Apps de táxi são populares. Só falta darem dinheiro

Os aplicativos de táxi atraem rapidamente adeptos entre consumidores, taxistas e investidores no Brasil — resta saber se o modelo de negócios vai funcionar

São Paulo – A paternidade de uma boa ideia se mostrou um tema para lá de controverso na internet. Da noite para o dia, impérios surgem literalmente do nada — e aí sempre tem um grupinho disputando o mérito de ter criado tudo aquilo. Dependendo das cifras, as brigas judiciais podem tomar proporções cinematográficas.

Um exemplo recente é o do brasileiro Eduardo Saverin, que foi aos tribunais americanos brigar por sua parte na criação do Facebook. Ganhou quase 6 bilhões de dólares e mereceu atenção especial no filme A Rede Social, que conta a história de Mark Zuckerberg, principal fundador do Facebook.

Numa escala bem mais modesta, outro brasileiro desponta agora como pioneiro da tecnologia — sem o mesmo glamour ou dinheiro de Saverin, diga-se. O publicitário mineiro Tallis Gomes viu sua vida virar de cabeça para baixo nos últimos dois anos. Em junho de 2011, ele participou do Startup Weekend, um concurso para a seleção de novas empresas de tecnologia no Rio de Janeiro.

Sua ideia original era montar um aplicativo para passageiros de ônibus, mas descobriu durante o concurso que o Google já tinha um produto parecido. Na hora, acabou mudando o foco para um aplicativo que permitisse chamar táxi pelo smartphone. Ganhou o concurso e, após dez meses, fundou a Easy Taxi.

Ele merece o título de pioneiro? Difícil dizer. Na mesma época, programas parecidos eram lançados na Europa, nos Estados Unidos e em Israel­. Concorrência à parte, recebeu um aporte de 10 milhões de reais em 2012 do fundo de venture capital alemão Rocket. A Easy Taxi tem 600 000 usuários e atua em dez países.

A empresa faz parte de um fenômeno que está ganhando as cidades brasileiras. Com mais de 1 milhão de usuários e uma frota de taxistas cadastrados equivalente à da cidade de São Paulo — quase 35 000 motoristas —, os programas de táxi estão entre os mais baixados na categoria “viagem” das lojas de aplicativos do Google e da Apple.

Por meio da localização do taxista e do cliente, fornecida pelo GPS dos smartphones, os programas conectam os dois que estão mais próximos um do outro. Pouco depois da Easy Taxi, chegaram ao Brasil os aplicativos SaferTaxi e Taxibeat, criados nos Estados Unidos e na Europa, respectivamente, e o 99Taxis, criado pelos brasileiros Paulo Veras, Ariel Lambrecht e Renato Freitas. Hoje, os quatro softwares ajudam a realizar cerca de 20 000 corridas por dia.

Os dados de crescimento potencial desse negócio são animadores. Existem hoje cerca de 150 000 taxistas no Brasil, que realizam, em média, 2,5 milhões de corridas por dia e geram uma receita anual de cerca de 15 bilhões de reais. 

Por enquanto, estima-se que as corridas feitas com o auxílio do smartphone representem menos de 1% do total. Em São Paulo e no Rio, a participação no total de corridas é de 2,5%. “Ainda temos mais de 90% do mercado para conquistar”, diz Gomes. 


Atualmente, no entanto, nenhum dos concorrentes se concentra em ganhar dinheiro. Por ora, o foco é conquistar clientes. Até porque trata-se de um mercado onde quase não há barreiras para novos entrantes. E a estratégia tem funcionado. Para os clientes, os aplicativos em geral atendem aos chamados mais rapidamente do que as cooperativas.

Para os taxistas, é uma maneira de driblar os custos de ingressar numa cooperativa — o que pode superar os 30 000 reais na adesão — e se beneficiar da segurança de atender clientes previamente cadastrados, obrigados a registrar e-mail e telefone. Para as empresas, porém, as chances de ganho ainda são limitadas.

A principal fonte de receita é uma taxa de 2 reais por corrida. Mas a concorrência, ao menos em São Paulo, tem espremido até mesmo essa margem. A 99Taxis já oferece o serviço sem cobrar nenhuma taxa do taxista. O plano é, em breve, intermediar o pagamento das corridas.

Com isso, pretende cobrar 5% das que utilizarem cartão de crédito como pagamento. Segundo o presidente da empresa, Paulo Veras, a estratégia é ganhar mercado para depois gerar receita. “Precisamos ser os maiores do Brasil”, diz. 

Popularidade não é lucro

A experiência mostra que ganhar popularidade não é igual a dar retorno financeiro. A maior referência disso é o mercado de compras coletivas pela internet, que logo caiu no gosto dos consumidores, mas até hoje não dá lucro. Meses após criar o pioneiro Groupon, o jovem americano Andrew Mason viu uma verdadeira explosão de sites concorrentes surgir em todo o mundo.

Sua empresa, porém, não decolou. Três anos depois de ser apontada como um sucesso na internet, ele próprio foi demitido. “A euforia é algo típico da internet. No fim, poucos sobrevivem”, diz Rodrigo Sampaio, presidente do fundo Rocket na América Latina. “Temos tudo para construir um negócio que dê lucro.”

Até por ser algo novo em todo o mundo, as referências ainda não comprovam a tese de Sampaio. Uma das maiores do mundo, a inglesa Hailo, criada em 2010 como um aplicativo para serviços de entrega, já tem quase metade da frota de táxi de Londres cadastrada e fatura 100 milhões de dólares por ano. Mas poucos acham que ela gere algum lucro — dado que a empresa não revela.

Além do desafio de criar fontes de receita, os empreendedores dessa área terão de enfrentar a resistência dos competidores tradicionais, as cooperativas e as associações de taxistas. A briga já começou. Para eles, os aplicativos devem ser regulados pelas mesmas regras seguidas pelas cooperativas.

As prefeituras, por sua vez, começaram a estudar o tema. Em Nova York, o uso dos aplicativos para táxi chegou a ser proibido após as cooperativas alegarem que o modelo abria brechas para o preconceito racial, já que os motoristas poderiam selecionar os passageiros pela foto do perfil. Há duas semanas, a Suprema Corte de Nova York liberou o uso dos aplicativos. Prevaleceu, por ora, a força do livre mercado.