Dois rivais da elegância dominam o universo das marcas de luxo

François Pinault, do grupo Kering, vai abrir seu museu em Paris. Bernard Arnault, do LVMH, é o novo dono do Copacabana Palace

Marcas de moda? Dior, Fendi, Louis Vuitton e diversas outras. Perfumes e cosméticos? Givenchy e Guerlain, entre vários nomes, sem falar da rede Sephora. Relojoaria? Bvlgari, Tag Heuer mais quatro cobiçadas maisons. Bebidas finas? Dos champanhes Veuve Clicquot e Dom Pérignon ao single malt Glenmorangie, fora a vinícola argentina Terrazas de los Andes. O grupo francês LVMH, presidido por Bernard Arnault, que também é seu principal acionista, ainda é dono da revista de artes Connaissance des Arts e do jornal de economia Les Echos, num total de 70 operações. Em dezembro, adquiriu o controle da rede hoteleira Belmond, dona do Copacabana Palace. Nem fabricante de avião falta à holding, já que a marca alemã de malas Rimowa, arrematada em 2016, passou a atuar nesse ramo, com modelos vintage.

Fundado por François Pinault, com quem Arnault concorreu a vida toda pela primazia no mercado de luxo, o também francês grupo Kering não chega a tanto. Gucci, Bottega Veneta, Saint Laurent e Alexander McQueen são suas grifes de vestuário mais conhecidas. Marcas de joias, como Qeelin, e relojoarias, caso da suíça Girard-Perregaux, também constam do portfólio, que soma 14 operações. Presidido desde 2005 por seu filho, François-Henri Pinault, casado com a atriz Salma Hayek, o conglomerado pode não ter marcas de bebida em seu portfólio. Mas a família de Pinault tem uma porção de vinícolas estelares para chamar de suas, entre elas a icônica Château Latour, em Bordeaux. Faltou falar do time de futebol deles, o francês Stade Rennais, e da companhia de cruzeiros de luxo, a Ponant. Se a vantagem do LVMH  sobre o Kering em termos de receita é clara, quando se fala em prestígio a competição é acirrada.

Observadas as atuações dos magnatas no universo das artes, os dois, que aparentemente não se bicam, confundem-se ainda mais. Pinault, que dizem só ter visitado um museu quando já era adulto, é dono da prestigiada casa de leilões Christie’s e de uma invejável coleção com mais de 3.000 obras de artes. O sonho de criar um museu em Paris para exibi-las será enfim concretizado: a inauguração está prevista para este semestre. Vai ocupar o edifício Bourse de Commerce, próximo ao Centro Georges Pompidou. O complexo está sendo renovado pelo arquiteto Tadao Ando, o mesmo que redesenhou o Palazzo Grassi, em Veneza, no qual Pinault inaugurou seu primeiro museu, em 2006. Na época, o que ele queria era usar uma antiga fábrica da Renault situada numa ilha no Rio Sena. Foi demovido pela burocracia.

Já Arnault alterou a paisagem de Paris com sua Fundação Louis Vuitton. Projetada pelo arquiteto Frank Gehry — como Tadao, vencedor do Prêmio Pritzker —, a sede ganhou o apelido de caravela cubista em razão das 12 placas de vidro que a encobrem. Aberta ao público em 2014, a construção está ancorada no Jardin d’Acclimatation e custou 135 milhões de dólares. Ocupa uma área de 11.000 metros quadrados e abriga 11 galerias, além de auditório, restaurante, livraria e terraços. A fundação exibe mostras temporárias e peças de acervo e da coleção particular de Arnault. Ele recorreu a uma frase de Picasso para justificar a empreitada: “A arte limpa a alma da poeira do cotidiano”.

François Pinault | Nicolas Kovarik/IP3/Getty Images

É de supor que o interesse dos dois pelas artes é genuíno. Para Carlos Ferreirinha,  presidente da MCF Consultoria e Conhecimento, também há razões empresariais por trás de investimentos nesse meio. “Há uma pressão cada vez maior, inclusive dos acionistas, para que as empresas sejam mais socialmente responsáveis”, diz. “A nova onda do consumo exige que elas devolvam algo para a sociedade.” Para Ferreirinha, a arte é um forte balizador social. “Todo mundo que ascende um pouco economicamente passa a achar que é preciso entender um pouco mais do assunto. Só que estamos falando de dois bilionários.”

Nascido em Les Champs-Géraux, perto de Nantes, na França, Pinault está com 82 anos. Tem um patrimônio avaliado em 28,6 bilhões de dólares e é o 30o bilionário do mundo. Criou sua companhia em 1963, a Pinault Etablissements, originalmente especializada no comércio de madeira. Em 1999, depois de uma série de aquisições, fincou os pés no mercado de luxo ao abocanhar 42% da Gucci. Batizado como PPR até 2013, quando passou a se chamar Kering, o grupo tem hoje 29.000 empregados e sua receita foi de 15,5 bilhões de dólares em 2018.

Arnault, de 69 anos, nasceu em Roubaix, no norte da França. Teve sua fortuna calculada em 69 bilhões de dólares, valor que faz dele o quarto homem mais rico. O LVMH foi formado em 1987, com a fusão da Louis Vuitton com a produtora de champanhe Moët et Chandon, que se associara na década anterior à marca de conhaques Hennessy. Atualmente, emprega 145.000 pessoas e gerou uma receita de 53 bilhões de dólares no ano passado.

“A aquisição de outras marcas de luxo é uma estratégia para ajudar na enorme pressão por resultados. Se uma vai mal, troca-se o diretor, muda-se o estilista. É a mesma lógica de outros segmentos da economia”, diz Ferreirinha. “O grande dilema desses conglomerados é como melhorar resultados sem interferir na qualidade de marcas que primam pela exclusividade.” O que explica por que maisons lendárias, como Chanel e Hermès, mantêm-se independentes, longe da cobiça, pelo menos por enquanto, de Arnault e Pinault.