Trump atira na Amazon — mas quer acertar Bezos

Donald Trump considera que o jornal The Washington Post, de Jeff Bezzos, está no centro de um complô contra ele

“Eles pagam pouco ou nenhum imposto para governos estaduais e locais, usam nosso correio como seu garoto de entregas (provocando perdas tremendas para os Estados Unidos) e estão causando a falência de milhares de varejistas!” Foi assim, numa mensagem publicada no Twitter por volta das 5 horas de 29 de março, que Donald Trump começou sua mais recente onda de ataques contra a Amazon e seu presidente e fundador, – Jeff Bezos. Como tudo o que diz respeito a Trump, é preciso fazer algum esforço para entender o que o presidente americano quer dizer — e para separar o que é verdade do que é ficção.

Donald Trump está atirando na Amazon, mas quer acertar em Jeff Bezos. Há cinco anos, Bezos pagou 250 milhões de dólares pelo diário The -Washington Post. Para Trump, o jornal — que é de propriedade de Bezos, mas não faz parte dos negócios da Amazon e mantém sua independência editorial — é parte central de um grande complô da mídia contra sua Presidência e sua pessoa. “Ele está fora do controle. É guerra”, disse uma fonte da Casa Branca a um jornalista da revista Vanity Fair. A obsessão atual do presidente americano é “foder com ele [Bezos]”, disse outra pessoa à revista.

Trump acusa a Amazon de evasão de impostos. Não é verdade. Durante muito tempo, a empresa se aproveitou de brechas na legislação, pois a taxação das vendas (que nos Estados Unidos é estadual) só é obrigatória se o varejista tem presença física no estado, seja uma loja, seja um centro de distribuição. Mas, neste ano, a Amazon anunciou que paga impostos em todos os estados que os cobram. O próprio Trump, num debate com Hillary Clinton em 2016, disse ser “esperto” por ter se aproveitado das leis e não ter pagado imposto de renda nos anos 90. “Sou empresário, e é assim que temos de fazer”, afirmou ele, sobre evitar taxação. Seguindo essa lógica, Jeff Bezos é um gênio.

O presidente Trump também afirma que o contribuinte americano está, na prática, subsidiando as entregas da Amazon, porque os correios teriam um contrato deficitário com a empresa. As leis americanas proíbem que os correios percam dinheiro em contratos desse tipo. Embora os números sejam sigilosos, numa conferência com investidores organizada pelo banco de investimento UBS, o ex-chefe dos correios americanos Patrick Donahoe afirmou que a empresa não perde dinheiro entregando pacotes da Amazon. O serviço postal é deficitário, mas, segundo analistas, o motivo são as pesadas obrigações com a aposentadoria de ex-funcionários. Sem os 5,7 bilhões de entregas anuais feitas para a Amazon, o rombo seria ainda maior. (A Amazon não comentou a série de acusações do presidente dos Estados Unidos.)

Trump já vinha reclamando da Amazon desde a época da campanha presidencial, mas em ocasiões isoladas e sem a mesma virulência das postagens recentes. Uma das teorias sobre a torrente de acusações contra a empresa e contra Bezos diz respeito a uma reportagem do The Washington Post afirmando que capas falsas da revista Time retratando Trump decoram as paredes de, pelo menos, cinco propriedades do presidente americano.

Ao eleger Jeff Bezos como o inimigo da vez, Trump suscita uma comparação que não lhe é nada lisonjeira. O presidente não se cansa de propalar sua fortuna como a prova de sua competência nos negócios — mas suas empresas entraram em concordata seis vezes. A Amazon é uma das maiores histórias de sucesso do mundo dos negócios, ficando atrás apenas da Apple como a empresa mais admirada pelos americanos, segundo uma pesquisa divulgada recentemente pela revista Fortune. A avaliação do governo Trump atingiu em março os níveis mais baixos desde a posse, em janeiro de 2017: 41% dos eleitores aprovam o trabalho do presidente, e 54% o desaprovam.

Bezos, criado pela mãe e pelo padrasto de origem cubana (de quem assumiu o sobrenome), sempre foi um estudante brilhante. Algumas das particularidades do modo Amazon de trabalhar são determinações do presidente da empresa. O uso do PowerPoint é proibido — todas as reuniões iniciam com a leitura silenciosa de um documento em forma de narrativa. Só depois os participantes começam as discussões. Bezos é um leitor voraz, e um de seus romances favoritos, Os Vestígios do Dia, foi escrito por Kazuo Ishiguro, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura do ano passado.

Trump sabidamente não gosta de textos longos e prefere documentos com pontos curtos (além de assistir religiosamente ao canal de TV conservador Fox News). O site Factbase fez uma análise das primeiras 30 000 palavras usadas por 15 presidentes americanos depois da posse. Trump ficou em último lugar. Segundo uma metodologia de classificação, Trump se expressa como uma criança entre a 4a e a 5a série.

A única característica que parece unir essas -duas personalidades são os ataques de fúria. No livro A Loja de Tudo, há inúmeros relatos das explosões de Bezos contra funcionários: “Você é preguiçoso ou incompetente?” e “Por que você está desperdiçando a minha vida?” são dois exemplos. Mas o livro também deixa claro que Bezos é, acima de tudo, uma pessoa racional: ele aceita a realidade e está sempre disposto a ser convencido por bons argumentos. Já o presidente dos Estados Unidos…