“Temos estômago para crise”, diz herdeira de grupo venezuelo

Herdeira de uma fortuna de 4 bilhões de dólares, Adriana Cisneros falou a EXAME sobre a grave crise do país — e seus planos para o Brasil.

São Paulo — Aos 36 anos, a venezue­lana Adriana Cisneros comanda um dos maiores grupos empresariais da Venezuela, o grupo Cisneros. Desde que herdou a presidência executiva do pai, Gustavo, ela se dedica a expandir o foco da companhia para além de indústria, mídia e imóveis — setores que fizeram da família uma das mais ricas da América Latina, com uma fortuna estimada em 4 bilhões de dólares.

De seu escritório em Miami, para onde o grupo se mudou há 15 anos, no início do período chavista, Adriana transformou o negócio mais recente do grupo, a Cisneros Interactive, num dos principais investidores em tecnologia da região. No Brasil, o grupo investiu em 2013 na varejista de móveis Mobly.

Em agosto, comprou a agência digital Spark. A empresária falou a EXAME sobre tecnologia, as oportunidades no Brasil e, claro, sobre a eterna crise venezuelana.

Exame – O grupo Cisneros foi cotado para grandes negócios no Brasil, entre os quais o espólio de Eike Batista. Por que investir em marketing digital?

Cisneros – O que estamos tentando fazer é investir em startups que possam ser líderes em diferentes áreas inovadoras.

Quando, junto com Victor Kong [presidente da Cisneros Interactive], começamos a pesquisar o mercado brasileiro, gostamos do que vimos na Spark: um grande time de administradores, uma estratégia semelhante à nossa, tecnologia inovadora. O mercado de marketing digital no Brasil fatura quase 2 bilhões de dólares por ano. Então precisávamos estar aqui.

Exame – Por que esse negócio atrai?

Cisneros – Marketing de influência é um mercado muito novo. As companhias não são gigantes, como Google e Facebook. Então há grandes oportunidades. Com as redes sociais, qualquer pessoa virou uma “mídia”.

Pessoas confiam em pessoas. Tanto a Fluvip, na Colômbia, quanto a Spark têm uma plataforma para levar ciência a esse relacionamento. Conseguimos saber que tipo de influenciadores digitais podem ser mais interessantes para atender às necessidades de cada cliente.

Exame – Com toda a crise e o vaivém político, por que investir no Brasil agora?

Cisneros – É uma coincidência. Queremos ser líderes regionais, o que na teoria nos dará estabilidade. Enquanto alguns países estão num ciclo de baixa, outros estão no alto. Sim, o Brasil está num momento de dificuldades. Mas a Argentina era um lugar horroroso e agora é um grande lugar. Nós conhecemos o Brasil, e sabemos que instabilidade é parte da equação.

Exame – Nesse sentido, imagino que ter nascido na Venezuela seja uma vantagem para vocês…

Cisneros – Sem dúvida. Nós estamos familiarizados com instabilidade e com interferências políticas. Temos estômago para esse tipo de coisa. Temos uma presença grande na Venezuela, embora hoje seja apenas nosso quinto mercado. Somos otimistas que a situação econômica vai melhorar. E mesmo em crises profundas as pessoas vão para o trabalho, saem para comer, a vida continua.

Exame – Qual é o tamanho do otimismo? Como a Venezuela estará no próximo ano?

Cisneros – É difícil responder, não? Como o Brasil estará? Estamos no mesmo padrão há 17 anos. É muito difícil prever o próximo ano. Existem alguns padrões que nos ajudam a encontrar as respostas, como a dependência do preço do petróleo. Há uma nova tendência de governos democráticos na América Latina.

É uma questão de tempo. A Venezuela representa uma fatia pequena de nossa receita, mas é uma parte muito importante de nosso negócio. Sentimos que é importante continuarmos ativos na Venezuela. E é importante também continuar a ter uma estação de TV. Seria mais fácil sair. Mas faz parte de quem somos.

Exame – Qual é seu papel na recuperação?

Cisneros – Precisamos estar envolvidos na política local, contribuir para as políticas de governo, ajudar as novas gerações a ter orgulho e poder de mudança. Na geração dos nossos pais, as pessoas não queriam ir para a política. Conheço muita gente que largou o emprego para ir para a política e tentar ajudar seu país. Isso vai além da Venezuela, está em toda a América Latina. As coisas só vão melhorar.