com inflação abaixo de 3%. Faça as contas sobre a diferença existente entre juros e inflação no passado e a diferença existente hoje. Você vai ver que quebramos a cara.

País difícil, sem dúvida.