Família dona do Velho Barreiro tenta salvar negócios

Além de a receita dos negócios da família Tavares de Almeida da ter caído, a dívida cresceu, problemas com a Justiça apareceram e o patriarca morreu

Ao longo de seis décadas, a família Tavares de Almeida construiu o próprio império no Brasil. Manuel Tavares de Almeida deixou Portugal em 1949, aos 18 anos, e logo montou uma rede de padarias em São Paulo. Às padarias, juntaram-se bares, postos de gasolina, usinas de álcool, uma cachaçaria — fabricante da tradicional marca Velho Barreiro —, uma geradora de energia, um banco, um hotel e diversos imóveis. Ao todo, os negócios da família chegaram a um patrimônio estimado em quase 2 bilhões de reais em 2010. Os Tavares de Almeida estavam entre os membros considerados mais influentes da comunidade portuguesa no Brasil, engajados nas relações comerciais e políticas com o país de origem. Mas tudo mudou nos últimos anos. Além de a receita ter caído, a dívida cresceu, problemas com a Justiça apareceram e o patriarca morreu. Hoje, o grupo tenta ficar longe dos holofotes e é alvo de credores que cobram mais de 600 milhões de reais em débitos em diversas disputas judiciais.

Manuel Filho: negociações tensas com os credores | Davilym Dourado/Valor/Ag.O Globo

Em setembro, as usinas Vista Alegre e Agrícola Almeida, que pertencem ao grupo Tavares de Almeida, entraram com pedido de recuperação judicial. Não é surpreendente para um setor que já conta com quase 100 usinas na mesma situa­ção — neste ano, apenas dois grupos, Tonon e Abengoa Bioenergia, chegaram à recuperação judicial com dívidas que, somadas, ultrapassam 5 bilhões de reais. Os casos da Vista Alegre e da Almeida também não são, portanto, os de maiores valores. Mas jogam luz sobre o drama financeiro que o grupo vem vivendo nos últimos anos e que pode comprometer parte dos outros negócios.

O enrosco do grupo Tavares de Almeida começou no já remoto ano de 2010, quando a economia brasileira teve o maior crescimento em mais de duas décadas. A família tinha na produção de açúcar e álcool seu principal negócio para fabricação de cachaça. A Indústria Reunida de Bebidas Tatuzinho produzia cerca de 20 milhões de litros das marcas Tatuzinho e Velho Barreiro, quando os controladores decidiram investir em geração de energia, para autossuficiência e para venda a terceiros. O crescimento foi feito basicamente com crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, via repasse dos bancos Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Santander. Os Tavares de Almeida também recorreram ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e contraíram um empréstimo de 35 milhões de reais para capitalizar o banco que controlavam, o Luso Brasileiro. Com mais capital, o banco poderia financiar fornecedores e clientes. No mercado de bebidas, o grupo se reinventava, lançando cachaças premium e uma linha de energéticos.

O primeiro problema apareceu no banco Luso Brasileiro. Uma auditoria do Banco Central, em 2013, descobriu indícios de irregularidades e obrigou a família a se afastar da gestão. Com a entrada de novos sócios — o grupo português Amorim e o grupo brasileiro Ruas —, a família foi diluída no capital do banco. Quatro administradores foram indiciados pelo Ministério Público Federal (MPF) de São Paulo, incluindo Manuel Tavares de Almeida Filho, que assumiu inteiramente o comando dos negócios após a morte do pai, em 2015. A investigação apontava que o Luso Brasileiro teria prestado informação falsa ao Banco Central. Segundo o MPF, o banco superfaturou o valor de imóveis recebidos para quitação de dívidas e classificou operações de crédito de forma incorreta para maquiar a real situação financeira da instituição, melhorando seus balanços nos anos de 2008 e 2009. O Banco Central também apontava que os acusados inseriram nos demonstrativos contábeis do Luso Brasileiro provisões insuficientes para operações de crédito. A ação penal corre em segredo de Justiça no Superior Tribunal Federal e tem au­diên­cia marcada para março de 2018. Um dos argumentos dos acusados anexados ao caso recentemente, segundo EXAME apurou, é que os empréstimos em questão foram todos quitados — uma indicação de que não foram classificados de forma pouco conservadora. Já o financiamento tomado com o FGC para capitalizar o banco não foi quitado e, entre aditivos e atua­lização, a dívida hoje é de 70 milhões de reais. Para tentar receber depois de anos de negociação, o FGC quer agora tomar algumas das garantias dadas pela família, como os 14% de participação que ela ainda detém no banco Luso Brasileiro, 2 hectares de terra vizinhos ao haras da família e uma participação na empresa de máquinas agrícolas Motocana.

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Com as contas expostas, naquele mesmo 2013, o Ministério Público Federal de Piracicaba denunciou 12 pessoas ligadas à Tatuzinho, incluindo Manuel Filho. Segundo o MPF, havia um esquema de emissão de notas fiscais e documentos falsos para reduzir o imposto sobre produtos industrializados e o imposto de renda incidentes nas saídas dos produtos produzidos pela Indústria Reunidas de Bebidas Tatuzinho 3 Fazendas Ltda., obtendo crédito fiscal indevido. Depois de anos se arrastando na Justiça, em recursos que já chegaram ao Superior Tribunal de Justiça, a própria Receita Federal — responsável pelas informações prestadas ao MPF para a formação de denúncia — não conseguiu provar que houve fraude nas notas. O barulho da Receita foi suficiente, no entanto, para atrapalhar uma negociação da empresa com a sul-africana Distell, que avaliava crescer no Brasil com a aquisição. Foi nessa mesma época que o grupo britânico Diageo comprou a brasileira Ypióca por quase 1 bilhão de reais. A dívida fiscal da Tatuzinho continua em discussão. Da possível sonegação de 10 milhões de reais, entre atualizações e multas, o débito é de 400 milhões de reais. Em nota a EXAME, o grupo Tavares de Almeida “considera totalmente infundadas as suposições da Receita Federal, pois as transações colocadas sob suspeita decorreram de fornecimentos legítimos de insumos”, e ressalta que teve ganho de causa na esfera estadual. Por isso, o grupo espera que o mesmo veredito se confirme na autuação federal.

Canetada

Enquanto a família lidava com as acusações, as usinas de energia, que tinham se transformado no maior investimento dos Tavares de Almeida, começavam a também dar problemas. Assim como as concorrentes, a Vista Alegre e a Agrícola Almeida tomaram um baque com uma canetada do governo Dilma Rousseff no fim de 2010. Para conter a inflação, o governo decidiu controlar o preço dos combustíveis. As usinas não conseguiam repassar seus custos crescentes — foi proibida, por exemplo, a queima da cana, aumentando em cerca de 25% o custo fixo de uma usina. Pelo menos dez empresas do setor entraram com ação contra a União no começo deste ano por perdas que alegam terem sido causadas pela política de congelamento de preço da gasolina no passado. A primeira tentativa de renegociação com os bancos foi ainda em 2012. Mas, segundo um executivo que participou das discussões, o Banco do Brasil não quis  fazer acordo. De lá para cá, são cinco anos sem pagar o empréstimo e sete pedidos de falência contra as usinas.

Credores reclamam que, no meio das discussões, Manuel Filho se mudou para Portugal e que o processo começou a se arrastar ainda mais, já que era difícil citá-lo nas ações judiciais — algo que chegou a levar um ano em algumas ações, segundo os advogados. Isso tornou as relações mais tensas nos últimos dois anos, e os bancos decidiram começar a executar algumas garantias no começo deste ano. Em maio, para tentar evitar a penhora da safra da usina e tornar inviável a operação, uma juíza de São Paulo convocou uma audiência de conciliação. Segundo os bancos, a proposta do grupo foi “ultrajante” e “afrontosa”. Seriam três anos de carência com 80% de desconto da dívida — em outras empresas do setor que concluíram ou estão em renegociações com bancos, como o grupo Bom Jesus, o grupo Farias e a Usina São João, essa parcela não chega a 50%. “Quem estava na mesa ficou ofendido. É uma postura pouco recomendável numa negociação”, diz o executivo de um dos bancos credores. A penhora de 45% da safra foi autorizada,  e os credores já têm hoje mais de 6 milhões de toneladas de açúcar, 1 milhão de litros de etanol hidratado e 2 milhões de litros de etanol anidro parados nos armazéns das usinas — os credores agora pedem autorização judicial para comercializar tudo isso. A Tavares de Almeida alega que a penhora foi determinante para o pedido de recuperação judicial. “A decisão foi tomada depois de inúmeras tentativas de firmar um acordo com os credores”, diz em nota.

Usina sucroalcooleira: quase 100 estão em recuperação judicial | Thomaz Vita Neto/pulsar imagens

Os bancos têm em garantia mais de 30 imóveis das empresas e seus acionistas e também têm ações da cachaçaria Tatuzinho. Em última instância, o maior risco para a família seria uma execução dessa participação na empresa de bebidas. Em cinco anos, a produção anual das cachaças Velho Barreiro e Tatuzinho mais que dobrou, para 45 milhões de litros. As vendas das cachaças premium, segmento em que a Velho Barreiro investiu, caíram. Mas os produtos mais baratos e as exportações continuam crescendo. A Velho Barreiro é a segunda maior marca em participação de mercado, atrás apenas da 51, que pertence à Companhia Müller de Bebidas. “As marcas Velho Barreiro e Tatuzinho são o maior ativo da família hoje”, diz um executivo com conhecimento do assunto. A família, no entanto, não estuda a venda de participações para reduzir as dívidas — aposta que será possível fazer isso com novos prazos de pagamento. Outro negócio do grupo é o Hotel Casa Grande, no Guarujá, no litoral paulista — lá, a família Zwecker quer deixar a sociedade e receber 40% do valor do imóvel. Os Tavares de Almeida terão de desembolsar alguns milhões de reais se não quiserem vender o imóvel para pagar os sócios.