Um negócio da Índia impulsionou a Renault

O sucesso na adaptação do modelo compacto Kwid ajudou a Renault a se aproximar dos 10% de fatia do mercado brasileiro de automóveis

Enquanto a maioria dos executivos da Renault mundo afora faz de tudo para esquecer as tormentas que fizeram do ano passado um dos piores da história da companhia, na subsidiária brasileira da montadora francesa o ano de 2018 é lembrado com alegria. Ao mesmo tempo que o grupo amargava uma queda global no lucro líquido de mais de 35%, por aqui os gráficos ganhavam tons de um azul cada vez mais vivo com o passar dos meses.

Ao final do ano, quando a Renault mundial se via às voltas com a prisão de um dos mais importantes executivos de sua história, o franco-brasileiro Carlos Ghosn, a subsidiária comemorava resultados para lá de positivos. O faturamento cresceu mais de 10% em relação a 2017 e atingiu 3,4 bilhões de dólares, enquanto o lucro líquido se aproximou da casa dos 100 milhões de dólares. “Foi um grande ano e conseguimos manter a sequência de crescimento na participação de mercado que vínhamos registrando desde 2010”, afirma Ricardo Gondo, presidente da Renault no Brasil.

Ricardo Gondo, presidente da Renault: “Mais de 1.000 engenheiros trabalham na melhoria de produtos no Brasil” | Germano Luders

O descompasso entre as agruras da Renault no mundo e os bons resultados na filial brasileira tem muito a ver com uma aposta ousada para transformar um pequeno carro projetado na Índia em um sucesso de vendas por aqui. Lançado em 2015, o Kwid, um compacto com cara e jeito de SUV (veículo utilitário esportivo), foi um fracasso nos testes de segurança. Em 2016, não conquistou nem sequer uma estrela nos testes da agência Global NCAP. Ainda assim, a Renault do Brasil viu potencial no pequeno carro e realizou uma verdadeira transformação na versão que entraria no mercado nacional no segundo semestre de 2017. Mudou vários aspectos nos sistemas de segurança, que fizeram a versão brasileira ganhar quase 200 quilos em relação à predecessora indiana — e três estrelas no teste de segurança. “Hoje o Kwid é um dos poucos carros em sua categoria a contar com quatro air bags”, diz Gondo.

O Kwid foi o campeão de vendas da Renault em 2018, com mais de 67.000 unidades vendidas. Ao longo do ano, o modelo foi responsável por mais de 30% das vendas da montadora no Brasil. Em 2019, a história está se repetindo. No primeiro semestre, a Renault vendeu um total de 112.000 veículos, sendo 40.000 Kwids. Com isso, a companhia atingiu em junho os tão sonhados 10% de participação no mercado brasileiro. Para o presidente da Renault, o sucesso do Kwid não aconteceu por acaso. “Os resultados vêm de um conjunto de ações, e não apenas de um sucesso de vendas”, afirma Gondo. “Há um longo processo de investimento em inovação.” A montadora soma mais de 1.000 engenheiros trabalhando na melhoria de produtos no Brasil e tem apostado na redução de custos.

Apesar dos bons resultados obtidos no ano passado, a Renault tem um grande desafio pela frente. Em seus mais de 20 anos produzindo no país, a marca nunca conseguiu avançar no segmento premium, de carros com valores superiores a 100.000 reais. “Esse é um problema não só da Renault mas também das outras montadoras francesas no Brasil”, afirma Vitor Meizikas Filho, analista do setor automotivo que presta consultoria para empresas do setor e para o mercado financeiro. “As marcas francesas nunca conseguiram oferecer um serviço de pós-venda e assistência técnica que fosse capaz de concorrer com as líderes no segmento de carros mais caros.” Para Meizikas, se a Renault quiser, de fato, ampliar a participação em uma faixa que não seja a de carros mais voltados para o mercado popular, terá de repensar toda a sua estratégia de negócios para o Brasil. Não será uma tarefa simples.

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