Todo mundo tenta, mas ninguém consegue ser Warren Buffett

Ninguém consegue copiar o sucesso do investidor Warren Buffett. Gestores vistos como estrelas logo ficam no vermelho, para desespero dos investidores. Bater o mercado é mesmo para poucos

São Paulo – Há um duelo de ideias, com alguns trilhões de dólares envolvidos, no mercado americano. De um lado estão os que acreditam que existem gestores de fundos excepcionais, capazes de ver o que pouca gente vê e de entregar retornos maiores do que os dos concorrentes.

Por décadas, o maior expoen­te dessa corrente foi um fundo de renda fixa da gestora Pimco, o Total Return. Até 2013, ele foi o maior fundo do planeta, com um patrimônio de 248 bilhões de dólares. Seu gestor, Bill Gross, um psicólogo, ficou conhecido nos anos 80 como “o rei da renda fixa”.

O fundo chegou a render 14% ao ano, o dobro da média do mercado — mas não sem altos e baixos. Em outubro, o Total Return perdeu o posto de maior do mundo para um fundo que faz exatamente o oposto. O Total Stock ­Market Index, da gestora Vanguard, acumulou um patrimônio de 251 bilhões de dólares replicando um índice que reúne as ações mais negociadas da bolsa de Nova York e da Nasdaq.

Seus gestores não acham que terão ideias geniais. Para eles, o melhor fundo que podem oferecer é um que cobre pouco e tenha uma carteira pública e conhecida, para evitar surpresas. 

Quem está certo? Na média, a Vanguard. Não só porque o rendimento de seu Total Stock é ligeiramente superior ao da carteira da Pimco. Fundos como o da Vanguard, em que os gestores simplesmente acompanham índices de mercado (chamados de indexados), tiveram retorno anual médio de 7% nos últimos dez anos, segundo um levantamento feito, a pedido de EXAME, pela empresa de pesquisas Morningstar no mercado americano.

Fundos como o da Pimco, chamados de ativos, renderam 6,6% (o levantamento inclui fundos de ações, de hedge e de renda fixa). Mas a pesquisa também mostra que o fundo mais rentável do período é ativo: um fundo de commodities da pequena gestora canadense Di Tomasso, que rendeu quase 27% ao ano no período.

Também faz parte desse grupo o investidor Warren Buffett, que bateu o índice S&P 500 em 40 dos últimos 48 anos. E George Soros, cujo fundo de hedge operou de 1969 a 2011 com retorno de 20% ao ano (hoje, ele administra sua fortuna).

O tamanho desses dois segmentos sugere que a maioria dos investidores não liga muito para a média e está mais interessada em tentar achar o próximo Buffett ou o próximo Soros. O patrimônio dos fundos ativos soma 10 trilhões de dólares, seis vezes mais que os indexados.

Disputa no Nobel

Por trás desses números está uma discussão mais ampla sobre o funcionamento do mercado. Para estudiosos como Robert Shiller, professor da Universidade Yale, os mercados são ineficientes, ou seja, investidores com poucas informações e guiados mais pela emoção do que pela razão tomam decisões ruins e criam distorções.

Na visão dele, gestores inteligentes seriam capazes de ganhar dinheiro em cima disso. Já Eugene Fama, professor da Universidade de Chicago, defende o contrário. Para ele, tentar ser mais esperto do que a concorrência é perda de tempo — pode funcionar por alguns anos, mas, no longo prazo, é melhor seguir a média. Ambos ganharam o Prêmio Nobel deste ano por contribuições à teoria econômica. 


Se não há conclusão sobre qual ideia é a vencedora, alguns estudos indicam como o investidor pode se comportar para tentar ganhar mais — ou perder menos — dinheiro no mercado. A Morningstar fez um levantamento que mostra que a média de retorno dos fundos americanos foi de 3,2% ao ano de 2000 a 2010, enquanto os investidores ganharam apenas 1,7%.

“Isso ocorre porque os investidores tendem a mudar de aplicação a todo momento para ir atrás da que rendeu mais no último mês”, diz Ronaldo Caselli, sócio da Consenso, que administra grandes fortunas. A Consenso fez uma pesquisa semelhante à da Morningstar aqui e chegou a uma conclusão parecida.

Numa escala muito menor, esse duelo de estratégias também existe no Brasil, mas o cenário é um pouco diferente. Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, aqui os fundos indexados rendem menos do que os ativos. Isso tem duas explicações, segundo os especialistas.

Por mais inacreditável que seja, os fundos indexados — que, por definição, só acompanham índices de mercado — são caros no país. A maioria deles é gerida por grandes bancos, que costumam cobrar mais do que as gestoras menores. Além disso, há poucos índices que os fundos indexados podem replicar, o que inibe produtos mais sofisticados e rentáveis. Mas isso não significa que a vida do investidor que escolhe os fundos ativos seja fácil. 

É o que mostra o exemplo da gestora paulista Advis, que tem Alexandre de Zagottis, herdeiro da rede de farmácias RaiaDrogasil, entre os sócios. Fundada em 2006, ela tinha um patrimônio inferior a 3 bilhões de reais em 2011, até que seus fundos passaram a render 50% e até 60% ao ano.

O patrimônio triplicou, mas, depois de mais alguns meses de euforia, os fundos passaram a perder dinheiro. Nada que, em tese, não estivesse na conta dos investidores. Os fundos da Advis são de alto risco, e isso está explicado em seus regulamentos. De maio a junho, quando a bolsa caiu e o dólar valorizou, em razão da perspectiva de mudanças na política monetária dos Estados Unidos, e os juros voltaram a subir antes do esperado, os fundos da gestora caíram de 5% a 15%.

De lá para cá, os investidores tiraram 4,5 bilhões de reais da Advis, o sócio responsável por renda variável saiu brigado com a equipe, e quem ficou passa o dia acalmando clientes (a gestora diz que a saída foi “amigável”). Recentemente, outra gestora que estava despontando como revelação no mercado, a carioca SPX, também teve de se explicar: seus fundos perderam 5% em setembro, e os investidores sacaram 200 milhões de reais.

“Fundos que crescem rapidamente com a empolgação dos investidores acabam tendo estratégias menos eficientes”, diz Simon Lack, autor de The Hedge Fund Mirage (algo como “A miragem dos fundos de hedge”). No caso de Advis e SPX, quem não sacou tem chance de recuperar o prejuízo.