Carta de EXAME — Risco de retrocesso

O meio ambiente não é inimigo do agronegócio, e a recíproca também deve ser verdadeira

O presidente eleito, Jair Bolsonaro, tomará posse em Brasília no dia 1o de janeiro de 2019, mas já começou a colocar em prática algumas ideias de seu governo. Por sua recomendação, o Itamaraty anunciou no dia 27 de novembro que o Brasil retirou a candidatura para sediar no ano que vem a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP-25. O Itamaraty atribuiu a decisão a “restrições fiscais e orçamentárias” e ao “processo de transição” do governo. O anúncio, criticado pelos ambientalistas, está alinhado com a posição do futuro chefe do Itamaraty, o diplomata Ernesto Araújo — que chama as mudanças climáticas de “climatismo”, uma ideologia que, segundo ele, foi capturada pela esquerda para “justificar o aumento do poder regulador dos Estados sobre a economia”.

Com a retirada da candidatura brasileira para sediar a Conferência do Clima em 2019, cresce o temor de que Bolsonaro leve adiante sua ideia, cogitada durante a campanha eleitoral, de tirar o Brasil do Acordo de Paris. O acordo global, aprovado na capital francesa em 2015 por 195 países, contou com a importante atuação da diplomacia brasileira na redação de seu texto final, que estabelece metas específicas para a redução de emissões de gases do efeito estufa até 2030 e até 2050.

Seria um retrocesso e tanto para o Brasil, justamente numa área em que o país tem condições de exercer um papel de liderança positiva no mundo, seja por abrigar a maior biodiversidade do planeta, seja por sua destacada atuação na produção de energia renovável. Conforme mostrou o biólogo Marcos Buckeridge durante o EXAME Fórum Sustentabilidade, realizado no dia 22 de novembro em São Paulo, as oportunidades econômicas trazidas pelas mudanças climáticas para o Brasil são imensas, sobretudo no agronegócio. O etanol brasileiro, sozinho, tem o potencial de substituir até 15% da gasolina mundial e mitigar até 6% das emissões globais de carbono — sem afetar a biodiversidade ou a produção de alimentos. Até 2040, devido ao aumento da população e à urbanização, a produção global de alimentos precisará dobrar — e o Brasil é um dos países com maior potencial para atender à necessidade de aumento da demanda.

O Brasil, contudo, não conseguirá aproveitar essas oportunidades se assumir uma posição unilateral que coloque em risco o meio ambiente. No mundo todo, cresce o número de consumidores conscientes que rejeitam produtos que não preencham os requisitos de boas práticas ambientais, sociais e econômicas.  Soja ou carne oriundas de áreas desmatadas na Amazônia, por exemplo, teriam poucos compradores nos mercados desenvolvidos. Felizmente, muitas iniciativas aqui e mundo afora mostram que é possível conciliar os interesses produtivos com os de preservação. O meio ambiente não é inimigo do agronegócio, e a recíproca também deve ser verdadeira. Que o próximo governo se lembre disso antes de tomar qualquer decisão precipitada.