Um ser analógico perdido entre os bytes da CES

A feira International Consumer Electronics Show, em Las Vegas, é como um exercício da evolução da espécie

— Tem certeza de que eu sou a pessoa mais indicada? — assim respondi a meu editor, tentando demovê-lo de uma proposta que ele acabara de receber e me repassava por telefone:

— Temos uma oportunidade de cobrir a CES. O que você acha de ir?

Claro que eu sabia que, naquela pergunta, havia a afirmação “eu gostaria de que você fosse”. Daí minha preocupação em avaliar se ele tinha segurança de que eu, Chico Barbosa, estava talhado para tal empreitada. Voltei a lembrá-lo de que minha praia eram carros, diversão ao volante, estradas, estilo de vida mesmo, tendo a máquina como companhia. Que achava que meu melhor estava em descrever experiências, coisa e tal. Que não era um sujeito tecnológico. E emendei com o argumento que eu acreditava ser realmente imbatível:

— Pô, sou um ser analógico, professor.

Ao que ele respondeu:

    — Pronto, já temos a pauta. Boa viagem!

O bom cabrito não berra. Dias depois, estava eu lá, me sentindo um marinheiro de primeira viagem, vejam só, depois de inúmeros salões do automóvel cobertos mundo afora. Já incorporando o novo papel, pensava com meus botões como era inegável a expectativa crescente de atravessar o portão que dá acesso à Consumer Eletronic Show, mais conhecida como CES, aquela que, se não for a mais importante, certamente é a mais midiática mostra de tecnologia do mundo. Sediada em Las Vegas, a espetaculosa cidade americana onde (quase) tudo é permitido, grandiosa e visualmente inebriante, a exposição, por associação de ideias e de sentidos, já é cercada de sedução antes mesmo de acontecer. Comecei a me animar mais.

A tecnologia I2V, da Nissan: o motorista antecipa o que vai acontecer | Divulgação

Não por outro motivo, tão logo cheguei, por coincidência diretamente ao setor dedicado aos carros (Freud explica…), pensei que tivesse entrado no lugar errado — e não por causa do local, claro, mas dos habitantes. Crachás pendurados no pescoço de executivos dos quatro cantos do mundo balançavam de um lado para o outro, indicando que se tratava, mesmo, de uma feira de negócios internacional, e não de uma mostra concebida na medida para encantar os geeks. Onde estavam os painéis, as luzes, as invencionices, as disrupturas, a tão comentada futurologia que a mídia se delicia em divulgar? Ansiedade de amador. Precisaria andar mais para ser atendido. Até que encontrei um estande alinhado com minhas expectativas, digamos, clichê: engenhoso, reluzente, enigmático, emitia ineditismo no ar. Ok, ok, não chegava a ser uma Las Vegas Strip, o emblemático trecho da Las Vegas Boulevard onde se concentra a maioria dos colossais hotéis e casinos da cidade. Mas tinha lá seu brilho.

Olhei para o alto, o logo da Nissan anunciava quem era o dono do pedaço. Uma voz anunciava que, em instantes, seria apresentada a grande novidade, que, pelos cenários e pela tela de 360 graus, ganharia ares de show. Esperei, claro, feliz como um Mr. Bean quando se dá bem em alguma traquinagem. A grande atração era um tal de Invisible-to-Visible (I2V, ou “Invisível para Visível”), acessível por meio de óculos 3D. Não precisei ser nenhum expert em bytes para decifrar o enigma. Em uma frase de efeito, a proposta da montadora japonesa era fazer o motorista “enxergar o invisível”, mesclando, para isso, o mundo real e o virtual.

Robert Hanashiro/Sipa USA/Fotoarena
A lavadora ecológica Tetra (acima) e o alimentador de gatos Mookkie, que reconhece a face: futurismos | Robyn Beck/AFP Photo

É tão fácil de entender que até eu me sinto à vontade para explicar. Grosso modo, o sistema se vale de sensores do carro e dos dados armazenados na nuvem para rastrear o entorno e antecipar o que ocorre longe dos olhos do condutor ou antes mesmo de acontecer. Assim, é possível saber se, ao virar a esquina, o veículo vai deparar com um pedestre atravessando a rua ou mesmo checar se existe uma vaga em um estacionamento sem precisar entrar.

A ideia era original. Dando mais vida e interação à experiência, essas orientações são transmitidas por um avatar dentro do automóvel. Atento, esse “ser” também monitora o motorista, identificando padrões de comportamento para antecipar se ele precisa de ajuda ou mesmo de um convite para tomar um café para continuar atento. Está achando tudo muito impessoal? É só recorrer ao recurso para solicitar que alguém familiar apareça como avatar tridimensional e em realidade aumentada. Está achando o tempo chuvoso lá fora deprimente? É só projetar internamente o cenário de um dia ensolarado e se imaginar indo para uma idílica praia. Aprendi direitinho, envaideci-me.

Saí dali mais receptivo ao mundo tecnológico, rastreando quais outras surpresas poderiam ser reveladas em meio àqueles estandes pouco atraentes visualmente. Notei ser significativo o número de montadoras na CES, apresentando, basicamente, como é de esperar, aplicativos para os carros do futuro. Ao lado da Nissan, foi o caso de Audi, Hyundai, BMW, Kia, Ford, Mercedes-Benz… ops, com a Mercedes não foi bem assim…

A montadora estrelada alemã marcou presença da maneira analógica que conhecemos. Ufa! Lançou a nova geração do mezzo cupê, mezzo sedã CLA, numa demonstração de que a CES foi mais estratégica para seu lançamento do que o desprestigiado Salão de Detroit, que ocorreria na semana seguinte. E, para deixar claro que sabia o que representava estar naquela meca da tecnologia, o modelo, cujo destaque é o estilo, também se gabou de oferecer uma solução real, que, evidentemente, nasceu em um dia qualquer como sendo coisa do futuro: um sistema de inteligência artificial que não só interage com o motorista por meio de voz como também é capaz de reconhecer gestos. Imagino uma maneira de pifar o equipamento: o condutor fazer o famoso gestual italiano.

Eu sei, eu sei: a CES tem graça quando assume a radicalização. E, nesse quesito, a mostra encantou mais quem circulou entre os pavilhões de eletroeletrônicos, computadores, acessórios, gadgets em geral e afins. Ali, atendentes mostravam aparelhos como máquinas de lavar que funcionam com meio galão de água e podem ser comandadas pela Siri ou pela Alexa e outras traquitanas divertidas e não exatamente de primeira necessidade, como uma TV de até 65 polegadas que pode ser enrolada como um pôster, cápsulas de cerveja, alimentadores de gatos com detector facial (são exemplos reais, sim). Aí, sim, foi possível sentir a presença do futuro, como se a noite de Las Vegas invadisse o recinto e o show tivesse de continuar.

Voltei me sentindo não mais um homem pré-tecnológico, mas um ser em evolução da espécie analógica.