Sem complexo de vira-lata

Os 200 maiores grupos privados do Brasil faturaram quase 705 bilhões de dólares em 2018. O destaque ficou com bancos e produtores de commodities

Em maio de 1958, às vésperas de o Brasil estrear na Copa do Mundo da Suécia, o escritor Nelson Rodrigues publicou na revista Manchete a crônica Complexo de Vira-Latas. Nela, o autor criticava a baixa autoestima dos brasileiros desde a traumática derrota para o Uruguai na final da Copa de 1950, em pleno Maracanã. Como se sabe, o Brasil conquistaria na Suécia seu primeiro título mundial — e quatro Copas depois disso —, mas o complexo de vira-lata volta e meia ainda se manifesta por aqui. Um exemplo é quando se discute se a vocação do Brasil é ser um exportador de commodities ou se deveria investir na produção de manufaturados de maior valor agregado.

Esse não é um debate novo, mas de tempos em tempos volta à tona, especialmente após a divulgação de dados de exportações — que mostram o enorme peso de itens como minério de ferro e soja para o superávit na balança comercial. Os números da economia em 2018 reforçam que o país continua trilhando esse caminho. No ranking dos 200 maiores grupos empresariais privados de MELHORES E MAIORES, parte relevante das receitas — e dos lucros — do ano passado veio de produtores de commodities.

Juntos, os 200 maiores conglomerados que atuam no Brasil faturaram quase 705 bilhões de dólares em 2018, um crescimento de 3,3% sobre o ano anterior. Já os lucros subiram 48%, para 60 bilhões de dólares. Entre os grupos que mais aumentaram as vendas e os lucros (veja os quadros abaixo), muitos são especializados em commodities. É o caso da Vicunha Aços, que controla a CSN. Com a alta dos preços do minério de ferro no ano passado e com a ligeira retomada da demanda por aços no mercado doméstico, o conglomerado encerrou o ano com um lucro de 1,3 bilhão de dólares, ante apenas 7,3 milhões em 2017 — foi o maior aumento de lucro no período.

Agrex do Brasil (produtos agrícolas), ArcelorMittal (aço) e CMOC International (nióbio) são outros grupos entre os que mais aumentaram o número da última linha do balanço em 2018. E Vale (minérios), Ultrapar (atacado e química), Cargill (alimentos) e Raízen (energia e atacado) estão entre os que mais faturaram no ano passado. “O Brasil tem uma vantagem competitiva enorme, com oferta abundante de recursos naturais”, diz Luís Henrique Guimarães, presidente da Raízen. O grupo, que atua na produção de açúcar e etanol e na distribuição de combustíveis, faturou 23 bilhões de dólares em 2018, a sexta maior receita do país.

Diante dos gargalos que reduzem a competitividade das indústrias, no médio prazo a economia brasileira tende a continuar se apoiando nos negócios ligados a commodities. Não é algo necessariamente ruim, de acordo com Livio Ribeiro, pesquisador de economia aplicada da Fundação Getulio Vargas. “Exportar commodities não é um fardo. Basta olhar para países como Austrália, Nova Zelândia e Noruega, que têm nessa atividade uma grande fonte de recursos para manter seus altos índices de desenvolvimento.” Cabe acrescentar à lista os Estados Unidos — o maior exportador de commodities do mundo.

Produção na CSN: a controladora Vicunha Aços foi o grupo com o maior aumento de lucro | Antônio Gaudério/Folhapress

Até mesmo para avançar como uma potência na área de commodities, no entanto, é preciso resolver velhos problemas que afetam todas as empresas. “Se conseguirmos superar as ineficiências de infraestrutura e a complexidade tributária, e investirmos mais em produtividade e inovação, poderemos nos consolidar como uma das maiores forças globais em commodities”, diz Frederico Curado, presidente da Ultrapar, quinto maior grupo do país, com uma receita de quase 24 bilhões de dólares.

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Entre os 200 maiores grupos do Brasil, os bancos também continuam ocupando posições de destaque. O Bradesco, com 51 bilhões de dólares, e o Itaú Unibanco, com 49 bilhões de dólares, foram os grupos com maior receita no ano passado. Paradoxalmente, cinco bancos figuraram na lista dos dez grupos que mais perderam receita em 2018: Credit Suisse, Safra, Mercantil do Brasil, Banco Votorantim e Citi. “Bancos de investimento fazem grandes negócios, e essa queda na receita é um termômetro da baixa atratividade da economia brasileira nos últimos tempos”, diz o economista Roberto Troster, especialista no setor bancário. Neste ano, o mercado financeiro está mais animado, com a marca de 100.000 pontos batida na bolsa de valores em um cenário de juros mais baixos. Há sinais positivos, mas o horizonte para novos e grandes projetos ainda se mantém nebuloso.