“Somos os pioneiros de uma nova era”, diz Anthony Giddens

Para um dos pensadores europeus mais influentes, a economia global está num processo de transformações nunca antes visto na história

São Paulo – Considerado um dos sociólogos mais importantes das últimas décadas, Anthony Giddens tornou-se conhecido do grande público na década de 90 ao ser apontado como o guru do então primeiro-ministro britânico Tony Blair.

Quando ainda ocupava o cargo de diretor da London School of Economics, Giddens lançou as bases de uma nova vertente política, batizada de Terceira Via, uma tentativa de criar uma ponte entre esquerda e direita. Professor emérito da Universidade de Cambridge, Giddens é atualmente membro da Câmara Alta do Parlamento britânico.

Aos 75 anos, continua fazendo jus à fama de intelectual público, aquele que emprega ideias complexas, mas escreve para uma audiência ampla. Seu último livro, que acaba de ser lançado, leva o título de Turbulent and Mighty Continent — What Future for Europe?, “Continente turbulento e poderoso — Qual é o futuro da Europa?”, numa tradução livre.

Para Gid­dens, o projeto de integração europeia corre perigo com a possível ascensão de grupos extremistas justamente no momento que o mundo passa por um processo de mudanças sem precedentes. “As próximas três décadas não serão como os últimos 30 anos”, diz.   

EXAME – Qual é o cenário mais provável em 2014 para os países da zona do euro?

Anthony Giddens – As medidas tomadas até agora não foram suficientes para estabilizar a região. Em 2014, é preciso que haja mais progressos em temas importantes, como o processo de união bancária e a integração fiscal. Esse é o caminho, mas é difícil precisar o que será feito. Há muitas pedras no caminho.

A eleição para o Parlamento Europeu em maio é de extrema importância. Se não houver um movimento coordenado, é possível que políticos populistas e hostis à União Europeia sejam eleitos. É por isso que pessoas a favor da União Europeia, como eu, não podem ficar passivas. O certo é que 2014 será um ano bem movimentado. 

EXAME – De seu ponto de vista, qual seria o desenrolar ideal para os próximos seis meses?

Anthony Giddens – Teríamos um amplo debate sobre o futuro da Europa que permitisse limitar o poder dos populistas nas eleições. Eles falam muito sobre as coisas a que são contrários, mas não a respeito das consequências de suas posições.

Com essa questão encerrada, avançaríamos na integração econômica da região e na criação de empregos. Isso vai acontecer? Não sabemos. O mundo está em uma época de transição. Não é apenas a Europa. Está mais difícil fazer projeções.


EXAME – Foi a crise que tornou as projeções mais complicadas?

Anthony Giddens – Os países ricos e os emergentes estão numa situação pior comparada à que estavam há cinco, dez anos. Globalmente ainda não achamos uma saída para essa questão. O que podemos dizer é que as próximas duas ou três décadas não serão como os últimos 20 ou 30 anos. Em suma, certamente teremos um período de grandes mudanças pela frente. 

EXAME – Quais são os indícios de que veremos grandes transformações? 

Anthony Giddens – Além de todo o esforço necessário para recuperar a economia dos países ricos, estamos vivendo numa época de mudanças estruturais.

Na maior parte dos países, tanto ricos como emergentes, temos de pensar na transformação em curso nas estruturas produtivas, no impacto que novas tecnologias estão tendo e terão, em como a internet tem afetado a vida das pessoas em casa e no trabalho, na necessidade de criar limites ao poder das grandes corporações, principalmente as que não pagam impostos como deveriam.

De certa forma, é possível dizer que estamos vivendo num mundo diferente, no qual a relação entre riscos e oportunidades não é mais a mesma. E ninguém pode dizer que sabe o que vai acontecer.

EXAME – Qual momento da história pode ser comparado com o que vivemos atualmente?

Anthony Giddens – Nenhum, pelo menos não em termos de ritmo das mudanças. A Revolução Industrial também foi transformadora em escala global, mas aconteceu num espaço de tempo maior, cerca de 150 anos. A internet já deixou um rastro enorme em apenas 15 anos.

De certa maneira, somos como pioneiros desbravando uma nova era que ainda não entendemos direito. Uma era ver­dadeiramente globalizada, numa escala de integração nunca antes vista.   

EXAME – De que forma o ritmo acelerado dos avanços tecnológicos pode mudar a vida das pessoas?

Anthony Giddens – Em larga medida já estamos vendo transformações em áreas como a educação e seus cursos a distância. Na esfera econômica, as impressoras 3D devem inaugurar uma nova era da indústria. Já se começa a falar de produção digital e impressoras 4D. Talvez estejamos prestes a repensar a ideia de crime e castigo.

É possível que avanços tecnológicos nos permitam reformar o sistema penitenciário. Se conseguirmos ter uma vigilância constante de presidiários condenados por crimes não violentos, poderemos tirá-los das cadeias. Infelizmente, não temos nada no passado que possa nos guiar.