Não é o governo que cria riqueza. São os cidadãos criativos

A economista Deirdre McCloskey, professora na Universidade de Illinois, em Chicago, diz que o Brasil precisa superar o nacional-desenvolvimentismo

Existe um jeito de o Brasil voltar a enriquecer: deixar que os cidadãos desenvolvam as próprias ideias criativas. A opinião é da economista Deirdre McCloskey, de 75 anos, doutora em economia pela Universidade Harvard e professora de economia e história na Universidade de Illinois, em Chicago. De acordo com Deirdre, o Brasil precisa se livrar da ideia de que é o governo que criará riqueza, núcleo do chamado nacional-desenvolvimentismo, doutrina que vai e volta por aqui desde a década de 30. “O Brasil precisa deixar fluir as ideias criativas dos cidadãos comuns”, diz.

Para ela, as ideias precedem até mesmo o capital. “As pessoas pensam que acumular capital é suficiente para gerar riqueza em um país. Esse é apenas um item, assim como a mão de obra e o direito de propriedade.” Autora de 17 livros e mais de 400 artigos em tópicos como economia, estatística e direitos dos transgêneros (Deirdre nasceu Donald em 1942 e mudou de gênero em 1995), ela se diz uma economista ao estilo da “Escola de Chicago”, isto é, que defende o funcionamento do mercado livremente, sem a interferência do governo. Em abril, Deirdre esteve no Brasil para participar do Fórum da Liberdade, em Porto Alegre, onde discursou sobre o caminho para o crescimento econômico do país. A seguir, a entrevista que concedeu a EXAME.

Qual é o caminho para o Brasil se tornar um país rico?

As pessoas pensam que acumular capital é suficiente para alcançar a riqueza em um país. Esse é apenas um dos itens, assim como a mão de obra e o direito de propriedade. Na verdade, é preciso deixar fluir as ideias criativas dos cidadãos comuns, ricos e pobres. As ideias estão em primeiro lugar e, se elas forem realmente boas, vão atrair o interesse dos investidores. Uma boa ideia é algo lucrativo. É algo que pode ser vendido por um valor superior a seu custo de produção, desde que as pessoas estejam dispostas a pagar por isso. Já as ideias ruins não geram riqueza e reduzem a renda nacional. O essencial é que surjam ideias novas e brilhantes — sejam elas abrir um salão de beleza num bairro ou tirar petróleo do fundo do mar. O capital vem na sequência.

Quais os obstáculos para o Brasil no rumo do crescimento e da riqueza?

Creio que o principal é o nacional-desenvolvimentismo: a ideia de que o governo gera riqueza. Essa ideia teve início na década de 30, foi reforçada nos governos militares e depois retomada na Presidência de Dilma Rousseff. Ela supõe que alguém em Brasília usando o dinheiro dos cidadãos sabe melhor qual projeto deve ser financiado do que alguém em São Paulo arriscando o próprio dinheiro. Isso não parece plausível, não é mesmo?

Que consequências essa crença tem trazido para o país?

O Brasil está preso às decisões tomadas em Brasília. Isso estancou o produto per capita [hoje em 9 900 dólares ao ano] perto da média mundial. Já as economias da China e da Índia crescem de 6% a 10% ao ano. Se seguir assim, esses países alcançarão o nível de PIB per capita atual dos Estados Unidos nas próximas décadas [a China, em 20 anos; a Índia, em 40]. O Brasil, porém, precisará de muito mais tempo para fazer o mesmo. Isso ocorre porque a China e a Índia estão permitindo às pessoas desenvolver ideias. Se as pes-soas pa-rarem de pensar em Brasília como um banco de investimento, o Brasil poderá acompanhar esses países. Mas, se continuarem a crer na intervenção e na regula-mentação estatal, o país vai crescer pouco.

A liberdade das ideias é seu ponto-chave, mas a China tem a mão pesada do Partido Comunista na economia e está ficando rica. Não há uma contradição?

A China está enriquecendo por imitação das ideias criadas em sociedades livres. Acredito que a liberdade ofereça uma projeção melhor para a Índia do que para a China no longo prazo, apesar de a democracia indiana ser um tanto louca. Os chineses gastam dinheiro público com ferrovias de alta velocidade. Já os indianos fazem investimentos massivos em desenvolvimento habitacional com dinheiro privado. É mais inteligente.

Como estimular novas ideias em países com baixo nível educacional?

A educação ajuda um país a enriquecer. Mas não adianta se o avanço educacional  for usado apenas para conseguir um emprego com estabilidade no governo. Além disso, transformar uma ideia criativa em um negócio está acessível a todo tipo de cidadão, até mesmo aos menos educados. Então, o foco de um país deveria ser facilitar que um negócio prospere, o que não é a realidade no Brasil. Na Nova Zelândia, o cidadão leva um dia para abrir uma empresa; no Brasil, 100 dias. Deixe que as ideias das pessoas sejam desenvolvidas e as coisas vão acontecer.

E quanto aos mais pobres, que não têm condições de desenvolver suas ideias? Nesse caso, os programas sociais ajudam a superar essa dificuldade?

O programa Bolsa Família é uma boa ideia, por exemplo. Caso você acredite que a renda de uma pessoa seja tão baixa que a impeça e a seus filhos de prosperar, dar dinheiro pode ser uma boa opção. É melhor do que, por exemplo, elevar o salário mínimo, acreditando que isso beneficiará os mais pobres, que na verdade nem têm emprego e estão na informalidade. Mas ressalto que o melhor programa social que um país pode adotar é permitir que bons empregos sejam criados. Postos de trabalho gerados com base em boas ideias e nos investimentos dos empreendedores.

Como a corrupção prejudica o Brasil no caminho para a riqueza?

A corrupção é irritante e injusta. É preciso entender que a corrupção tem origem num governo grande, em que as pessoas desviam o poder do Estado para fins privados. Porém a corrupção, assim como a educação, não é o principal obstáculo à riqueza do Brasil. Minha cidade, Chicago, foi muito corrupta há 100 anos, mas conseguiu registrar a marca de ser uma das cidades que cresceram mais -rapidamente no mundo no passado, pois tinha um ambiente empreendedor. Por isso reforço que o maior problema para o crescimento do Brasil é o nacional-desenvolvimentismo.