Tendências 2019 | Líderes, de Paulo Guedes a Mark Zuckerberg

Os homens e as mulheres que serão notícia — e serão colocados à prova — no Brasil e lá fora no ano que vai começar

GOVERNO

O TIMONEIRO DA ECONOMIA

Escolhido para comandar um superministério, Paulo Guedes precisa, primeiro, achar uma solução para o rombo fiscal. E, aí, tentar tornar o país mais competitivo, aberto, atraente para investimentos… | Giuliana Napolitano

Paulo Guedes: corte de gastos, reformas e privatizações entre as prioridades | André Valentim

Numa entrevista gravada alguns meses antes das eleições, o economista Paulo Guedes, futuro ministro da Economia, usou o tema das privatizações para fazer um resumo de sua relação com o agora presidente eleito, Jair Bolsonaro. “O Bolsonaro achava que não tinha de vender nenhuma [estatal]. Agora vai ter uma resultante interessante, porque, para mim, são todas [que devem ser vendidas]. Deve ter algo aí no meio.”

A missão mais urgente de Guedes é equilibrar as contas públicas, algo considerado vital para que empresários e investidores voltem a ter confiança para colocar dinheiro no Brasil. Sem isso, prevê a maioria dos economistas, o país cresceria pouquíssimo em 2019 e poderia entrar em recessão nos anos seguintes. O plano de Guedes para resolver o problema fiscal é ortodoxo e liberal: prevê privatizar o que for possível (para reduzir a dívida e, assim, os gastos com juros), cortar despesas e fazer reformas. A primeira da fila, pelo tamanho do rombo que se acumula ano a ano, deve ser a da Previdência. O futuro ministro já disse que é “factível” zerar o déficit público — que, em 2018, deverá passar de 100 bilhões de reais — em um ano.

Mesmo que leve mais tempo, o que é bastante provável, ter um caminho claro que aponte para a redução do déficit seria um feito e um alívio, e por isso Bolsonaro, que sempre foi contra privatizações e reformas impopulares, teve o apoio de muitos empresários e executivos do mercado financeiro. Para chegar lá, porém, Guedes precisa não apenas contar com o apoio de Bolsonaro (nem que seja no esquema meio-termo) mas também convencer o Congresso — a aprovação no Senado, no início de novembro, do reajuste do Judiciário, com as contas públicas em frangalhos, mostra que nem sempre o bom senso econômico prevalece ali. Nesse campo, Guedes precisará do suporte de outros ministros encarregados do relacionamento com os parlamentares (leia mais sobre eles abaixo).

Na teoria, quem votou em Bolsonaro sabia que a agenda econômica seria dura. Também na teoria, muitos brasileiros são a favor da reforma da Previdência. Mas, quando se dão conta de que ela pode tornar a própria aposentadoria mais difícil — que é justamente o objetivo da mudança —, a opinião muda. Uma pesquisa da empresa de investimentos XP, que ouviu 1 000 pessoas em novembro de 2018, mostra que 67% consideram a reforma da Previdência necessária. Mas 60% dizem que a idade mínima para a aposentadoria deveria ser menor do que a incluída na proposta que já tramita no Congresso (de 62 anos para mulheres e 65 anos para homens) ou nem deveria existir.

Se conseguir dar um novo rumo à situação fiscal, Paulo Guedes poderá se concentrar em outros temas relevantes, como simplificação tributária, apoio ao empreendedorismo,  abertura comercial e atração de investimento estrangeiro — assuntos que ele e Bolsonaro, pelo menos no discurso, tratam como prioritários. A partir de 2019, Guedes comandará um superministério, que englobará as atuais pastas da Fazenda, do Planejamento e da Indústria e Comércio Exterior, além de atribuições da área do Trabalho, como as de fiscalização e políticas de emprego (o Ministério do Trabalho deve ser extinto). Para dar conta da tarefa, Guedes tem escolhido, como secretários, membros da atual gestão — que sabem como funciona a máquina pública — e outros com experiência no Congresso. Um exemplo é Mansueto Almeida, secretário do Tesouro Nacional, que deve permanecer no cargo. Outro é o deputado Rogério Marinho, do PSDB, que foi relator da reforma trabalhista aprovada em 2017 e, no novo governo, deve ser responsável pela Previdência.

Formado em economia na Universidade Federal de Minas Gerais, com mestrado na Fundação Getulio Vargas e doutorado na Universidade de Chicago, Guedes sempre foi um crítico da intervenção do Estado na economia — e cético em relação aos diversos planos econômicos adotados pelo Brasil para conter a inflação. Para ele, até o Real foi mal implementado, porque deixou de lado o controle dos gastos públicos. Em 1986, numa palestra nos Estados Unidos, criticou duramente o Plano Cruzado, que acabara de ser implantado. Havia economistas otimistas, mas ele vaticinava um desastre. Segundo pessoas próximas ao futuro ministro, a análise chamou a atenção do investidor George Soros, que se tornou cliente do Pactual, banco do qual Guedes é um dos fundadores (hoje, chama-se BTG Pactual).

Até ser nomeado ministro, Guedes era pouco conhecido fora do mercado financeiro, onde fez carreira. Quando saiu do Pactual, tornou-se sócio da gestora JGP e, depois, criou a própria gestora, a BR Investimentos. Em 2013, a BR uniu-se a outras gestoras para formar a Bozano, da qual ele se tornou sócio e onde permaneceu até o fim de 2018, cuidando de investimentos em empresas. Guedes também atuou no meio acadêmico. Na década de 70, deu aulas na Universidade Católica, na FGV e no Instituto de Matemática Pura e Aplicada, todos no Rio de Janeiro. Em seguida, lecionou na Universidade do Chile, que vivia sob intervenção militar (na época, outros egressos da Universidade de Chicago ajudavam o governo de Augusto Pinochet na implementação de políticas liberais). Quando voltou ao Brasil, foi professor, diretor e sócio da escola de negócios Ibmec por 16 anos, até 2003, quando vendeu sua parte. A carreira de Guedes na gestão pública só vai começar agora — num dos postos mais altos que um economista pode almejar. 


GOVERNADORES

ELES TÊM DE ARRUMAR AS CONTAS

Romeu Zema, Wilson Witzel e Eduardo Leite precisam consertar o caos financeiro de seus estados | Natália Flach

Romeu Zema (Novo): o empresário trocou o comando dos negócios da família pela liderança do governo de Minas Gerais | Divulgação

Wilson Witzel, Romeu Zema e Eduardo Leite tiveram trajetórias de vida totalmente distintas, mas, a partir do dia 1o de janeiro, terão o mesmo desafio: governar pela primeira vez estados que estão com as contas no vermelho. Até a disputa nas urnas, Witzel (PSC) era um juiz federal pouco conhecido tanto no Rio de Janeiro quanto no restante do país. Ele se apresentou como um político não profissional, mas com experiência no combate à corrupção e à criminalidade — por ter participado do julgamento do caso do propinoduto na gestão de Anthony Garotinho no governo fluminense. Isso acabou chamando a atenção do eleitorado, especialmente depois de Witzel ter expressado apoio ao então candidato à Presidência Jair Bolsonaro. Com essa fórmula, conseguiu derrotar nomes conhecidos, como o ex-prefeito da capital Eduardo Paes (DEM) e o ex-jogador de futebol Romário Faria (Podemos).

Outro novato na política é o empresário Zema, que fez fortuna no comando do grupo que leva o sobrenome de sua família. Até filiar-se ao partido Novo e candidatar-se ao governo de Minas Gerais, ocupava o cargo de presidente do conselho do conglomerado que fatura 4,5 bilhões de reais com a -operação de lojas de eletrodomésticos e postos de gasolina. O azarão das eleições de Minas derrotou o senador Antonio Anastasia (PSDB) e o atual governador, Fernando Pimentel (PT). Por sua vez, o mais novo dos três não é exatamente um principiante na política. Aos 33 anos, Leite (PSDB) já foi prefeito da gaúcha Pelotas e tem experiência em gestão pública, contando com um bom trâmite nos corredores de Porto Alegre e de Brasília. Desde que venceu o atual governador, José Ivo Sartori (MDB), Leite, que se diz diferente dos políticos tradicionais, tem conversado com integrantes do governo Bolsonaro e com deputados estaduais a fim de encontrar uma saída para o imbróglio econômico do Rio Grande do Sul.

Wilson Witzel (PSC): deixou o cargo de juiz federal para combater a corrupção e a criminalidade no Rio de Janeiro | Rommel Pinto/Futura Press

Cada um ao seu estilo, esses novos governadores tratam de pavimentar um caminho menos tortuoso para o início de sua administração. Na quarta-feira 12, Leite reuniu-se com o ministro do Superior Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, para reforçar o pedido de que seja mantida a liminar que suspende o pagamento da dívida do Rio Grande do Sul com a União, sem que isso bloqueie o repasse de recursos. A permissão, no entanto, exige contrapartidas do estado, como a privatização de estatais e a redução de incentivos fiscais. Uma das joias da coroa gaúcha é o Banrisul, mas ele não abre mão de seu controle. “Já houve uma abertura do capital, novas ações podem ser colocadas no mercado, mas queremos a manutenção do controle público do banco”, disse, após um encontro reservado com Bolsonaro e com o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes.

Eduardo Leite (PSDB): conversas com o governo Bolsonaro para garantir recursos para o Rio Grande do Sul | Omar de Oliveira/Fotoarena

Assim como o Rio Grande do Sul, o Rio de Janeiro também está quebrado. O saldo da dívida passa de 148 bilhões de reais, de acordo com dados de outubro da Secretaria de Estado da Fazenda. O rombo exigirá de Witzel diálogo com a Assembleia e com a equipe de Bolsonaro para renegociar o endividamento, além de pulso firme para combater a criminalidade. Em março, Witzel deixou a magistratura e um salário bruto de 29.000 reais para “se juntar ao povo” no combate aos desvios de dinheiro público. A bandeira faz sentido. Todos os governadores que passaram pelo Palácio das Laranjeiras nos últimos 20 anos estiveram ou estão presos por corrupção, como Sérgio Cabral, detido em Bangu, e Luiz Fernando Pezão, encarcerado em um quartel da Polícia Militar.

Em Minas Gerais, o desafio também é colocar um ponto-final na crise econômica que assola o estado, que acumulava até agosto uma dívida líquida de 106 bilhões de reais. Assim que Zema foi eleito, a equipe de transição aplicou um pente-fino nas contas públicas e descobriu um déficit quase três vezes maior do que o previsto no orçamento. Segundo os novos cálculos, em vez de 11,4 bilhões de reais, o rombo nos cofres públicos seria de quase 30 bilhões de reais. Isso se explica principalmente pelo descompasso entre despesa e receita. Enquanto o gasto com pessoal cresceu 37% de 2014 a 2017, a arrecadação tributária aumentou 23%. “Está claríssima a gravidade das finanças do estado. É um processo que tem acontecido há mais de cinco, seis anos, e pior do que o agravamento é que as medidas corretivas nunca foram tomadas”, disse Zema no início de dezembro.

Consertar estados quebrados, com pesadas folhas de pagamentos e amarras burocráticas, é por si só uma tarefa hercúlea. Particularmente para Witzel e Zema, existe o desafio adicional de entrar para a administração pública sem ter experiência prévia na lida com a política — algo que inclui dialogar com personagens que orbitam em diferentes esferas de poder. É claro que o fato de serem novatos pode trazer um olhar renovado para problemas antigos, mas a complexidade da máquina pública é tão grande que a narrativa eleitoral acaba se tornando simplista perto das dificuldades do dia a dia. Mas Zema, Witzel e Leite têm como aliados os habitantes de seus estados, que, cansados do caos financeiro, depositam nos novos governadores a esperança de uma melhora econômica efetiva. Em maior ou menor medida, a maioria dos estados enfrenta esse tipo de problema e merece tratamento melhor do que teve até agora. Resta saber se os novos governadores conseguirão colocar a casa em ordem. 


POLÍTICA

ENTRE O PLANALTO E O CONGRESSO

O deputado Onyx Lorenzoni e o general Santos Cruz são os responsáveis pela articulação política, uma das áreas mais sensíveis do próximo governo André Jankavski

Onyx Lorenzoni: o deputado saiu do baixo clero para se tornar o principal articulador do futuro governo | Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Entre os vários nós que o próximo governo terá de desatar, o da articulação política é um dos mais complicados. Como muitas promessas de campanha dependem do Congresso para sair do papel — caso, por exemplo, da reforma da Previdência —, o governo precisará do apoio de boa parte dos parlamentares. Isso seria difícil em qualquer governo, mas deve ser ainda mais complexo no de Jair Bolsonaro, dada a pouca experiência de sua equipe nas negociações com o Congresso. Além disso, Bolsonaro decidiu que seu governo vai privilegiar as negociações com bancadas temáticas, como a do agronegócio e a evangélica, e não com partidos. O objetivo — na teoria, claro — é evitar o toma lá dá cá que marca a política brasileira, discutindo o que realmente importa para essas bancadas (em vez da aprovação de projetos em troca de cargos ou verbas). Na prática, não se sabe como, e se, a “nova forma de governar”, como diz o presidente eleito, vai funcionar.

Os responsáveis por fazer a ponte entre o governo e os parlamentares — e por colocar a agenda do próximo presidente para andar — são o deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS), anunciado como ministro-chefe da Casa Civil, e o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, indicado como ministro da Secretaria de Governo. “Os dois precisarão mostrar muita sintonia, caso contrário alguns deputados e senadores poderão usar desavenças, mesmo que sejam sutis, para barganhar benefícios na hora de votar”, diz João Villaverde, analista de risco político da consultoria Medley Global Advisors.

Apesar de estar no quarto mandato — foi reeleito para o quinto em 2018 —, Lorenzoni sempre foi um deputado federal do “baixo clero”, ou seja, pouco se envolveu nas discussões de temas relevantes. Nas raras vezes que esteve à frente de algumas dessas discussões — em 2016, por exemplo, trabalhou pela aprovação do pacote de medidas de combate à corrupção —, acabou se desentendendo com muitos deputados, inclusive os de seu partido. No fim do mesmo ano, o projeto foi aprovado na Câmara, mas com diversas alterações (e ainda continua parado no Senado).

General Santos Cruz: sem experiência política, o militar conta com o respaldo de Bolsonaro | Fátima Meira/Futura Press

Além disso, Lorenzoni tem um problema grave nas costas: depois de ter admitido que recebeu contribuições via caixa dois na campanha eleitoral de 2014, a Procuradoria-Geral da República recentemente pediu a abertura de uma investigação preliminar para apurar outro recebimento de caixa dois, que teria ocorrido em 2012. Ele nega. Em meio às acusações, o deputado perdeu poder no novo governo — pelo menos, o poder que achou que teria. Em entrevistas logo depois de ter sido anunciado como ministro, Lorenzoni declarou que esperava que a Secretaria de Governo fizesse parte da Casa Civil. Seria uma maneira de cortar o número de ministérios, como prometeu Bolsonaro. A secretaria, porém, manteve o status de ministério, e o deputado terá de dividir a articulação política com alguém sem experiência de Congresso. “A Casa Civil vai comandar as conversas com o Congresso, e a Secretaria de Governo ficará responsável por coletar informações e fazer o meio de campo com os parlamentares. No novo governo, haverá duplo comando”, diz Lucas de Aragão, analista político da consultoria Arko Advice.

Na reserva do Exército há seis anos, Santos Cruz foi comandante das Forças Armadas no Haiti — chefiadas pela Organização das Nações Unidas — de 2006 a 2009. Lá, foi um dos principais responsáveis por desmobilizar milícias e pacificar o último grande reduto rebelde do país, a favela Cité Soleil. Em 2013, foi convocado para liderar outra missão de paz, dessa vez no Congo. Foi o comandante-geral da Monusco, maior missão da ONU no mundo na época, com orçamento anual de 1,5 bilhão de dólares. Ele respondia diretamente para o então secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e para o Conselho de Segurança da organização. Voltou ao Brasil dois anos depois.

A dúvida que fica é se a experiência de combate em alguns dos lugares mais perigosos do mundo poderá ajudá-lo nas negociações com os parlamentares. Ao anunciar a entrada de Santos Cruz no governo, Bolsonaro afirmou que todos se surpreenderiam com o general na política. Também disse que Lorenzoni não daria conta de fazer toda a condução política sozinho. Apesar de mirar o futuro no Congresso, a primeira grande missão de ambos será pacificar um território amigo. No PSL, formado por vários congressistas novatos recém-eleitos, há um bate-cabeça. Brigas entre os parlamentares e ofensas públicas colocam em xeque a unidade dentro do partido de Bolsonaro — e até do próprio governo. Analistas políticos apontam uma vantagem na nomeação de Lorenzoni e Santos Cruz: o fato de Bolsonaro poder substituí-los sem gerar grandes traumas. “Se eles não entregarem, é só mudar a articulação. Não são nomes tão fortes quanto o de Paulo Guedes ou de Sergio Moro, cuja saída poderia desestabilizar o governo”, diz Lucas de Aragão, referindo-se, respectivamente, aos futuros ministros da Economia e da Justiça. Mas, como há urgência para aprovar reformas, seria bom acertar de primeira.


JUSTIÇA

O FUTURO DO COMBATE À CORRUPÇÃO

Depende, em grande medida, do desempenho de Sergio Moro como ministro da justiça e de Gabriela Hardt à frente da lava-jato — isso se os escândalos não atrapalharem | Giuliana Napolitano

Sergio Moro: intensivo sobre política antes de assumir o cargo de ministro | José Cruz/Agência Brasil

Quando disse, há dois anos, que jamais entraria para a política, o então juiz Sergio Moro talvez quisesse evitar situações como as que viveu no fim de 2018, semanas depois de ser indicado para ministro da Justiça do próximo governo. Em dezembro, o Supremo Tribunal Federal abriu um processo para investigar se o deputado Onyx Lorenzoni, indicado para assumir a Casa Civil, teria recebido dinheiro via caixa dois. Onyx já admitiu que sim, mas só uma vez, e a suspeita é que não seja só isso. Depois do episódio, Moro, que já condenou a prática de caixa dois, chamando-a de “crime contra a democracia”, desta vez declarou que Onyx tem sua “confiança pessoal”.

Bomba 2: dias após o processo contra Onyx, o Coaf, órgão que monitora atividades financeiras no país — e que, em 2019, deverá ser subordinado a Moro —, revelou movimentações atípicas na conta de um ex-assessor de Flávio Bolsonaro, senador eleito e filho de Jair Bolsonaro. Segundo o Coaf, o ex-assessor Fabrício Queiroz movimentou 1,2 milhão de reais de 2016 a 2017, valor incompatível com o que ele ganhava. O Coaf também revelou que houve transferência de recursos de Queiroz para Michelle Bolsonaro, futura primeira-dama. Até o fechamento desta reportagem, em 14 de dezembro, o caso de Fabrício Queiroz não havia sido devidamente esclarecido. Outro ex-assessor de Flávio Bolsonaro, Wellington Silva, também passou a ser alvo de suspeitas. O Coaf apontou que ele ficou 248 dias em Portugal enquanto trabalhava na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Flávio Bolsonaro nega irregularidades.

Assim que aceitou o convite de Jair Bolsonaro, Moro afirmou que seu plano era ampliar o combate à corrupção e ao crime organizado — por exemplo, fortalecendo a Polícia Federal e enviando ao Congresso projetos de lei relacionados a esses temas (ele disse, entre outras coisas, que pretende “deixar mais clara na lei” a determinação que prevê o início de cumprimento de pena após a condenação em segunda instância, algo que hoje está sujeito à apreciação do Supremo Tribunal Federal). Mas fica difícil concentrar-se em planos para o futuro quando é preciso gastar tempo defendendo o governo no dia a dia.

Formado em direito na Universidade Estadual de Maringá, onde nasceu, e com mestrado e doutorado na Universidade do Paraná, Moro especializou-se em crimes financeiros, tendo passado também por cursos nos Estados Unidos — na Universidade Harvard e no Departamento de Estado. Em 1996, tornou-se juiz federal e, de 2014 em diante, foi o grande responsável pela condenação em primeira instância de diversos políticos e empresários investigados na Operação Lava-Jato. Em 2017, sentenciou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a nove anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá, no litoral de São Paulo.

Alguns juristas e os críticos habituais de Moro reprovaram o fato de ele ir para o governo de quem se beneficiou com a prisão de Lula. Perguntado sobre isso, numa entrevista depois de ter aceitado o novo cargo, Moro disse não ter um “projeto de poder”, mas a vontade de “fazer a coisa certa”.  Ele se afastou do posto de juiz em novembro, após a indicação para o ministério. Em seu lugar, a juíza Gabriela Hardt assumiu provisoriamente a 13a Vara da Justiça Federal do Paraná. Gabriela era juíza substituta desde 2014 e comandava os trabalhos quando Moro se ausentava. Em maio de 2018, assinou o decreto de prisão do ex-ministro José Dirceu após sua condenação em segunda instância (em seguida, Dirceu conseguiu um habeas corpus no STF e foi solto).

Gabriela Hardt, juíza responsável pela Lava-Jato: bate-boca com Lula sobre o sítio em Atibaia | Reprodução/TV Globo

Gabriela herdou os processos da Lava-Jato, entre eles outras duas ações contra Lula. O ex-presidente é acusado de ter recebido dinheiro das empreiteiras OAS, Odebrecht e Schahin para reformar um sítio que seria seu em Atibaia, no interior paulista. Também é acusado de ter recebido como propina, da Odebrecht, um apartamento em São Bernardo do Campo e o terreno onde foi erguido o Instituto Lula, em São Paulo. A primeira audiência, referente ao sítio, ocorreu em novembro e foi tensa, com bate-bocas entre Gabriela e Lula. Com ironia, o ex-presidente perguntou, logo no início do interrogatório, se era o dono “ou não” do sítio em Atibaia. A juíza respondeu que não era ela que estava sendo interrogada. “Se o senhor começar nesse tom comigo, a gente vai ter problema”, acrescentou.

Nascida no interior do Paraná e formada em direito na universidade federal do estado, Gabriela tornou-se juíza em 2009, na Vara Federal de Paranaguá. Lá, foi responsável por casos de crimes como contrabando e tráfico de drogas envolvendo o porto local, um dos maiores do país. Gabriela deverá ficar na nova função até 30 de abril, prazo previsto para que seja designado um juiz que assuma o cargo de forma permanente. Até lá, o futuro de Lula — e da Lava-Jato — depende, em boa medida, de suas decisões. 


PETRÓLEO

UM ANTIESTATAL NA PETROBRAS

Não faltam desafios ao economista Roberto Castello Branco, indicado para assumir a Petrobras | Giuliana Napolitano

Castello Branco: crítica aos “empresários inimigos do capitalismo” | Pedro Ladeira/Folhapress

A greve dos caminhoneiros em maio de 2018 precipitou a saída de Pedro Parente da presidência da Petrobras no mês seguinte. Uma nova greve da categoria, se de fato ocorrer em janeiro, poderá marcar o início da gestão do economista Roberto Castello Branco, designado por Jair Bolsonaro para comandar a estatal, que é a maior empresa do país. A ira dos caminhoneiros, agora, está voltada contra empresas que, segundo eles, pagam menos do que o valor mínimo do frete, e contra o governo, que, dizem, não fiscaliza o pagamento. Esse piso foi estabelecido na tentativa de fazer os caminhoneiros voltar ao trabalho depois de terem praticamente paralisado o país. Na época, a Petrobras também teve de ceder, reduzindo o preço do diesel. Iniciou-se uma discussão sobre a política de preços dos combustíveis, se o governo descumpria a promessa de não interferir na empresa e se houve concessões demais aos caminhoneiros.

Para Castello Branco, o problema é outro: é o fato de a Petrobras ser uma estatal. Numa crítica ácida às empresas controladas pelo governo, ele já escreveu que o capital dessas companhias “é apropriado por uma espécie de aliança formada por corporações de servidores, empresários inimigos do capitalismo e grupos de políticos populistas/corruptos”. Num artigo de 2018, afirmou ser “urgente” privatizar a Petrobras e outras estatais. Desde que foi anunciado por Bolsonaro, porém, ele evitou tocar no assunto — que, também pelas razões descritas por Castello Branco, é explosivo.

A polêmica sobre vender ou não vender o controle da empresa é apenas um dos desafios que o economista vai enfrentar na Petrobras. A saúde financeira da estatal melhorou, mas seu endividamento continua alto. Além disso, o preço do petróleo está baixo, elevando o risco de que os investimentos na exploração do pré-sal — que são a prioridade, na visão de Castello Branco — sejam pouco rentáveis. O economista terá de mostrar que, além de um currículo turbinado, tem capacidade de gerir uma companhia complexa, experiência que nunca teve.

Com pós-doutorado na Universidade de Chicago, Castello Branco foi presidente da instituição de ensino Ibmec nos anos 80, quando conheceu Paulo Guedes, que foi sócio do Ibmec. Também foi diretor do Banco Central durante o governo Sarney e diretor de relações com investidores e economista-chefe da mineradora Vale de 1999 a 2014. Nos dois anos seguintes, foi conselheiro da Petrobras, e saiu de lá antes de terminar seu mandato, criticando o comando de Aldemir Bendine, que, posteriormente, foi preso em meio às investigações da Operação Lava-Jato. 


ALIMENTOS

UM NOVO CAPÍTULO?

Pela primeira vez, a JBS será presidida por um executivo de fora da família Batista. Sua missão: recuperar a reputação da empresa | Denyse Godoy

Gilberto Tomazoni, novo presidente da JBS: planos para as operações nos Estados Unidos, na Ásia e no Brasil | Anna Carolina Negri/Valor /Folhapress

Desde maio de 2017, quando se viu no centro da maior crise do governo de Michel Temer, o grupo J&F, da família Batista, adotou um plano pragmático para se manter de pé. Vendeu cerca de 12 bilhões de reais em ativos — como fizeram outras empresas envolvidas em denúncias de corrupção — e colocou em prática um novo programa de compliance (que prevê, entre outras coisas, o treinamento dos funcionários para detectar atitudes antiéticas). A medida mais recente foi nomear um executivo que não faz parte da família para liderar a operação global da JBS, processadora de carnes e principal empresa do grupo. É a primeira vez que isso acontece desde que a companhia foi fundada em 1953. O escolhido foi Gilberto Tomazoni, que já era um dos principais executivos da JBS.

Tomazoni é um dos profissionais mais respeitados do setor. Fez carreira na fabricante de alimentos Sadia, que presidiu de 2004 a 2009. Saiu quando a fusão com a Perdigão deu origem à BRF e foi para a multinacional Bunge, também do setor de alimentos. Em 2013, foi convidado a assumir a diretoria global do negócio de aves da JBS e comandou a integração de empresas compradas, como a Seara. Sua missão, agora, é recuperar a reputação da JBS, duramente abalada depois que os donos, os irmãos Joesley e Wesley Batista, admitiram ter pagado propina a políticos em troca de apoio ao projeto de expansão do grupo J&F. Na teleconferência com analistas após sua promoção, Tomazoni disse ter tolerância zero a falhas de governança corporativa, mas ainda é preciso ver o que isso significa na prática.

Do lado operacional, sua prioridade é listar as ações da JBS na Bolsa de Valores de Nova York, uma ideia que os Batista consideraram no início de 2017 e não conseguiram levar adiante por causa do escândalo de corrupção. A listagem é importante porque permite a captação de recursos no mercado americano — um dos planos é comprar concorrentes de menor porte nos Estados Unidos. No terceiro trimestre, as subsidiárias americanas faturaram 6,8 bilhões de dólares, 51% da receita total da JBS. Tomazoni também já disse que vai trabalhar para ampliar a exportação para a Ásia, principalmente para a China, enquanto a diplomacia brasileira tenta derrubar os embargos de países europeus ao frango e ao porco produzidos aqui, colocados por preocupações com a qualidade levantadas pela Operação Carne Fraca, da Polícia Federal.

A crise da JBS não prejudicou a empresa no mercado brasileiro porque sua maior concorrente, a BRF, também passou por um período complicado nos últimos dois anos. Em meio a uma espalhafatosa briga de acionistas — que terminou em abril, com a troca do conselho de administração e dos principais executivos — e a acusações na Operação Carne Fraca, a BRF perdeu participação de mercado. A JBS aproveitou o espaço vago e cresceu. Mas espera-se que, agora, a BRF esteja pronta para disputar vendas de igual para igual, algo que exigirá mais da JBS. Por enquanto, os investidores estão neutros em relação a Tomazoni: desde que ele foi anunciado, as ações da JBS, que valem 33 bilhões de reais na bolsa, estão praticamente estáveis. n


ESTADOS UNIDOS E CHINA

UMA NOVA GUERRA FRIA

A rivalidade entre a China e os Estados Unidos veio para ficar. Mas desta vez coloca frente a frente duas grandes economias integradas entre si | Filipe Serrano

Donald Trump e Xi Jinping: uma disputa com reflexos em todo o mundo | Jonathan Ernst/Reuters

A história da humanidade nunca se repete. Mas ela bem que teima em seguir alguns padrões. A crescente rivalidade entre os Estados Unidos e a China é o exemplo mais evidente disso hoje. Ela lembra os tempos da Guerra Fria, quando a antiga União Soviética e os Estados Unidos disputavam qual das duas grandes potências mundiais era a mais avançada tecnologicamente, tinha o maior poder militar e nuclear, e era capaz de manter mais países e regiões do mundo sob sua esfera de influência. Foi uma época de alta tensão geopolítica, mas também de grandes avanços tecnológicos. Em 2019 — ano em que a queda do Muro de Berlim completa 30 anos —, é a China do presidente Xi Jinping que faz o papel de potência que rivaliza com o poder americano no mundo.

A disputa se dá em várias frentes. No campo militar, a corrida armamentista é mais sutil, mas a China vem expandindo os gastos rapidamente e construindo navios e aeronaves de guerra cada vez mais avançados e em número maior. Em 2017, a despesa militar chinesa chegou a 228 bilhões de dólares, cinco vezes o que era no ano 2000, e já equivale a um terço dos gastos dos Estados Unidos. Uma demonstração de poderio foi vista nos exercícios militares Vostok 2018, promovidos pela Rússia em setembro com a participação da China e envolvendo 300.000 homens. Da parte dos americanos, o que se vê é o presidente Donald Trump pedindo, às vezes em tom agressivo, para os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte aumentarem os gastos com defesa, para que a aliança continue a ser um contraponto a ambições de adversários.

Já no campo tecnológico a China busca tirar o atraso em áreas como a de semicondutores — que são a base para a produção de microprocessadores, atualmente presentes em todo tipo de equipamento eletrônico —, a biofarmacêutica e a de inteligência artificial. Hoje, a China já tem mais 18.000 engenheiros e pesquisadores trabalhando com inteligência artificial e o presidente Xi Jinping comprometeu-se a investir 150 bilhões de dólares para atingir uma excelência na área. Esse é um dos objetivos do plano estratégico Made in China 2025, que almeja colocar a indústria chinesa na vanguarda da tecnologia.

O contexto da rivalidade com a China é, obviamente, muito diferente de quando o adversário era a União Soviética. A economia chinesa e a economia americana são totalmente integradas, a ponto de um produto como o iPhone ser projetado na Califórnia, montado na China com peças trazidas de dezenas de países do Leste Asiático e, em seguida, enviado à loja da Apple na Quinta Avenida, em Nova York, onde quase 900.000 turistas chineses fazem compras todos os anos. Além disso, investidores da China, entre eles bancos estatais, detêm cerca de 1,2 trilhão de dólares em títulos do Tesouro americano — ou seja, são responsáveis por financiar parte significativa dos gastos do governo dos Estados Unidos. Nada disso existia na época da Guerra Fria na relação entre os americanos e os soviéticos.

Os demais países do mundo também são influenciados pela relação econômica das duas potências globais. A maioria dos países — incluindo o Brasil — foi favorecida pelo crescimento da China nas últimas décadas, expandindo suas exportações para o país asiático. Hoje, 80% de toda a exportação de soja brasileira tem como destino a China. Por tudo isso, ultimamente, qualquer fala mais agressiva que aumente o atrito entre as duas potências econômicas tem derrubado as bolsas mundo afora e obrigado as empresas a rever os planos de investimentos e seus custos. A montadora americana General Motors anunciou em novembro que deve interromper a produção em cinco fábricas na América do Norte, em parte por causa do aumento de custos com as tarifas sobre o aço.

Em 2019, a área comercial deve continuar sendo o principal campo de batalha do presidente Donald Trump, que se apelidou de tariff man (“homem das tarifas”). Trump tem usado as sobretaxas de importação de produtos chineses para forçar uma negociação e alcançar termos mais favoráveis para os Estados Unidos na relação com a China. Depois de um jantar em Buenos Aires durante o encontro do G20, Trump e Xi Jinping concordaram em dar uma trégua ao aumento de taxas pelo prazo de 90 dias — que terminará em março — e voltar a negociar um acordo. Duas semanas depois desse jantar, a China decidiu retirar as tarifas sobre os automóveis americanos a partir de 1o de janeiro e se comprometeu a comprar 3 milhões de toneladas de milho dos Estados Unidos. A questão agora é se a China vai aceitar abrir o mercado para as empresas americanas e se tomará medidas para conter a violação de propriedade intelectual, como a de marcas e patentes. Essas são duas das principais demandas de Trump, mas podem frear o desenvolvimento tecnológico da China.

Num trecho do livro Sobre a China, o diplomata Henry Kissinger — um dos principais nomes da política externa americana do século 20 — defende que não é inevitável uma escalada do conflito entre os dois países no século 21, mas é preciso que ambos trabalhem juntos para isso. “Os Estados Unidos e a China têm a obrigação, em nome de seu povo e do bem-estar global, de tentar. Ambos são grandes demais para ser dominados um pelo outro. Logo, nenhum dos dois é capaz de definir os termos para a vitória numa guerra ou num conflito nos moldes da Guerra Fria.” São sábias palavras que os líderes mundiais deveriam ouvir.


REINO UNIDO

CONTRA O RELÓGIO

Com ou sem acordo, o Reino Unido deve deixar a união europeia em março de 2019. E a pressão sobre a primeira-ministra Theresa May  só aumenta | Gabriela Ruic

Theresa May, do Reino Unido: apenas três meses para definir um acordo | Toby Melville/Reuters

Ao se tornar a segunda mulher a ocupar o posto de primeira-ministra do Reino Unido, em 2016, Theresa May assumiu a tarefa ingrata de levar adiante as negociações do Brexit, como é conhecido o processo de saída do -país da União Europeia. Embora tenha sido contrária à retirada, Theresa May abraçou a decisão popular, definida em referendo. “Brexit significa Brexit, e vamos fazer dele um sucesso”, disse ela em seu discurso inaugural. Dois anos e meio depois, o Brexit acabou por virar o Reino Unido de cabeça para baixo. Nesse meio-tempo, May sobreviveu a uma eleição geral, na qual seu Partido Conservador perdeu a maioria no Parlamento, e também a uma recente tentativa de retirá-la do cargo. As negociações com a União Europeia moveram-se a passos lentos, até que, em novembro de 2018, a primeira-ministra conseguiu finalmente trazer de Bruxelas um acordo apresentável para Londres. Mas, assim que os termos do documento se tornaram públicos, nem mesmo seus aliados apoiaram o texto.

O ponto mais polêmico é a fronteira terrestre entre a Irlanda do Norte, que faz parte do Reino Unido, e a República da Irlanda. São 500 quilômetros por onde milhares de pessoas, bens e produtos circulam diariamente sem nenhuma barreira, e cuja abertura foi fundamental para selar o acordo de paz, em 1998, que deu fim ao violento conflito entre grupos a favor e contra a união das duas Irlandas. May tenta a todo custo manter a livre circulação na fronteira, já que, depois do Brexit, o acesso ao mercado comum europeu será restringido. A solução acertada com Bruxelas, chamada de backstop, sugere, entre outras coisas, manter a Irlanda do Norte ligada à União Europeia ainda que não seja assinado nenhum acordo até o dia 29 de março de 2019 — data em que o Reino Unido deixará oficialmente o bloco europeu.

Essa possibilidade, no entanto, não agrada aos deputados da Irlanda do Norte, de quem May passou a depender para garantir a maioria no Parlamento, nem aos partidários e opositores do Brexit, porque, na prática, criaria uma fronteira entre a Irlanda do Norte e o resto do Reino Unido. O temor é que isso reacenda o movimento pela união das duas Irlandas. Enquanto May tenta acalmar os ânimos em casa, a União Europeia intensificou a pressão com uma decisão do Tribunal Europeu que possibilita ao Reino Unido voltar atrás e continuar no bloco, se desejar. A cada novo bate-boca no Parlamento britânico, Bruxelas e suas lideranças enfatizam que não vão renegociar o acordo. Agora, faltando três meses para a concretização do turbulento divórcio, caberá ao Parlamento britânico aceitar ou não o acordo costurado pela primeira-ministra. May corre contra o tempo para atender aos compromissos com os europeus, sob o risco de a saída acontecer sem um acordo, o cenário mais tumultuado possível para os britânicos e para a economia mundial. 


MÉXICO

O TESTE DA ESQUERDA

Na contramão da América Latina, o México optou por um líder de esquerda. E ele promete fazer uma política diferente | Filipe Serrano

López Obrador, o novo presidente do México: entre a austeridade e o aumento dos gastos sociais | Edgard Garrido/Reuters

O mandato do novo presidente  mexicano, Andrés Manuel López Obrador, começou no dia 1o de dezembro com uma discussão sobre seu salário. No México, o cargo máximo do Executivo tinha um rendimento generoso, que chegava a 270.000 pesos mexicanos, ou 51.900 reais por mês — quase o dobro do que se paga no Brasil. Obrador e seu partido de centro-esquerda, Movimento Regeneração Nacional (Morena), que agora tem a maioria do Legislativo, vinham fazendo pressão nos últimos meses para que esse valor fosse reduzido. Ainda em setembro, o Congresso mexicano aprovou uma lei que corta o salário do presidente a menos da metade, para 108.000 pesos (20.700 reais).

A medida foi bem recebida entre os mexicanos, mas desagradou a setores do funcionalismo. A nova regra também estipula que nenhum funcionário público no México deve ganhar mais do que o presidente, o que levaria a um corte generalizado de salários. O debate foi parar na Justiça, e em dezembro a Suprema Corte optou por suspender a nova legislação até que uma decisão final seja tomada.

A disputa em torno do salário presidencial é emblemática porque demonstra o tipo de dificuldade que o novo governante mexicano terá durante seu mandato. Obrador — o primeiro presidente mexicano de um partido de centro-esquerda — promete aumentar os gastos sociais e os investimentos em infraestrutura, sem abrir mão da austeridade nas finanças públicas. Para isso, o presidente pretende fazer um corte de 20 bilhões de dólares nos gastos do governo, além de uma redução de 2,8 bilhões de dólares nos salários do funcionalismo — algo que não deve ocorrer agora que a decisão foi barrada pela Suprema Corte. Obrador também já arrumou um quiproquó com investidores ao dizer que quer abortar o projeto bilionário de construção de um novo aeroporto na Cidade do México, uma obra leiloada ao setor privado e em andamento.

A chegada de Obrador ao poder coincide com a eleição de uma série de governantes pelo mundo que -obtiveram sucesso bradando contra a forma tradicional de fazer política e contra a corrupção, entre eles o presidente eleito no Brasil, Jair Bolsonaro. Mas, enquanto em muitos países o movimento tem favorecido os candidatos de direita, no México foi a esquerda que conseguiu capturar o desejo de mudança. Com o México no caminho contrário da Argentina, do Chile e do Brasil, Obrador será um dos poucos nomes de peso a representar a esquerda na América Latina. A população mexicana está animada com a possibilidade de melhoria. Segundo uma pesquisa de opinião, 70% dos mexicanos creem que a pobreza vai diminuir, 67% dizem que a segurança pública vai melhorar e 63% esperam que a corrupção recue no governo Obrador. Entre a esperança e as medidas polêmicas, a esquerda enfrentará mais um teste no continente.


FINANÇAS

RUMO AO TRILHÃO

Com a XP, Guilherme Benchimol reinventou o mercado de investimento no brasil. Agora tem de executar sua mais ambiciosa meta | Naiara Bertão

Benchimol: a meta para 2019 é chegar a 2 milhões de clientes | Germano Lüders

Uma das certezas de 2019 é que o mercado financeiro vai continuar em transformação acelerada, com novas e mais tecnológicas ferramentas de pagamentos e investimentos. A financeira XP é uma protagonista dessa transformação desde 2001, quando foi criada por Guilherme Benchimol e pelo sócio Marcelo Maisonnave. A mais recente prova da ambição da empresa foi a meta estabelecida de chegar a 1 trilhão de reais em ativos sob custódia até 2020. Será puxado: a expectativa da XP é fechar 2018 com 200 bilhões de reais sob administração. Ou seja, para chegar lá, a XP precisa quintuplicar de tamanho. Isso pressupõe continuar investindo mais e mais em pessoas, em sistemas e em marketing — neste ano, a companhia lançou a primeira campanha em TV aberta, com o apresentador Luciano Huck.

Em 2019, Benchimol acredita que será possível bater 450 bilhões de reais sob custódia. A XP também tem um plano agressivo para aumentar o número de agentes autônomos de investimentos. Atualmente, cerca de 4.000 estão conectados à empresa, e o plano é alcançar 10.000 até 2020. Em número de clientes, os 852.000 de hoje deverão ser 2 milhões em 2019 se tudo correr como o planejado. “Vamos investir muito em tecnologia, nas áreas internacionais e na expansão de nossos escritórios parceiros pelo Brasil”, diz Benchimol. Desde 2011, a XP mantém operações nos Estados Unidos e na Europa. Parte dos recursos necessários para a expansão deve vir de um aporte de 5,7 bilhões de reais do banco Itaú feito no ano passado em troca de 49,9% da companhia — Benchimol é dono de 15%. O caixa atual é de cerca de 1,5 bilhão de reais, e a XP espera lucrar 650 milhões de reais neste ano.

A XP de Benchimol se diferenciou ao oferecer um portfólio diversificado de investimentos quando quase ninguém olhava para o consumidor pessoa física. Mesmo os grandes bancos tinham poucos e mal explicados produtos de previdência, além de CDBs e fundos que eram apresentados pelos próprios gerentes. A XP também inovou ao popularizar a figura do agente autônomo no Brasil. São pessoas que conhecem de investimentos e prestam assessoria aos potenciais clientes. Por fim, a XP foi a primeira a reduzir custos e taxas de corretagem para alguns investimentos. O modelo foi, posteriormente, seguido por diversos bancos e corretoras. Mas grandes ambições trazem grandes desafios. A concorrência aumentou significativamente, comprimindo as margens da companhia. Bancos como o próprio Itaú estão aumentando o portfólio de investimentos oferecidos nas agências de rua, concorrendo mais diretamente com Benchimol. Corretoras como a Genial e a Guide se reestruturaram, lançaram plataformas nos moldes da XP e já trabalham com agentes autônomos. O caminho até o trilhão tende a ser disputado. 


TECNOLOGIA

OFEREÇA A OUTRA FACE

É este o desafio imposto a Mark Zuckerberg, depois dos abusos à privacidade dos usuários da maior rede social do mundo | David Cohen

Zuckerberg, no Congresso americano: explicações insuficientes | Tom Brenner/The New York Times/Fotoarena

Que diferença um ano faz. Durante boa parte de 2017, as especulações que envolviam o cofundador e executivo-chefe do Facebook, Mark Zuckerberg, eram se ele iria ou não se candidatar à Presidência dos Estados Unidos. Um périplo pelo país com o anunciado objetivo de conhecer de perto a comunidade Facebook foi interpretado como um ensaio de campanha política. Já se falava que as notícias falsas divulgadas pelas redes sociais teriam ajudado a eleger Trump. Mas Zuckerberg menosprezou as acusações e, para boa parte dos americanos, tornou-se um desejável oponente para o presidente Donald Trump em 2020.

E então veio o escândalo. No final de 2017, revelou-se que o Facebook foi extensivamente usado por agentes russos para influenciar a campanha presidencial americana. Em março, a situação piorou com a descoberta de que a empresa britânica de dados digitais Cambridge Analytica, empregada pela campanha de Trump, havia tido acesso a informações pessoais de 50 milhões de usuários do Facebook. Iniciaram-se processos e investigações oficiais em Washington, Londres e Bruxelas.

Não é que Zuckerberg já não tivesse com o que se preocupar. Desde 2017 o Facebook perde usuários mais jovens (uma queda de 10% na faixa dos 12 aos 17 anos, de acordo com a empresa de análises eMarketer). Suas ações caíram 18% no ano. Para compensar, a rede WhatsApp, do Facebook, alcançou perto de 1,5 bilhão de usuários. Mas o WhatsApp também entrou na mira dos detratores: seu sistema de mensagens em grupos fechados dificulta ainda mais o controle de fake news.

As explicações de um Zuckerberg de terno e gravata ao Congresso americano não foram suficientes para dissipar a crise. E, em junho, descobriu-se que a empresa sabia mais do que dizia sobre os ataques digitais russos — e abria os dados de seus usuários para programadores parceiros. A reputação despencou. Ao lado da imagem de uma empresa que facilita a conexão de 2,2 bilhões de pessoas, impôs-se a noção de que o Facebook ajuda a disseminar campanhas de ódio e falsidades. A guerra da empresa, hoje, é contra a forte campanha pela regulamentação da rede. Ou, mais ainda, por seu desmembramento. Para vencer o desafio, o Facebook vai ter de mudar. O sonho de se tornar presidente do país, se é que existiu, ficou mais distante. Zuckerberg agora luta para continuar a ser presidente do Facebook.