Debate sobre a formação ideal dos economistas pega fogo

Alunos, professores e ganhadores do Nobel esquentam o debate sobre as deficiências na formação dos economistas — e como elas acabam afetando a vida de todos nós

São Paulo – A animosidade histórica entre as seleções de futebol de Brasil e Argentina, a competição nem sempre velada entre Bill Gates, da Microsoft, e Steve Jobs, da Apple, e a briga entre os pilotos de Fórmula 1 Ayrton Senna e Alain Prost na década de 90 são conhecidas por todos.

Uma rivalidade igualmente renhida, mas menos falada, é a que divide os economistas em dois grupos com visão de mundo distinta. De um lado, estão os defensores de modelos matemáticos para explicar o comportamento das pessoas.

A matemática seria um antídoto contra análises inconsistentes com base apenas na intuição. De outro, estão os que dizem que a realidade é muito complexa para que tudo fique restrito ao que pode ser traduzido em fórmulas. 

A briga é antiga, mas ganhou um novo ímpeto nos últimos tempos por causa da crise mundial de 2008. Para quem denuncia a suposta fé exagerada na matemática, o maior evento econômico das últimas décadas era a prova que faltava. Nenhum modelo previu o armagedom provocado pelo sistema financeiro.

“Pior do que não antever foi dizer, como alguns economistas disseram logo antes da crise, que a economia mundial, devido a inovações financeiras, estava menos suscetível a contrações de crédito”, diz Adair Turner, ex-presidente da Financial Services Authority, o órgão regulador do mercado financeiro britânico, e autor de Economics After the Crisis (“A economia depois da crise”, numa tradução livre). 

Os que falam em excesso de “matematização” lançam mão até do humor para ilustrar o que chamam de importância desmedida dada aos aspectos do comportamento que podem ser quantificados.

Os economistas hoje em grande número nas universidades de ponta dos Estados Unidos e nos periódicos acadêmicos mais respeitados seriam como o bêbado que sai do bar e, ao perceber que perdeu a chave de casa, a procura somente debaixo do poste de luz.

Alvin Roth, professor da Universidade Stanford e ganhador do Nobel de Economia de 2012, considera esse tipo de acusação injusta e tenta explicar, com uma analogia, por que a maioria dos economistas não previu a crise.

“Se tivermos uma nova epidemia mundial de gripe, as pessoas não vão criticar a maneira como a medicina tem sido estudada. Em vez disso, vão pedir mais pesquisas e mais médicos”, diz. Ou seja, os acontecimentos dos últimos anos teriam evidenciado a necessidade de mais, não menos, modelos matemáticos. 

Toda essa discussão ganhou mais força com a entrada em cena dos estudantes, que estão agitando universidades na Europa com seus grupos de discussão online.

Em abril, os alunos da Universidade de Manchester, na Inglaterra, divulgaram um manifesto em defesa de mudanças no curso de economia apoiado por Andrew Haldane, diretor do departamento de estabilidade financeira do Banco Central inglês. Uma das inspirações para todo esse barulho foi uma manisfestação feita na Universidade Harvard há dois anos e meio.

Cerca de 70 alunos de Greg Mankiw, autor de Princípios de Macroeconomia, um dos livros-textos mais vendidos em todo o mundo, levantaram e saíram no meio de uma aula do curso introdutório de economia.

Al Roth, da Universidade Stanford: “Quando há um surto de gripe, ninguém culpa a medicina. Quando há uma crise econômica…” (JONATHAN NACKSTRAND/AFP PHOTO)

“O pessoal que organizou o walk out protestava contra qualquer coisa no campus, mas nesse caso tinha razão”, diz o brasileiro Lucas Freitas, que estuda computação em Harvard, era aluno de Mankiw e participou da manifestação em favor de maior pluralidade.

Como é comum em revoltas estudantis, as causas desses movimentos são muitas e difusas, mas uma ideia desponta em todos os lugares: a defesa de que é preciso haver um debate a respeito da formação dos economistas. 

O que muda no quadro-negro?

Embora se diga que, caso alguém queira ouvir três opiniões divergentes, é só pedir conselho a dois economistas, numa coisa eles parecem estar de acordo: precisam melhorar sua capacidade de comunicação. Essa é uma queixa comum no exterior e também no Brasil.

Muitos economistas jovens têm dificuldade de se expressar e de trabalhar em grupo com profissionais de outras áreas, uma questão que já entrou no radar das universidades.

“Os alunos precisam ser treinados para saber explicar em português e sem jargão o que pensam”, afirma Marcos Lisboa, vice-presidente da escola de negócios Insper. “Comunicação, assim como liderança, é vital para o sucesso profissional.”

Algumas outras mudanças no currículo estão a caminho. Em razão da crise, pesquisas sobre temas como mercados de crédito e volatilidade de preços de bens ganharam nova ênfase.

“Existe um intervalo de tempo entre o que acontece na fronteira do conhecimento e o que entra nos cursos de graduação, mas muitas mudanças certamente virão”, diz Benjamin Friedman, professor de economia política em Harvard.

O que ainda está incerto é se os graduandos de economia terão mais aulas de história econômica, história do pensamento e psicologia comportamental, como muitos querem.

“Ninguém pode ser contra o uso da matemática como um importante instrumento. Mas é necessário ampliar o leque”, diz o filósofo e economista Eduardo Giannetti da Fonseca, um defensor de que, para achar a chave, usando a piada do bêbado, às vezes é preciso tatear longe do poste de luz.