Carta de EXAME: Quem faz certo lucra mais

Não seria demais repetir que os gastos com a prevenção de acidentes são, na verdade, um investimento que se paga, no mais das vezes, no médio prazo

Com algumas atualizações, esta carta poderia ser igual àquela que publicamos na edição passada — quando defendíamos, na esteira da tragédia do desmoronamento da barragem da Vale em Brumadinho, que o país precisa urgentemente se dedicar à manutenção, à preservação, à fiscalização. De lá para cá, infelizmente, mais exemplos vieram reforçar a tese: um incêndio no centro técnico do Flamengo, no Rio de Janeiro, matou dez garotos de 14 a 16 anos, e um desastre de helicóptero matou o jornalista Ricardo Boechat e o piloto Ronaldo Quattrucci.

Em ambos os casos, aparentemente, houve falhas de fiscalização e de manutenção. Não seria demais repetir que os gastos com a prevenção de acidentes são, na verdade, um investimento que se paga, no mais das vezes, no médio prazo. Preferimos, porém, tratar do mesmíssimo assunto pelo viés positivo, com exemplos de preservação — do meio ambiente, de vidas — que são também exemplos de conquista de mercados, eficiência e lucros.

Como bem demonstra uma reportagem sobre pecuária sustentável, na página 58, a preservação não é inimiga da exploração econômica. Ao contrário. Produtores que investem no respeito ao meio ambiente, no Pantanal mato-grossense, têm colhido resultados promissores. A alimentação com pastagens nativas, a garantia de bem-estar dos animais e a manutenção de áreas de preservação permanente levam a um decréscimo de produtividade, mas este é um preço que se paga durante apenas três anos, em média. Quem persiste colhe lucros: em vez de criar três animais a cada 10 hectares, consegue criar cinco; a taxa de procriação, normalmente de 65% das vacas em idade reprodutiva na região, sobe para 80%. Em Mato Grosso do Sul colhe-se até uma redução de dois terços no imposto sobre circulação de mercadorias, por contribuir para a conservação do bioma.

Ao contrário do senso comum, o Brasil é um bom exemplo de preservação da natureza. No Pantanal, 83% da área está conservada. Na Amazônia, o índice é de 78%; na Caatinga, 54%. Até a Mata Atlântica, na região mais urbanizada do país, tem 29% de sua área preservada, de acordo com um novo estudo, mais preciso. Não é apenas por mérito do povo brasileiro. No Pantanal, por exemplo, a alternância entre secas e cheias torna inviável o uso extensivo do solo o ano todo. É um empurrão e tanto para uma economia mais “verde”, não só no sentido ambiental como também na possibilidade de arrecadar mais dólares, de um mercado mundial de carne orgânica que deve dobrar de tamanho até o final de 2027, para mais de 16 bilhões de dólares.

Até na mineração há exemplos positivos. A própria Vale, responsável pelo perigoso tipo de barragem que desembocou nos desastres de Mariana e Brumadinho, emprega um método mais seguro, de beneficiamento do minério a seco, no Pará. Toda atividade econômica tem riscos e impactos ambientais. Fazer do modo certo reduz esses aspectos negativos. E dá mais lucro.