No mundo dos investimentos, sai um otimista, entra outro

Para Manraj Sekhon, sucessor de Mark Mobius no comando da divisão de mercados emergentes, investir em países como o Brasil vale a pena

Mark Mobius foi um dos primeiros gestores americanos de fundos a investir com consistência em ações de países emergentes. Nos 30 anos em que comandou a área de mercados emergentes da gestora Franklin Templeton, Mobius quase sempre foi um entusiasta da região — e do Brasil, onde costumava passar o Carnaval — e ganhou dinheiro com isso. Ele se aposentou em 2018, e seu sucessor, Manraj Sekhon, partilha da mesma empolgação. Nascido em Singapura, Sekhon foi presidente e diretor de investimentos da gestora Fullerton, controlada pelo fundo soberano Temasek, antes de ingressar na Templeton. Hoje, gerencia cerca de 40 bilhões de dólares investidos nas bolsas de países emergentes — 2 bilhões no Brasil. Nesta entrevista, ele diz por que acredita que vale a pena aplicar nessas bolsas, apesar das turbulências em alguns países e do aumento dos juros nos Estados Unidos, que pode drenar recursos dos mercados emergentes.   

O senhor disse recentemente que as fontes de crescimento dos países emergentes estão mudando. Como assim?

O crescimento nas próximas décadas deve vir dos setores de tecnologia e consumo. A penetração da internet nos países emergentes está aumentando, e isso cria oportunidades para as empresas usarem a tecnologia para ganhar eficiência e reduzir custos. O comércio eletrônico, os bancos digitais e as tecnologias móveis devem ser fontes importantes de expansão da economia. Além disso, a ampliação da classe média deve fazer com que o consumo continue aumentando nos países emergentes. Com mais renda disponível, a compra de produtos de maior valor tende a crescer, em diferentes segmentos — de carros a viagens.

Com o aumento dos juros nos Estados Unidos, ainda vale a pena investir em mercados emergentes?

Esses mercados oferecem ótimas oportunidades de investimento no longo prazo em razão de fundamentos robustos, como crescimento econômico, grande estoque de recursos naturais e humanos, demografia favorável e potencial para rápido progresso tecnológico. Possivelmente, conseguirão se beneficiar de melhorias em infraestrutura e padrões de governança. Analisando as empresas, os resultados também são positivos. A geração de caixa e os lucros têm aumentado de maneira geral, mas, em razão da volatilidade, isso não está refletido no preço de muitas ações. Há companhias baratas nas bolsas de países emergentes.

Essa é uma visão otimista, já que os países emergentes, por razões diferentes, passam por uma fase complicada. Como avalia os riscos ao investir?

Temos uma estratégia voltada para pesquisa, visão de longo prazo e análise de fundamentos. Na nossa visão, o ciclo de crescimento de lucros dos mercados emergentes ainda está no estágio inicial, e muitos investidores têm baixa exposição a essa classe de ativos, o que deve mudar. Dadas as variadas oportunidades de investimento que esses mercados oferecem, podemos montar carteiras diversificadas para evitar riscos excessivos.

Em sua opinião, quais são os mercados emergentes mais promissores?

Nossa prioridade é identificar empresas que tenham um bom crescimento de lucros e estejam sendo negociadas a preços razoá-veis. A exposição a países é um efeito residual dessa análise das empresas. Além disso, os países emergentes divergem em termos de crescimento econômico e ris-co político. Na América Latina, especifi-ca-mente, uma retomada cíclica está ocorrendo em meio à alta de preços das commodities, mas as incertezas políticas podem tornar alguns mercados muito voláteis.

Qual é sua expectativa em relação ao Brasil, que passa por um período bastante turbulento?

O cenário de curto prazo é desafiador em razão da eleição presidencial, que deve deixar o mercado volátil. Mas esperamos um resultado favorável para a economia e, por isso, nossa visão de prazo mais longo é positiva. Acreditamos que o próximo presidente deve fazer reformas, e o país continuará a se recuperar da recessão de 2015 e 2016. Os resultados das empresas também são bons, e os ajustes realizados durante a crise devem gerar reduções de despesas. Existe espaço para crescer sem pressão inflacionária, já que a indústria e o mercado de trabalho estão com capacidade ociosa. Além disso, o país tem potencial para exportar mais bens industriais e produtos agrícolas, o que deverá beneficiar o PIB nos próximos anos.

A Franklin Templeton investe em ações de quais setores no Brasil?

Como temos uma visão positiva para o Brasil no longo prazo, principalmente em razão da expectativa de aumento do consumo, damos preferência a empresas voltadas para a economia interna, principalmente nos setores financeiro e de varejo. Os bancos e alguns segmentos do varejo podem ser especialmente interessantes devido à inflação baixa e à retomada do crédito ao consumo. Apesar de o fraco ambiente macroeconômico e a desvalorização cambial terem tido um impacto negativo sobre o preço das ações, os bancos continuam altamente lucrativos e podem se beneficiar da recuperação da economia. Também vemos demanda por investimentos em infraestrutura, necessários para resolver os gargalos que dificultam um maior crescimento econômico. As incertezas no Brasil podem criar oportunidades de investimento, já que algumas empresas saíram mais fortes da recessão. Num ambiente de menor risco macroeconômico e com impulso a reformas e políticas pró-mercado, as empresas ficarão mais confiantes para investir, e nós também. Nossa estratégia de investimentos avalia todas as variáveis intangíveis que criam valor. O desafio é encontrar empresas com modelos de negócios sólidos, vantagens competitivas em seus setores de atuação e habilidade de gerar resultados con-sistentes. Também analisamos a fundo indicadores qualitativos, como o corpo de executivos, e isso nos ajudou a evitar investir em empresas que destruíram valor por ter uma governança corpora-tiva ruim ou por ter alocado capital de forma equivocada.