A Biolab tem um rival para o Botox

A Biolab decuplicou de tamanho ao investir em inovação. Sua mais recente cartada é uma toxina botulínica de segunda geração - novidade aqui e na Europa

São Pualo – Tão logo passou a vigorar no Brasil, em fevereiro de 1999, a lei dos genéricos se converteu numa espécie de Santo Graal da indústria farmacêutica nacional.

Ao ganhar autorização para produzir por aqui remédios com os mesmos princípios ativos de drogas famosas, como o analgésico Tylenol ou o antiansiolítico Valium, os três maiores laboratórios brasileiros – EMS, Aché e Eurofarma – praticamente dobraram de tamanho na última década.

Era de imaginar, portanto, que, para qualquer empresa nacional do setor, o crescimento estaria inexoravelmente ligado à exploração dos genéricos, um mercado que cresce, em média, 25% ao ano. Pois os executivos da Biolab, quarto maior laboratório de capital nacional, decidiram enveredar por uma seara diferente.

Sediada em São Paulo, a empresa decuplicou de tamanho nos últimos dez anos ao investir no desenvolvimento de fórmulas consideradas inovadoras. Neste mês, coloca no mercado sua última aposta, o Xeomin, uma toxina botulínica de segunda geração, em parceria com o laboratório alemão Merz.

Sua inovação para concorrer com o tradicional Botox, da americana Allergan, é o fim da necessidade de refrigeração no armazenamento – algo imperceptível para quem deseja uma pele mais lisa, mas significativo para médicos e clínicas.

“Nosso negócio é a inovação”, diz Cleiton de Castro Marques, presidente da Biolab. A empresa encerrou 2009 com uma receita de 540 milhões de reais – 40% dela originada de novas fórmulas. “Estamos crescendo no espaço deixado pelas grandes empresas do setor.”

Ao ser criada em 1997 pelos irmãos Fernando, Cleiton e Paulo de Castro Marques, fundadores do União Química, laboratório voltado para a fabricação de medicamentos para hospitais, a Biolab tinha um objetivo relativamente modesto: conquistar uma parcela do efervescente mercado de medicamentos para cardiologia, área pouco explorada pelo União, sobretudo no varejo.

Durante cerca de três anos, a empresa dedicouse ao desenvolvimento de remédios similares a blockbusters, como Diovan, da Novartis, e Renitec, da Merck, ambos para hipertensão – vendidos pelo laboratório brasileiro pela metade do preço.

A virada aconteceu em 2000, quando o farmacêutico Dante Alário Junior, responsável técnico e científico da Biolab, decidiu investir em parcerias internacionais para trazer ao Brasil as novidades mais quentes na Europa. O primeiro contrato foi firmado com o Merz para a fabricação de uma pomada cicatrizante.

Desde então, a Biolab já fechou dez acordos de fabricação com empresas como a suíça Novartis, a italiana Menarini e a anglo-sueca AstraZeneca. Este último, assinado em 2007, introduziu no Brasil o Vivacor, um concorrente mais barato para o popular Lipitor, da Pfizer. “O Vivacor é hoje um dos maiores rivais do Lipitor”, diz Alário Jr. “Isso nos faz crer que estamos no caminho certo.”


O sucesso das parcerias internacionais encorajou os donos da Biolab a investir em inovações próprias, por meio de parcerias com universidades e centros de pesquisa. A política é investir 7% do faturamento em inovação.

O protetor solar nanotecnológico Photoprot, lançado em novembro de 2009 e hoje o maior cartão de visitas da empresa, por exemplo, consumiu 5 milhões de reais e foi criado em conjunto com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

O Enpak, um analgésico à base de veneno de cascavel que promete ser 600 vezes mais forte que a morfina, desenvolvido em parceria com o Instituto Butantã, deve chegar ao mercado em quatro anos. Há ainda mais 32 estudos em andamento, em áreas que vão da disfunção erétil ao tratamento da pressão arterial.

O resultado da estratégia pode ser verificado no número de patentes solicitadas pela companhia. De 1999 para cá, foram 131 pedidos, mais da metade originada nos últimos três anos (até agora quatro foram concedidos).

“A filosofia imediatista sempre norteou a indústria nacional”, afirma Ogari Pacheco, fundador do Cristália, laboratório brasileiro pioneiro em investimentos em inovação, com quase três décadas de pesquisa. “Agora, capitalizadas pelo dinheiro dos genéricos, algumas empresas também querem fazer inovação. Mas isso é um processo que leva tempo.”

O ciclo de desenvolvimento de um produto do zero costuma levar entre dez e 15 anos – uma eternidade se comparado aos 12 meses, em média, necessários para começar a produzir um genérico. Ainda que a Biolab contasse com um centro de pesquisa e desenvolvimento desde 1999, foi somente no final do ano passado que sua primeira inovação chegou ao mercado.

No próximo ano, os controladores da empresa pretendem inaugurar mais um centro de inovação na cidade de Taboão da Serra, na Grande São Paulo. A ideia é que o número de pesquisadores passe dos atuais 120 para 170. Os irmãos Marques investem assim no futuro de uma fórmula que – pelo menos até agora – se provou acertada.