“Taxar os robôs é uma má ideia”

Para o economista Carl Frey, proteger os empregos do avanço da tecnologia só tende a levar à estagnação econômica

Desde que publicou, em 2013, um estudo estimando que 47% dos empregos nos Estados Unidos corriam o risco de ser substituídos pela tecnologia na década seguinte, o economista sueco Carl Benedikt Frey tornou-se um dos pesquisadores mais renomados do mundo no estudo sobre o impacto da automação no mercado de trabalho.

Na época, o número levantado por ele e por seu colega Michael Osborne chamou a atenção em todo o planeta e fez crescer a preocupação com o aumento do desemprego e da desigualdade social causado pela mecanização. Apesar de todo o alarde, Frey não está no grupo dos que defendem frear o avanço tecnológico.

Pelo contrário. Ele diz que o mundo precisa de mais robôs, e não menos, para que a economia continue crescendo e gerando riqueza. Em seu livro The Technology Trap (“A armadilha tecnológica”, numa tradução livre), publicado recentemente, ele mostra que o mundo só enriqueceu, de fato, depois da Revolução Industrial, quando o progresso científico e tecnológico acelerou.

Várias ocupações desapareceram no caminho — como a dos trabalhadores que acendiam os lampiões nas cidades —, mas os benefícios foram imensamente positivos no longo prazo. Para Frey, criar barreiras às novas tecnologias só tende a levar à estagnação. “São elas [as máquinas] que têm feito as condições de vida melhorar nos últimos 200 anos”, diz ele na entrevista a seguir.

O que é a “armadilha tecnológica”, que dá título a seu livro?

A armadilha tecnológica se refere à situação econômica na Europa antes da Revolução Industrial, quando a classe dominante tinha pouco a ganhar, mas muito a perder, com a introdução de novas tecnologias que ameaçavam os empregos. Nessa época, os artesãos eram uma força política significativa, e os governos temiam que eles pudessem provocar uma agitação social.

Como resultado, os governos proibiam a introdução de tecnologias vistas como uma ameaça. Nesse contexto, o crescimento econômico permaneceu lento ou estagnado por um período muito longo. Daí a ideia da armadilha tecnológica.

O que fez o mundo sair dessa situação?

Alguns fatores mudaram o equilíbrio do poder. À medida que os custos de transporte caíram, a classe dominante começou a enfrentar cada vez mais competição de outros países. A ameaça que vinha de fora se tornou maior do que a ameaça das camadas populares.

Em segundo lugar, com o descobrimento do Novo Mundo e com o crescimento do comércio, os novos comerciantes e industriais enriqueceram e passaram a ter um poder político maior. Eles não queriam que nada ameaçasse sua posição. Com isso, a mecanização passou a ser aceita, e a classe política percebeu que o sucesso do império britânico dependia da redução dos custos de produção, para aumentar as exportações.

Você vê alguma semelhança com a situação atual?

Sim. Acredito que estamos vivendo hoje algo semelhante ao que aconteceu no início da Revolução Industrial. Esse foi um período em que os empregos de renda média relacionados à manufatura e ao artesanato desapareceram. Os salários ficaram estagnados e houve pouco crescimento da produtividade.

No livro, você divide as tecnologias em dois tipos: o que cria novos empregos e o que o substitui. As novas tecnologias de hoje são de qual tipo?

Na forma como estão sendo aplicadas, elas se encaixam mais na segunda categoria. Veja só: nos Estados Unidos, cerca de 3,5 milhões de pessoas trabalham como caixas em supermercados ou lojas. No modelo de supermercado automatizado da Amazon Go, esses empregos deixam de existir.

Outros 3,5 milhões de pessoas são motoristas de táxi, ônibus ou caminhão. O que acontecerá com eles quando tivermos veículos autônomos, o que é só uma questão de tempo? É claro que estamos vendo outros empregos surgir, como especialistas em big data e analistas de marketing digital. Mas as opções de emprego para os trabalhadores de menor qualificação estão diminuindo.

Minha suspeita é que vamos continuar vendo essa pressão sobre os trabalhadores não qualificados e uma crescente demanda por trabalhadores bem formados.

Por que a tecnologia está substituindo mais empregos do que criando vagas?

Ainda não há uma boa resposta para essa pergunta. No geral, as tecnologias de substituição reduzem os custos. E, numa fase em que o crescimento econômico não tem sido tão alto quanto as empresas gostariam, cortar custos tem se tornado ainda mais essencial, especialmente diante da maior concorrência internacional.

Algumas pessoas defendem a criação de um imposto para os robôs ou a distribuição de uma renda mínima para a população. O que acha das propostas?

Acho que taxar as máquinas é uma ideia muito ruim, porque são as máquinas que trazem ganhos de produtividade e enriquecem os países. São elas que têm feito as condições de vida melhorar nos últimos 200 anos. Então deveríamos ver mais máquinas, e não menos. Também não acredito que uma renda básica universal seja uma solução. Mas há muitas coisas que os governos podem fazer.

O quê?

Só para citar um exemplo, existe uma antiga cidade industrial na Suécia chamada Malmö, que fica perto de onde eu cresci. No começo dos anos 90, ela entrou em crise depois de um grande estaleiro fechar. Foi somente após a construção de uma ponte ligando Malmö a Copenhagen, na Dinamarca, em 1999, que a economia voltou a crescer.

De repente, as pessoas podiam viver em Malmö, onde os imóveis eram baratos, e trabalhar em Copenhagen, onde havia bastante emprego. Como os moradores tendem a gastar o dinheiro na cidade em que vivem, isso deu um impulso aos serviços locais. Hoje, a cidade tem um dos mercados de trabalho mais dinâmicos da Europa. Dito isso, penso que conectar cidades em declínio a lugares que estão criando empregos é uma das medidas mais promissoras.

Supermercado automatizado Amazon Go, em Nova York: ameaça ao emprego dos caixas | Alamy/Fotoarena

Qual é a importância dessa iniciativa?

Nas cidades que concentram os melhores empregos e onde há muitas empresas de tecnologia, o preço dos imóveis tem subido rapidamente. Isso é uma barreira para as pessoas em dificuldades financeiras se mudarem para essas cidades em busca de trabalho. Portanto, há muito a ser ganho ao conectar as cidades prósperas.

Do ponto de vista da educação, há algo que poderia ser feito?

Uma coisa que sabemos é que a educação na primeira infância exerce um grande papel em definir o futuro das pessoas, especialmente em comunidades desprovidas. Déficits de leitura e matemática muito cedo podem prejudicar o aprendizado no futuro. Crianças com esses déficits têm bem menos chance de fazer uma faculdade. Portanto, investir na educação na primeira infância é uma forma de ter mão de obra mais qualificada.

Fora isso, outra opção seria criar uma espécie de seguro-salário para compensar a queda na renda de uma pessoa que perdeu um emprego de média remuneração e teve de aceitar outro com um salário muito menor. Seria uma maneira de remediar os efeitos negativos da automação.

Dar treinamento às pessoas e requalificar as que perderam o emprego é uma opção?

Infelizmente, os programas de requalificação não têm um bom histórico, especialmente para pessoas de idade mais avançada. Isso não significa que essa população deva ser abandonada, mas não podemos colocar todas as fichas em programas de requalificação. Acho que a ideia do seguro-salário seria mais interessante.

O que os países emergentes, como o Brasil, podem fazer para se preparar para essas mudanças?

Eu me preocupo mais justamente com os países em desenvolvimento do que com os desenvolvidos. Olhando para trás, todo país que enriqueceu fez isso por meio da industrialização. Uma vez que as fábricas se tornam automatizadas, fica mais difícil fazer a transição. Mas há outros modelos de crescimento que os emergentes podem explorar. Podem investir em educação e fortalecer suas instituições, para também estimular os empregos na área de tecnologia. No caso dos Estados Unidos, um emprego na indústria de tecnologia gera outros cinco empregos na economia de serviços local. Em países emergentes, como o Brasil, a proporção é ainda maior.

Estamos caminhando para uma sociedade mais próspera, assim como ocorreu após a Revolução Industrial?

Creio que sim. Nós certamente estamos mais bem preparados para superar os desafios de curto prazo. Temos uma rede de proteção social melhor. Temos melhores ideias econômicas. Na Revolução Industrial, a lógica malthusiana ainda persistia. Era a ideia de que o aumento da produção só seria possível por meio do aumento da população, e não pelo capital. Mas, mesmo hoje, as máquinas ainda têm um desempenho muito ruim em atividades complexas e sociais.

Essas são coisas que nós, humanos, gostamos de fazer. Nosso trabalho pode ficar mais especializado na criatividade, e isso é uma coisa boa. Há um enorme potencial de ganho de produtividade com a inteligência artificial. Essas tecnologias podem ser usadas para reduzir o número de mortes no trânsito ou realizar diagnósticos médicos mais precisos. E muitas coisas podem ser criadas, incluindo bens e serviços que não existem hoje.