Um sindicato bom de briga em futebol americano

Ao menor sinal de mudança nas regras de divisão de ganhos, os jogadores da bilionária NFL colocaram em xeque o maior evento esportivo do planeta. Quem vai encarar?

O 45º Super Bowl, a grande final do campeonato de futebol americano, quando o Green Bay Packers derrotou o Pittsburgh Steelers por 31 a 25, no primeiro domingo de fevereiro, pode ter sido o último jogo por um período indeterminado. Isso é o que a Associação de Jogadores da Liga de Futebol Americano, a poderosa NFLPA, vem afirmando há semanas, caso um novo acordo trabalhista entre ela e os donos das 32 equipes não seja fechado até o dia 3 de março.

Essa é a data em que o atual acordo expira, e temas como uma nova regra para a divisão dos mais de 8 bilhões de dólares de faturamento da liga, a adição de mais dois jogos por equipe na temporada, teto salarial para jogadores iniciantes, entre outros, devem ser definidos. A crise está sendo acompanhada pelos fãs com praticamente o mesmo interesse que eles têm pelos jogos. Na última temporada, houve diversas demonstrações de união dos times adversários.

Minutos antes de iniciar suas violentas partidas e se atracar em campo como se quisessem matar uns aos outros, os jogadores erguiam seus dedos indicadores sinalizando que estão juntos contra as propostas dos donos dos clubes. Roger Goodell, comissário da liga, e DeMaurice Smith, diretor executivo da associação dos jogadores, levaram o debate até seus twitters para brigar pela simpatia dos torcedores.

A atual disputa trabalhista começou por iniciativa dos donos dos times há três anos, quando a crise financeira deflagrada pela quebra do banco Lehman Brothers engolfou a economia americana. Na época, temerosos pelo futuro das receitas, os times começaram a articular limites ao valor repassado aos atletas. O levantamento anual das equipes mais valiosas elaborado pela revista Forbes mostrou que o faturamento e o lucro dos times continuaram a crescer desde 2008, embora em ritmo menor. Apesar de positivos se comparados aos da maioria dos setores da economia, os resultados desagradam aos empresários do esporte, que decidiram por unanimidade pular fora do acordo coletivo atual.

Segundo eles, despesas com construção de estádios, ações de marketing e, principalmente, pagamento de salários têm derrubado as margens de lucro. Por isso, pedem mais 1 bilhão de dólares do faturamento total da liga para equilibrar as finanças. Além disso, querem aumentar de 16 para 18 o número de rodadas no campeonato, elevando assim os ganhos com bilheteria, cotas de TV e demais negócios relacionados. Para os cerca de 1 900 atletas associados à NFLPA, que hoje recebem cerca de 50% do faturamento da liga em salários, a mudança seria um duplo mau negócio.


Eles alegam que, com mais jogos, se exporiam mais ao risco de contusões e ainda passariam a ganhar proporcionalmente menos. “Os jogadores estão preocupados com a divisão do bolo e não enxergam que o que queremos é fazer com que ele cresça”, diz Eric Grubman, executivo que lidera as negociações por parte dos clubes.

Na versão atual, esse bolo já é de proporções sem paralelo no universo dos esportes. Em 2009, o futebol americano bateu 8 bilhões de dólares em receitas, ante 6 bilhões gerados pelo segundo esporte mais popular no país, o beisebol. Mas uma diferença importante é que cada time joga 160 partidas de beisebol por temporada. E apenas 16 no caso do futebol americano. Comparativamente, a receita gerada no campeonato brasileiro de futebol foi de 1,1 bilhão de dólares em 2009.

As audiências dos jogos mais importantes, principalmente o Super Bowl, são as maiores dos Estados Unidos. O último registrou novo recorde: 111 milhões de telespectadores. “A história do esporte americano é pontuada por crises, mas certamente os valores envolvidos nunca foram tão altos”, diz Amir Somoggi, diretor da consultoria Crowe Horwath RCS.

Curiosamente, a crise atinge um dos esportes mais profissionais do mundo, que, em teoria, teria muito a ensinar a outras modalidades. Enquanto a maioria dos campeonatos é, na prática, um confronto entre duas ou três equipes milionárias cercadas de primos pobres e sem competitividade, o futebol americano tem regras que estimulam uma real disputa entre os 32 participantes. A liga atua com mão de ferro, centralizando as negociações dos principais contratos de TV e de patrocínios, que valem para todos os times. Com isso, garante o equilíbrio financeiro e esportivo do campeonato. O desafio, agora, é saber dividir os louros do sucesso. n