Tinder é destaque no grande mercado do amor

O Tinder, aplicativo de paquera baseado em geolocalização, virou febre entre a geração Y americana e brasileira e é a maior promessa do Match Group

São Paulo — A tecnologia acabou com a rejeição na paquera. Lembra aquela sensação de voltar da balada para casa sem ter conseguido conversar com quem você queria ou tendo ouvido uma série de “nãos”? O aplicativo Tinder, pertencente à empresa de tecnologia americana Match Group, criou um atalho para quem quer conhecer gente nova ou namorar.

Ao se inscrever no app, o usuário monta um perfil com fotos e informações pessoais. Em seguida, tem acesso a um catálogo com fotos de outros usuários (do sexo oposto ou do mesmo) selecionados por idade e proximidade geográfica. Para escolher um potencial parceiro, basta deslizar a tela do celular para a direita. Para descartá-lo, o movimento é para a esquerda.

Caso a pessoa escolhida também goste de seu perfil, ambos podem começar uma conversa pelo aplicativo. Claro que nem todas as escolhas são recíprocas, mas a quantidade de perfis é tão grande que sempre aparece alguém a fim de papo. O aplicativo tem 25 milhões de usuários ativos — aqueles que o usam pelo menos uma vez por mês. O Brasil é o segundo maior mercado, atrás somente dos Estados Unidos.

Na média, cada usuário avalia 146 perfis por dia. A empresa não revela qual é a taxa de sucesso dos cadastrados, mas, a julgar pelo barulho que está fazendo, deve ser alta. O Tinder deu escala à paquera. O Tinder está há dois anos na lista dos cinco apps mais baixados nas lojas online da Apple e do Google na cate­goria estilo de vida.

A popularidade tem as digitais da geração Y, jovens entre 18 e 35 anos que não se sentiam atraídos pelos sites de relacionamento criados nos anos 90. “Os jovens tratam os relacionamentos como uma relação de consumo. Por isso, uma foto e algumas informações de perfil bastam.

Os aplicativos como o Tinder fun­cionam como uma prateleira de supermercado”, diz Michel Alco­forado, diretor da consultoria Con­sumoteca, que fez a maior pesquisa sobre o tema no Brasil. A maneira como os potenciais parceiros são apresentados no app foi inspirada no layout e na lógica dos games. Não por coincidência, claro.

As pessoas cos­tumam entrar no Tinder no intervalo que era reservado para os jogos de celular, como Candy Crush. Tudo feito sob medida para ser visto e usado no onipresente smartphone. Além do Tinder, o Match Group é dono de outras 44 marcas relacionadas à busca de parceiros online.

No Brasil, opera os sites ParPerfeito, para público em geral, Gencontros, para o público gay, e Divino Amor, para os evangélicos. Com faturamento de 1 bilhão de dólares, o Match Group tornou-se o maior do gênero no mundo, adquirindo grandes concorrentes, como o europeu Meetic e o também americano OkCupid.

Toda essa trajetória contou para o sucesso da abertura de capital do Match Group no final do ano passado na bolsa americana, mas o que mais entusiasmou os investidores foi mesmo o Tinder. Hoje, o aplicativo responde por uma fatia pequena do faturamento do grupo, 57 milhões de dólares. Pelos cálculos do banco Goldman Sachs, porém, esse valor deve subir para cerca de 300 milhões em 2018.

A margem de lucro líquido do grupo, que foi de 17% em 2014, deve subir para 19% em 2017, de acordo com a previsão do banco britânico Barclays. O Tinder surgiu em 2012 dentro de uma espécie de incubadora para novas ideias do Match Group. Seu criador foi Sean Rad, na época com 25 anos. Depois de ser apresentado para alunos de várias universidades americanas, o app virou febre.

“Fizemos o Tinder somente no mobile porque era a melhor forma de chegar ao nosso público-alvo”, afirma Rosette Pambakian, vice-presidente de comunicação do aplicativo. Até o começo do ano passado, o aplicativo era gratuito e não gerava receita. Há um ano, foi criado um modelo batizado de “freemium” — parte de graça, parte pago.

No caso do Tinder, o usuário tem um limite de “curtidas” gratuitas a cada dia e paga para ter acesso a mais. Paga também para poder ver pessoas de outras cidades e enviar um “super like”, uma maneira de demonstrar seu interesse. No Brasil, o valor é 25 reais por mês.

“É preciso eliminar as barreiras de entrada para o público jovem, que tem outras opções baratas de paquera. Mas também dá para cobrar daqueles dispostos a ter mais funcionalidades”, diz Guillaume Durao, diretor de investimentos do fundo francês Idinvest Partners.

Vai rolar?

Embora o começo e as perspectivas do Tinder sejam positivos, o aplicativo terá de enfrentar alguns desafios. O primeiro é a concorrência. O francês Happn tem 11 milhões de usuários no mundo e adiciona 1,5 milhão de pessoas a essa base todo mês. O Brasil é o maior mercado do Happn, com 1,7 milhão de usuários, cerca de 500 000 só na cidade de São Paulo.

“Como queremos ser os líderes mundiais, estamos trabalhando para melhorar nosso produto e analisando as cidades com maior potencial de crescimento”, afirma Didier Rappaport, presidente e cofundador do Happn. Uma dificuldade comum ao Tinder e ao Happn é a retenção dos usuários. “Quando o namoro dá certo, ambos costumam desinstalar o aplicativo de paquera.

Boa parte dos usuários está ali para sair em pouco tempo”, diz Alcoforado, diretor da consultoria Consumoteca. Em razão dessa tendência, muitos investidores argumentam que os aplicativos de paquera devem pensar em novas estratégias de geração de receita. Aumentar a conversão de pessoas cadastradas em usuários pagantes e adotar um modelo que atraia a publicidade são duas opções sugeridas.

Para Aditi Paul, autora de um longo estudo sobre o comportamento online dos jovens americanos, os desafios existem, mas os apps chegaram para ficar. “Assim como somos dependentes do Google para fazer pesquisas, os jovens usam apps como o Tinder para otimizar a busca por parceiros”, diz Aditi. Ela acredita que entramos na era do amor algorítmico.