Uma ajuda das elites

A pedido das construtoras, o governo prometeu um reforço de 350 000 casas no programa de habitação popular. Com tanta gente a seu favor, é difícil entender por que os pobres continuam na situação em que estão

São Paulo – Quem diria que batalhar pela construção de casas populares poderia tornar-se uma reivindicação das elites brasileiras? Pois então: é exatamente o que acaba de ficar demonstrado, neste final de corrida eleitoral pela Presidência da República, com o vigoroso apelo das construtoras de imóveis para que o governo acrescente 350 000 novas unidades a seu programa de moradias destinadas à população pobre deste país.

Empresas de construção, a menos que tenha acontecido de repente alguma mudança ainda mantida em sigilo, são elite em estado puro, provavelmente branca, e não apenas do sul — vêm de todos os pontos cardeais do compasso, como é bem sabido. Mas são elas, no momento, as “ativistas” mais visíveis em favor da habitação popular, uma causa fundamental para as classes trabalhadoras.

Aparentemente, se não tivessem apertado as autoridades competentes do governo, fazendo o tipo de pressão que normalmente se espera do próprio Partido dos Trabalhadores, essas 350 000 casas a mais deveriam cair em exercício findo.

Naturalmente, a começar pelas construtoras e pelo governo, ninguém sabe o que vai sair dessas cifras no mundo das realidades. As casas são futuras — e, se no Brasil até o passado é imprevisível, como ensina o ex-ministro Pedro Malan, qualquer cidadão com um mínimo de prudência recebe com o máximo de cuidado essas notícias anunciando coisas que ainda não aconteceram, mas podem acontecer.

Além disso, as promessas são para janeiro de 2015, quando seriam incluí­das num “PAC 3”, de desenho tão incerto e não sabido quanto o dos PACs 1 e 2. Janeiro de 2015? É tempo que não acaba mais; sabe-se lá, para começar, quem estará no governo.

Se Dilma Rousseff e o PT continuarem lá, já vai ser uma trabalheira sem fim lembrá-los de promessas feitas hoje; imagine-se, então, o entusiasmo que despertarão se a chave do cofre, a essa altura, estiver em outros bolsos.

Também não ajuda o fato de que o sinal verde para a construção das tais 350 000 moradias tenha sido dado pelo funcionário federal Guido Mantega, em regime de aviso prévio desde que a presidente Dilma o transformou em ex-ministro da Fazenda em vida.

Sua única chance de continuar no cargo, bem pouco provável, é receber um convite formal de Marina Silva ou Aécio Neves, caso algum dos dois ganhe a eleição; com Dilma, a possibilidade de ficar é zero. Não vai ser fácil, para as construtoras, achar Mantega a partir de 1o de janeiro de 2015.

Seja como for, trata-se de empresários pedindo que o governo do PT ajude o povo pobre do Brasil — além dos benefícios para os ainda desconhecidos ganhadores das casas, apresentaram o argumento social de que as obras solicitadas representam “500 000 empregos” para operários da construção civil.

Eis aí, em suma, mais uma das muitas curiosidades dessa monumental farsa montada na vida política brasileira ao longo dos últimos 12 anos de governo Lula-Dilma-PT-Sarney-Collor-Maluf-Renan-empreiteiras de obras públicas-empresários selecionados para ser “campeões nacionais”-Sociedade Brasileira dos Amigos do BNDES-etc.

Com tanta gente a seu favor, não se entende por que a população humilde do Brasil continua no prejuízo em que está. O que teria acontecido no caminho que existe entre sua carteira e o 1,2 trilhão de reais em impostos arrecadados pelo poder público até meados de setembro de 2014?

Sem dúvida alguma, falha não intencional, provavelmente provocada pela política econômica das nações ricas, ou pelos banqueiros internacionais, ou pelos candidatos da oposição.

Como se vê, governo e elites — ou, pelo menos, as elites de que o PT tanto gosta — estão fazendo tudo o que podem em favor da classe trabalhadora, mesmo quando não fazem nada de útil. Deve estar havendo, com certeza, algum problema operacional na máquina de distribuir, pois a máquina de acumular está voando.

Como consertar o defeito? Dilma e seus amigos pedem mais quatro anos de prazo para a tarefa; afinal, não se pode fazer esse tipo de coisa com pressa.