Ameaça esquecida: autora faz alerta sobre perigos de uma volta do fascismo

Preocupada com a volta de discursos autoritários pelo mundo, a ex-secretária de Estado americana Madeleine Albright publica livro. Veja um trecho inédito

Nascida na antiga Tchecoslováquia em uma família judia, a ex-secretária de Estado americana Madeleine Albright, de 81 anos, sofreu pessoalmente os horrores do nazi-fascismo na Europa. Três de seus quatro avós foram mortos em campos de concentração nazistas. Seus pais, por sorte, conseguiram fugir e foram viver no Reino Unido e nos Estados Unidos. Preocupada com o ressurgimento de discursos fascistas pelo mundo, ela acaba de publicar o livro Fascismo: um Alerta, em que chama a atenção para os perigos do autoritarismo. A seguir, leia um trecho inédito do livro, que será lançado no Brasil em outubro.

“Há pouco tempo, quando disse a um amigo que estava trabalhando em um novo livro, ele perguntou: ‘Sobre o que é?’. ‘Fascismo’, respondi. Ele pareceu confuso. ‘Moda?’ [do inglês, fashion], perguntou. Meu amigo estava menos enganado do que pode parecer, visto que o fascismo de fato voltou à moda. Discorda de alguém? Chame-o de fascista e dispense a necessidade de sustentar sua afirmação com fatos. Em 2016, ‘fascism’ gerou mais buscas no site do dicionário Merriam-Webster do que qualquer outra palavra da língua inglesa, à exceção de ‘surreal’, pela qual a eleição presidencial americana fez o interesse aumentar.

Quem usa o termo ‘fascista’ se revela. Para a extrema esquerda, praticamente qualquer figurão do meio corporativo se encaixa nele. Alguns que trafegam pela não tão extrema direita acham Barack Obama fascista — além de socialista e muçulmano enrustido. No ritmo das frustrações diárias das pessoas, a palavra se espalha por milhões de bocas: professores são chamados de fascistas e, como eles, feministas, a polícia, burocratas, ciclistas etc. Se continuarmos a alimentar esse reflexo, logo nos sentiremos no direito de chamar de fascista todo e qualquer um que nos irrite — minando a gravidade de um termo que deveria ser poderoso.

O que é, então, o fascismo de verdade, e como se reconhece um adepto dele? Levantei a questão no curso de pós-graduação que ministro na Universidade Georgetown. As perguntas foram mais difíceis de responder do que se poderia esperar, pois não há definições de consenso ou suficientemente completas, ainda que acadêmicos tenham gastado oceanos de tinta no assunto. Apesar da complexidade, meus alunos se dispuseram a tentar. Uma mentalidade de ‘nós contra eles’, sugeriu um. Outro assinalou ‘nacionalista, autoritário, antidemocrático’. Um terceiro enfatizou o aspecto violento. Outra aluna observou como o fascismo costuma ser vinculado a pessoas que fazem parte de um grupo étnico ou racial específico, passam por dificuldades econômicas e sentem que compensações a que teriam direito lhes são negadas. ‘Não é tanto o que as pessoas têm’, disse ela, ‘mas o que acham que deveriam ter — e o que temem.’ O medo é a razão de o alcance emocional do fascismo se estender a todos os níveis da sociedade. Não existe movimento político que floresça sem apoio popular, mas o fascismo depende tanto dos ricos e poderosos como do homem ou da mulher da esquina — dos que têm muito a perder e dos que não têm nada.

Essa colocação nos fez pensar que talvez o fascismo deva ser visto menos como ideologia política e mais como forma de tomar e controlar o poder. Na Itália dos anos 1920, por exemplo, havia autodeclarados fascistas de esquerda (que advogavam uma ditadura dos despossuídos), de direita (que defendiam um Estado corporativista autoritário) e de centro (que lutavam pelo retorno a uma monarquia absolutista). Na origem da formação do Partido Nacional-Socialista Alemão (nazista) há uma lista de reivindicações com apelo a antissemitas, anti-imigrantes e anticapitalistas, mas que defendia também pensões mais altas para os idosos, mais oportunidades educacionais para os pobres, fim do trabalho infantil e melhorias no sistema de saúde para as mães. Os nazistas eram racistas e, na cabeça deles, ao mesmo tempo reformistas.

Se o fascismo envolve menos políticas específicas e mais a descoberta de um caminho para o poder, o que dizer de suas táticas de liderança? Meus alunos observaram como os caciques fascistas de que mais nos recordamos eram carismáticos. Por um método ou outro, cada um estabelecia uma ligação emocional com a massa e, como a figura central de um culto, fazia emergir sentimentos arraigados e muitas vezes repulsivos. É assim que os tentáculos do fascismo se espalham por dentro de uma democracia. Enquanto uma monarquia ou uma ditadura militar são impostas à sociedade de cima para baixo, a energia do fascismo é alimentada por homens e mulheres abalados por uma guerra perdida, um emprego perdido, uma lembrança de humilhação ou a sensação de que seu país vai de mal a pior. Quanto mais dolorosa for a origem da mágoa, mais fácil é para um líder fascista ganhar seguidores ao oferecer a expectativa de renovação ou prometer restituir-lhes o que perderam.

Assim como fazem os mobilizadores de movimentos mais benignos, esses evangelistas seculares exploram o desejo humano quase universal de fazer parte de uma busca significativa. Os mais talentosos têm aptidão para o espetáculo — orquestram encontros de massa com música solene, retórica incendiária, aplausos ruidosos e saudações com braços levantados. A quem lhes é leal, oferecem como prêmio a condição de membros de um clube do qual os outros, frequentemente ridicularizados, são deixados de fora. Para alimentar o fervor, fascistas tendem a ser agressivos, militaristas e, quando as circunstâncias permitem, expansionistas. Para assegurar o futuro, transformam escolas em seminários para os verdadeiros fiéis, empenhando-se na produção de ‘novos homens’ e ‘novas mulheres’ que obedecerão sem questionar ou pestanejar. E, como observou um dos meus alunos, ‘um fascista cujo início de carreira se dá pelo voto direto poderá alegar uma legitimidade que a outros não será possível’.

O historiador Robert Paxton começa um de seus livros com a afirmação: ‘O fascismo foi a principal inovação política do século 20, e a fonte de grande parte de suas dores’. Ao longo dos anos, ele e -outros historiadores elaboraram listas das muitas peças que constituem a estrutura do fascismo. Ao final de nossa discussão, minha turma se propôs a organizar uma lista semelhante.

O fascismo, concordou a maioria dos alunos, é uma forma extrema de regime autoritário. Exige-se dos cidadãos que façam exatamente o que dizem seus líderes, nada mais, nada menos. A doutrina é vinculada a um nacionalismo fanático. Outra característica é a reversão do contrato social. Em vez de os cidadãos darem poder ao Estado em troca da proteção de seus direitos, o poder emana do líder e as pessoas não têm direitos. Sob o fascismo, a missão dos cidadãos é servir; o trabalho dos governantes, ditar as regras.

Quando se discute esse assunto, é frequente haver confusão quanto à diferença entre fascismo e conceitos semelhantes, como totalitarismo, ditadura, despotismo, tirania, autocracia. Na condição de acadêmica, poderia me sentir tentada a me embrenhar nesse espinheiro, mas, como ex-diplomata, minha preocupação maior é com ações, e não rótulos. A meu ver, um fascista é alguém com profunda identificação com determinado grupo ou nação em cujo nome se predispõe a falar, que não dá a mínima para os direitos de outros e está disposto a usar os meios que forem necessários — inclusive a violência — para atingir suas metas. A julgar por esse prisma, um fascista provavelmente será um tirano, mas um tirano não necessariamente será um fascista.

O fascismo ganhou vida no início do século 20, um tempo de vivacidade intelectual e nacionalismo ressurgente aos quais se somava a ampla decepção com o fracasso da democracia representativa em manter-se no compasso de uma Revolução Industrial impulsionada pela tecnologia. Enquanto isso, invenções espantosas, como a eletricidade, o telefone, o automóvel e o navio a vapor, aproximavam o mundo, mas essas inovações deixavam milhões de fazendeiros e trabalhadores manuais sem emprego. Por toda parte, pessoas estavam em movimento. Famílias de trabalhadores rurais se amontoavam nas cidades e milhões de europeus levantavam acampamento e cruzavam o oceano para a América.

Para muitos dos que ficavam, as promessas inerentes ao iluminismo e às Revoluções Francesa e Americana haviam se esvaziado. Quantidades enormes de pessoas não conseguiam achar trabalho; quem conseguia era explorado ou mais tarde sacrificado no sangrento jogo de xadrez disputado nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial. Sobre aquela tragédia, escreveu o ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill: ‘Fissuras foram abertas na estrutura da sociedade que um século não será capaz de apagar’. Mas, com a aristocracia desacreditada, a religião sob escrutínio e velhas estruturas políticas se partindo, a busca por respostas não poderia esperar.

Muitos governos que começaram liberais após a Primeira Guerra se viram às voltas com explosivas tensões sociais que pareciam exigir políticas mais repressoras. Da Polônia à Áustria, da Romênia à Grécia, democracias incipientes alçaram voo e então voltaram a estagnar. No Leste Europeu, ferozes ideólogos soviéticos se arvoravam a falar pelos trabalhadores de todo o mundo, tirando o sono de banqueiros britânicos, ministros franceses e padres espanhóis. No centro da Europa, uma amargurada Alemanha tinha dificuldades de se recolocar em pé. E na Itália uma fera indomada, cujo momento finalmente chegava, punha-se em marcha pela primeira vez.”