Startups brasileiras miram o Vale do Silício

Antes mesmo de ganhar escala no Brasil, startups de tecnologia tentam fincar os pés em seu ambiente mais competitivo: o Vale do Silício

São Paulo — O mercado americano de tecnologia é uma torre de Babel. A lista de imigrantes que fizeram carreira — e fortuna — por lá é conhecida. Empresas como Google, Intel, YouTube e Yahoo! tiveram pelo menos um estrangeiro entre seus fundadores.

A turma, claro, é atraí­da pelo “ecossistema” único, em que boas ideias são apoiadas pela ciên­cia mais avançada e pela fartura de dinheiro dos fundos especializados. Não ia mesmo demorar até que a “geração start­up” brasileira percebesse o tamanho dessa oportunidade.

Nos últimos anos, uma série de empresas nascidas em terras brasileiras começou a fincar um pé nos Estados Unidos, sonhando transformar suas ideias em negócios globais. Não há um dado preciso sobre o número de startups brasileiras que já se instalaram na região, mas a estimativa é que sejam “algumas dezenas”.

“Há uma onda de empresários vindo para cá. Muitos nos procuram em busca de contatos, acesso a investidores ou conselhos de nossos mentores”, diz Margarise Correa, coor­denadora da Bay Brazil, ONG que presta assessoria a empresas que estão chegando ao Vale do Silício.

São companhias iniciantes, como a Denox, especializada em automação, a Deskmetrics, de big data, e a Stayfilm, que cria filmes tendo como base fotos pessoais. Uma das que engrossaram recentemente a lista de startups brasileiras em território americano é a Hive, de São Paulo.

Criada há dez anos, inicialmente para produzir jogos eletrônicos, a empresa ampliou seu escopo e hoje desenvolve conteúdo para qualquer plataforma digital. Fatura cerca de 10 milhões de reais por ano e tem entre seus clientes a empresa de bebidas Ambev e a fabricante de bens de consumo P&G.

No final de 2015, a Hive recebeu um aporte de 4 milhões de reais da Criatec 2, fundo gerido pela brasileira Bozano Investimentos. “Essa injeção de recursos permitiu a abertura de nosso escritório no Vale do Silício, onde temos uma equipe de quatro profissionais”, diz Mitikazu Lisboa, executivo principal da Hive. Na Califórnia, a startup já atende clientes como a rede social Twitter. 

Não é só o Vale do Silício que está atraindo os brasileiros. Mais ao norte, em Portland, no estado de Oregon, começou a funcionar neste ano um escritório da Hotelli, startup que tem um aplicativo para empresas que precisam marcar viagens de última hora. O empresário Paulo Garcia Júnior, fundador da Hotelli, foi atraído pelo tamanho do mercado americano.

“Os brasileiros gastam 30 bilhões de dólares por ano em viagens corporativas. Os americanos, 300 bilhões”, diz Garcia. A simplicidade de abertura de uma empresa é outro ponto positivo. Segundo o Banco Mundial, são necessários seis dias para abrir uma empresa nos Estados Unidos, ante 83 dias no Brasil. Lá, os impostos representam 44% do lucro das empresas. Aqui, quase 70%.

Parece tudo melhor lá fora, mas não é só chegar e faturar. “O Vale do Silício não é para amadores”, diz Eduardo Henrique, diretor de expansão global da Movile, empresa que cria aplicativos para smartphones e tablets. Segundo estimativas, nove em cada dez start­ups que se instalam no Vale do Silício acabam fechando as portas em poucos meses.

Até agora a Movile, que chegou à Califórnia em 2012, está escapando das estatísticas. No ano passado, recebeu um investimento de 125 milhões de reais da empresa sul-africana de mídia Naspers. Parte desse dinheiro foi usada para ampliar as operações do PlayKids, aplicativo de jogos e vídeos para o aprendizado infantil, desenvolvido no escritório do Vale do Silício.

O PlayKids já foi traduzido para cinco idiomas e teve 11 milhões de downloads em mais de 100 países. A Movile conta hoje com dez profissionais no Vale do Silício (começou com apenas um) e está avaliada em 800 milhões de reais. Em tempos de real desvalorizado, a possibilidade de obter receita em dólares soa como um canto da sereia para as startups.

Mas, se ganhará em dólares, o empresário vai precisar gastar na mesma moeda. “Para competir aqui, é preciso buscar os melhores profissionais do mercado, e eles não são baratos”, diz Henrique . Um bom programador recebe de 100.000 a 200.000 dólares por ano nos Estados Unidos.

No Brasil, o mesmo profissional ganha, em média, 40.000 reais por ano — cerca de 10.000 dólares. “Sai caro, mas é o preço para concorrer com empresas que estão aqui há mais tempo”, afirma Henrique. O maior desafio para os empreendedores, no entanto, é competir numa área que nunca foi o ponto forte dos brasileiros: inovação.

“Somos mais copiadores do que criadores”, diz Paulo Humberg, do fundo A5 Capital Partners. Ainda assim, Humberg acredita que ambientes como o Vale do Silício podem ser propícios para o desenvolvimento de startups com DNA brasileiro. 

Uma vez estabelecidas na região, essas empresas contam com uma estrutura que não existe no Brasil e uma facilidade muito maior para fazer negócios. “Novas ideias se desenvolvem melhor em locais onde há mais conhecimento circulando”, afirma Humberg. É pagar para ver.