Carta de EXAME — Uma agenda para a inovação

Uma proposta desenhada no setor privado pode dar um impulso importante para o Brasil ambicionar um futuro melhor

Países que estão na rabeira do desenvolvimento deveriam se esforçar muito para tentar tirar o atraso em que se encontram. Idealmente, deveriam ser os mais obstinados na batalha para superar suas insuficiências e se aproximar dos mais adiantados. Educação, investimento em tecnologia e estímulo à inovação são campos correlatos e complementares em que isso deveria ocorrer. No caso do Brasil, infelizmente não dá para dizer que o país, até agora, esteja se empenhando como deveria em nenhuma dessas frentes. Ao contrário, vamos assistindo a distância aumentar em relação à fronteira do conhecimento.

O que fazer para começar a reverter esse quadro? Uma proposta desenhada no setor privado pode dar um impulso importante nesse sentido. A Confederação Nacional da Indústria encomendou um amplo diagnóstico do status das empresas manufatureiras no país, complementado com propostas para que elas possam evoluir com a digitalização nos próximos anos. O trabalho resultante, batizado de Indústria 2027 — Riscos e Oportunidades do Brasil Diante de Inovações Disruptivas, foi apresentado em primeira mão num evento realizado por EXAME no dia 18 de maio em São Paulo. O estudo e as discussões no palco — em que estiveram presentes empresários, autoridades e acadêmicos — mostraram que, se apenas 2% da indústria brasileira está alinhada com a revolução 4.0, a das máquinas inteligentes e conectadas, há, porém, oportunidade e disposição para elevar o padrão da maioria num prazo razoável. É claro que nem tudo dependerá das empresas — os rumos da política e da economia podem ajudar ou atrapalhar muito essa rota.

Nas páginas desta edição especial são reunidas as principais informações do estudo e muitas ideias para o Brasil dar um salto incorporando tecnologias que vão da robótica ao big data. Uma parte das soluções pode vir do aprendizado com quem já está na ponta. E, por isso, EXAME escalou jornalistas para verificar o que está acontecendo em outros países. O editor Rafael Kato visitou empresas e ouviu especialistas em cidades alemãs como Leipzig e Munique, e em Paris, na França. O repórter Leo Branco foi ver como a logística está mudando em Tóquio. E o editor Filipe Serrano percorreu a Irlanda, conferindo por que o país se tornou a economia que mais cresce na Europa e por que suas pequenas e médias empresas se tornaram as mais inovadoras de acordo com um ranking da União Europeia.

Os indicadores de países como Japão e Alemanha denotam que, mesmo sendo líderes — ou justamente por isso —, eles não esmorecem e estão entre os que mais investem em inovação, com metas para manter a dianteira. A história da Irlanda mostra que mesmo um país que permaneceu durante muito tempo atrás pode dar uma arrancada e romper com o atraso.

As lições estão aí. Um plano de ação, agora, também há. É hora de o Brasil ambicionar um futuro melhor.