Uma carteira digital para a classe C

A RecargaPay, sediada em São Paulo e liderada por argentinos, mira os micropagamentos para competir com gigantes como Google, Apple e Mercado Livre

Não se sabe se será em cinco, dez ou 20 anos, mas a data em que você trocará o dinheiro e os cartões pelos pagamentos 100% digitais está cada vez mais perto. Um dos nichos em que a mudança acontece mais rapidamente não é exatamente glamouroso: as microtransações essenciais aos brasileiros, como recarga de celular e pagamento de boletos. É um negócio que fica fora das prioridades de grandes bancos e fintechs. E é a principal aposta de uma startup criada por argentinos que escolheu o Brasil como campo de atuação: a RecargaPay.

A empresa, fundada pelo economista Gustavo Victorica e pelos administradores Alvaro Teijeiro e Rodrigo Teijeiro, primos, planeja repetir a história de outras startups argentinas por aqui, como Decolar e Mercado Livre, que hoje valem, respectivamente, 1,2 bilhão de dólares e 20 bilhões de dólares. O primeiro negócio em pagamentos do trio foi o Tarjetas Telefonicas, criado por Rodrigo Teijeiro, em 2002, para vender cartões de ligações internacionais. O experimento se transformaria no site Recarga.com, focado em créditos para celulares pré-pagos.

O negócio foi tocado em paralelo com a Sonico, rede social similar ao Facebook, mas voltada para a América Latina. A Sonico chegou a ter 55 milhões de usuários e foi adquirida pelo grupo de internet IAC, dono de sites de relacionamento, como Match.com, em 2014. Os recursos da venda foram usados para transformar o Recarga.com em RecargaPay. O nome representa melhor um “ecossistema de pagamentos móveis”, segundo o fundador, com serviços além da recarga de celular. Com a mudança, a empresa se mudou para seu mercado mais promissor: o Brasil.

O foco da RecargaPay está em microtransações de alta frequência — oito em cada dez pagamentos feitos não passam de 20 reais. Para usar o serviço, é preciso inserir dinheiro na carteira digital via pagamento de boletos, transferências, depósitos ou cartão de crédito. A recarga de celular continua sendo o principal serviço, mas a fintech aceita também recarga do Bilhete Único (cartão de transporte público de São Paulo), transferências, cartões pré-pagos, pagamentos de boletos, vales-presentes, parcelamento. “Vamos adicionar cada vez mais serviços”, afirma Rodrigo Teijeiro.

O próximo passo é usar a carteira digital para pagamentos em maquininhas no varejo físico. Para incentivar o uso, a startup costuma devolver parte do valor pago aos clientes: nas recargas de celular e Bilhete Único, 5% do valor é devolvido. Um dos projetos promissores agora é um pacote de assinaturas, o RecargaPay Prime. Com 9,99 reais por mês, a empresa oferece valores superiores à mensalidade em devoluções para os clientes assíduos. Outra fonte de receita são juros cobrados no parcelamento de compras pré-pagas. A fintech tem 1,5 milhão de contas ativas e não divulga quantos usuários aderiram à assinatura mensal. A meta é superar 1 bilhão de reais transacionados em 2019. A consultoria CB Insights estima que a RecargaPay tenha uma receita anual de 5 milhões de dólares.

Os argentinos querem repetir casos de sucesso como os vistos na China, onde mais de sete em cada dez pagamentos passam hoje pelas carteiras digitais. A maioria (55%) usa as e-wallets Alipay e WeChat Pay, dos gigantes de tecnologia Alibaba e Tencent, respectivamente. Mesmo assim, carteiras digitais menores ocupam 16% dos pagamentos chineses. É uma proporção que fintechs brasileiras buscam repetir, em um país no qual as carteiras digitais ainda não têm uma participação digna de nota.

Um estudo do banco BTG Pactual e da aceleradora ACE mostra que há 114 startups brasileiras de meios de pagamento ativas, um quarto delas no segmento de carteiras digitais. Para atingir relevância antes que o mercado se consolide, a RecargaPay captou 28,6 milhões de dólares de fundos como FJ Labs (investidora nos aplicativos Uber, Rappi e Wish), IFC (Dafiti e Loggi) e TheVentureCity (Cabify). A Adyen, empresa de infraestrutura de pagamentos que atende, inclusive, a RecargaPay como adquirente, viu um aumento de 50% nas transações por carteiras digitais no último trimestre do ano passado.

Outra leva de concorrentes são os gigantes de tecnologia que lançaram recentemente suas e-wallets por aqui: Google Pay (fevereiro de 2018), Apple Pay (abril de 2018) e Samsung Pay (julho de 2018). Talvez o maior concorrente, porém, seja o MercadoPago, braço financeiro do conterrâneo -mar-ketplace argentino Mercado Livre. O Mercado Pago oferece serviços como recarga de celular, pagamento de boletos e cartões pré-pagos e tem 2,4 milhões de pagantes ativos na América Latina.

“Várias e-wallets podem coexistir. A RecargaPay se estabeleceu como resolvedora de problemas para clientes como os desbancarizados. É um nicho que deve atrair novos concorrentes, mas que tende a continuar em segundo plano para muita gente”, diz Bruno Diniz, sócio da consultoria de inovação Spiralem e diretor do comitê de fintechs na Associação Brasileira de Startups. A RecargaPay não precisa apenas convencer os brasileiros a deixar cédulas e cartões em casa — precisa convencê-los a não embarcar na canoa da concorrência.