Um cenário mais nebuloso na economia mundial

Quando a confiança parece se recuperar no Brasil, a economia global dá sinais de esfriar. Para o economista Kenneth Rogoff, China é a maior preocupação

Aonde quer que se olhe, as grandes economias mundiais estão demonstrando sinais de fadiga. A fraca produção industrial na Alemanha fez sua economia encolher no segundo trimestre. Na China, o crescimento do consumo está bem mais moderado do que o ritmo frenético das últimas décadas. E até nos Estados Unidos, que vivem a mais longa expansão econômica, dados já mostram um desaquecimento. Diante do cenário, cresce o temor de que o mundo esteja caminhando para uma recessão. É um ambiente ruim para países como o Brasil, que ainda tenta se recuperar da própria paralisia.

Para Kenneth Rogoff, um dos economistas mais renomados no mundo e especialista no estudo de crises econômicas, a desaceleração chinesa é hoje o maior risco à economia global e, nesse sentido, a guerra comercial provocada pelos Estados Unidos só piora a situação.

“A guerra comercial minou drasticamente a confiança dos empresários e tornou muito mais difícil para as autoridades da China administrarem um pouso suave”, diz Rogoff, que foi economista-chefe do Fundo Monetário Internacional de 2001 a 2003 e hoje dá aulas na Universidade Harvard. Na entrevista a EXAME, ele diz ainda que, numa próxima recessão, os países não terão saída senão adotar taxas de juro ainda menores ou apostar numa política de aumento de gastos e redução de impostos.

O temor de uma recessão global tem deixado os investidores nervosos e derrubado as ações. Em sua opinião, quais são os riscos mais sérios que a economia mundial enfrenta hoje?

Há poucas dúvidas de que a economia global esteja desace-lerando e de que o risco de uma recessão global nos próximos 12 meses tenha aumentado significativamente. A China é o ponto de maior vulnerabilidade e, haja o que houver, ela detém a chave para o próximo capítulo da economia global. Mesmo antes da guerra comercial do presidente Donald Trump, a economia chinesa já estava em uma clara tendência descendente. A mão de obra chinesa não está mais crescendo, os benefícios de seu progresso tecnológico estão diminuindo e há um espaço cada vez menor para estimular a economia por meio do setor habitacional. A China já tem a mesma quantidade de metros quadrados per capita que a maior parte da Europa. Além disso, os instrumentos do governo chinês para enfrentar uma desaceleração são limitados. Considerando todos os desafios, a China terá sorte em alcançar uma taxa de crescimento de 3% a 4% ao ano na próxima década, o que é bem menos do que a meta oficial de 6%. E a guerra comercial minou drasticamente a confiança dos empresários, particularmente no setor de exportação, e tornou mais difícil para as autoridades da China a administração de um pouso suave. Fora isso, os protestos em Hong Kong estão preocupando os investidores internacionais.

Qual é o reflexo dessa situação?

Os países que exportam para a China já foram duramente atingidos. Por exemplo, a Alemanha e os países emergentes, exportadores de commodities. Mas, além da China, há ainda o risco crescente de um Brexit [a saída do Reino Unido da União Europeia] sem acordo. Ele tem abalado a confiança em toda a zona do euro, que pode facilmente entrar em recessão. Os fundamentos da economia dos Estados Unidos ainda são muito bons, mas a guerra comercial também está tendo seus efeitos no país. É claro que as desacelerações europeia e chinesa atingiram as exportações americanas, porém o grande efeito está na incerteza. Apesar do baixo desemprego e do crescimento sólido, o investimento privado nos Estados Unidos diminuiu acentuadamente nos últimos meses, um claro voto de “falta de confiança” nas políticas do governo.

Alguns analistas têm alertado que a curva de juros invertida — quando os títulos de longo prazo passam a ter um rendimento menor do que os de curto prazo — é um sinal de que uma recessão está chegando (veja gráfico). O senhor concorda com essa visão?

Deve-se evitar dar muita atenção à curva de juros invertida. Normalmente, quando as taxas de longo prazo estão abaixo das taxas de curto prazo, isso é um sinal de que os investidores acreditam que haja problemas no horizonte, e o Fed [o Banco Central americano] terá de cortar as taxas em breve. Nesse caso, os juros de longo prazo — que geralmente são mais altos do que as taxas de curto prazo, porque incorporam mais incerteza — podem, na verdade, ficar abaixo das taxas de curto prazo. Mas, talvez, desta vez seja diferente. As taxas de curto prazo vêm caindo durante a maior parte deste século. Por muito tempo, a maioria dos investidores vinha desconsiderando essa tendência, assumindo que, no futuro, as taxas de juro voltariam pelo menos à metade de seu nível normal. Desde o ano passado, porém, cada vez mais investidores estão acreditando que a tendência poderá continuar. Não é implausível ver a taxa de juro de longo prazo caindo abaixo das taxas de curto prazo. Dito isso, a queda que ocorreu no início de agosto nos títulos do Tesouro de 10 anos e, especialmente, nos títulos de 30 anos é surpreendente, e parece refletir a falta de confiança de que o governo pode controlar a situação.

Porto de Xangai: a desaceleração da economia chinesa tende a reduzir a demanda por matérias-primas e produtos agrícolas | Li Jun/Photoshot/AGB Photo

A preocupação que estamos vendo agora é diferente daquela que se passou no fim do ano passado, quando as ações caíram?

Para mim, a questão é se os Estados Unidos ainda têm instrumentos significativos para combater qualquer ameaça de recessão. Uma opção seria o presidente Trump voltar atrás em sua guerra comercial, que é de longe o maior obstáculo ao crescimento global. Francamente, se Trump demitisse seu czar de comércio Peter Navarro [o maior defensor da guerra comercial] — que parece ter a influência de um Rasputin sobre a política do governo —, isso proporcionaria um impulso à confiança nos negócios, encorajando investidores e empresários a acreditar que os Estados Unidos estão pelo menos dispostos a esperar até depois da eleição de 2020 para continuar com esse absurdo.

Nesse ambiente turbulento, qual é a perspectiva para os países emergentes?

A desaceleração do crescimento chinês deve atingir duramente os mercados emergentes, já que a China é o maior importador mundial de matérias-primas e produtos agrícolas. E os níveis de endividamento da China são altos, particularmente no setor corporativo, no qual a maior parte dos empréstimos estrangeiros é denominada em dólar. E o dólar valorizado tornou o pagamento dessas dívidas ainda mais desafiador. No momento, o fator que impede uma piora da situação são as taxas de juro historicamente baixas. Veja, até os títulos públicos da Grécia agora estão pagando juros baixos. É difícil ter uma crise da dívida quando as taxas de juro reais são negativas — ou mesmo as taxas nominais na Europa e no Japão —, de modo que os credores estão literalmente pagando os mutuários pelo privilégio de receber seu dinheiro. É incrível que a Argentina tenha conseguido ter uma crise da dívida nesse ambiente de juros baixos. Além disso, a gestão da economia se deteriorou drasticamente em muitos mercados emergentes à medida que os governos adotaram políticas altamente populistas para permanecer no poder. Uma coisa que particularmente preocupa são os desafios generalizados à independência dos bancos centrais, que continuam a ser o baluarte mais importante contra o retorno à inflação alta.

No Brasil, a economia ainda tem dificuldades para voltar a crescer. Como o país pode ser afetado em caso de uma desaceleração ou uma recessão global?

O Brasil tem uma economia mais diversificada do que a maioria de seus vizinhos, mas é claro que o país ainda é bastante vulnerável a qualquer desaceleração global que atinja os preços de suas exportações de commodities.

Toque para ampliar.

Alguns especialistas têm defendido que os governos devem usar mais a política fiscal, reduzindo impostos ou aumentando gastos, do que a política monetária. Essa é uma boa medida em caso de recessão?

Sim, dado que a política monetária atingiu seus limites em muitos países e as taxas de juro estão extraordinariamente baixas, há margem considerável para uma política fiscal expansionista, mesmo que não haja uma recessão global. A política fiscal para promover o crescimento no longo prazo — digamos, por meio do investimento em infraestrutura — faz um tremendo sentido. Mas a política fiscal é um instrumento muito objetivo para combater as recessões cíclicas. Embora eu concorde que os governos precisem confiar mais na política fiscal na próxima recessão, acho que também é importante fortalecer a política monetária. Como argumentei em meu livro de 2016 sobre o passado, o presente e o futuro do dinheiro físico [The Curse of Cash, ou “A maldição do dinheiro”, numa tradução livre], se o atual ambiente de taxas de juro reais ultrabaixas persistir globalmente, os governos precisarão pensar em maneiras de implementar políticas de juros mais negativas do que a Europa e o Japão fizeram, e o elemento-chave será encontrar maneiras de desencorajar a acumulação de dinheiro em papel-moeda. A rapidez com que os governos começarão a levar a sério as taxas de juro negativas dependerá muito de qual será o uso da política fiscal na próxima recessão.