Como a Espanha se livrou da sua pior recessão em décadas

A Espanha se livrou da recessão com reformas para aumentar a produtividade e exportações. E o melhor: sem inflar o tamanho do Estado

A Espanha é um caso exemplar de nação que superou uma severa crise econômica e saiu dela mais forte do que nunca — coisa que o Brasil ainda está longe de conseguir. Uma boa medida da guinada espanhola é o sucesso do South Summit, feira criada em 2012, no auge da penúria, para reunir startups e fundos de investimentos em busca de novos unicórnios — empresas que emergem com valor de mercado acima de 1 bilhão de dólares.

Realizada no início de outubro no La Nave, pavilhão da prefeitura de Madri decorado com barras de metal coloridas que mais parecem lápis de cor gigantes e que ocupa um quarteirão inteiro na empobrecida zona sul da cidade, a edição de 2018 do South Summit atraiu 16.000 visitantes. Entre eles, representantes de 175 fundos globais de investimentos cuja carteira de negócios soma 55 bilhões de dólares. Foi uma audiência 60% superior à do ano passado. A seleção das startups para os 100 estandes disponíveis foi disputadíssima: mais de 600 empresas, dos seis continentes, pleitearam estar lá.

O alvoroço reflete a percepção do bom momento para fazer negócios na Espanha. Madri é a sexta melhor cidade da Europa para abrir uma startup, atrás de Londres, Paris, Berlim, Dublin e da também espanhola Barcelona, de acordo com a Mobile World Capital, uma organização de fomento ao empreendedorismo digital. A poucos quilômetros de onde foi o South Summit está a sede global do aplicativo de mobilidade urbana Cabify, considerado um unicórnio desde janeiro, quando recebeu aporte de um fundo capitaneado pelo gigante do comércio eletrônico japonês Rakuten.

“Queremos posicionar a Espanha como um hub mundial da nova economia e atrair empreendedores de fora, especialmente da América Latina e da África”, diz a economista Lucía Figar, diretora da aceleradora de startups da IE, universidade de Madri que figura entre as 30 melhores escolas de negócios do mundo e é patrocinadora do EnlightED, feira de educação que fez parte da programação do South Summit.

O otimismo com a economia espanhola contrasta com a má fase de até poucos anos atrás. Os espanhóis comeram o pão que o diabo amassou por causa da crise de 2008. Até então, o país crescia por causa basicamente de grandes obras de infraestrutura (a Espanha hoje tem 3.100 quilômetros de trilhos para trens de alta velocidade, a segunda rede mais extensa do mundo, atrás da chinesa), do consumo doméstico e do turismo em massa de europeus em busca de um lugar ao sol nas belas praias do Mediterrâneo.

O estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos espantou os financiadores da construção civil espanhola — que também vivia uma bolha própria, diga-se de passagem —, afundou empresas e, em particular, os bancos locais numa tremenda crise de confiança. O resultado: um período de cinco anos de recessão, que comeu quase 10% do produto interno bruto e elevou a taxa de desemprego ao recorde de 26% da população, o dobro da média da União Europeia e do Brasil.

Feira de startups na Espanha: o país quer se consolidar como um hub de novos negócios da economia digital | Divulgação

A retração da Espanha só começou a ser superada em 2013, após o empréstimo de 100 bilhões de euros da União Europeia e com a adoção de uma agenda de reformas para dar mais eficiência ao setor público e mais produtividade às empresas, num receituário de dar inveja ao Brasil. A primeira medida do então primeiro-ministro, Mariano Rajoy, de centro-direita, foi ceifar gastos de verdade na máquina pública. Em média, cada ministério perdeu 17% do orçamento em termos reais nos últimos cinco anos, por meio do congelamento de aumentos salariais e do corte de quase 20% em postos de trabalho e estruturas físicas custeados pelo Estado. Bônus e férias estendidas foram extirpados no serviço público.

Resultado: o déficit do governo central caiu de 7% do PIB, em 2012, para 3% em 2017. Na iniciativa privada, o choque foi de produtividade. Uma reforma tributária simplificou a burocracia no pagamento do IVA, imposto aplicado sobre o consumo de bens e serviços. O sistema bancário, em boa parte pulverizado em pequenas instituições regionais (as cajas de ahorro, ou caixa de depósitos, na tradução para o português), com sério risco de insolvência, foi capitalizado com os recursos da União Europeia. Muitas instituições foram fundidas ou compradas por bancos maiores.

O governo de Mariano Rajoy fez ainda uma reforma trabalhista abrangente e parecida com a que o governo de Michel Temer aprovou por aqui em 2017 — cuja regulamentação segue prejudicada pela insegurança jurídica causada por alas do Judiciário contrárias à mudança. Negociações entre patrões e empregados ganharam primazia sobre acordos sindicais. As multas obrigatórias em casos de demissão sem justa causa caíram em quase um terço, aliviando muitas pequenas e médias empresas, que antes tinham até de fechar as portas por falta de caixa para dispensar mão de obra em épocas de pouca demanda.

Por fim, boa parte dos recursos do Estado foi empregada numa agenda de promoção de exportações. “Tudo isso barateou o custo de fazer negócios na Espanha, que hoje tem um modelo de crescimento pautado na exportação de bens e serviços, e não mais no mercado interno”, diz Federico Steinberg, analista de comércio exterior no Instituto Elcano, um centro de estudos econômicos sediado em Madri e apoiado pela família real espanhola.

O resultado dessa chacoalhada geral na economia da Espanha foi uma retomada dos negócios com mais força do que nos países vizinhos. Desde 2015, o PIB espanhol vem crescendo mais do que a média da União Europeia. A projeção para a economia da Espanha é de uma expansão de 2,6% neste ano. Já a expectativa para o crescimento do bloco econômico europeu está em 2,1% — 0,2 ponto percentual abaixo da prevista no início do ano devido à desconfiança de investidores com a escalada do rombo nas contas públicas promovido pelo novo governo da Itália, de matiz populista, em nome do estímulo à economia.

Em boa medida, o vigor espanhol é puxado pelas exportações, que vêm batendo recordes ano a ano: em 2017, foram 400 bilhões de euros (cerca de 1,7 trilhão de reais), o equivalente a 34% do PIB. São 60% acima do que o país exportava antes da crise e também duas vezes o patamar atual de vendas externas do Brasil. No rol dessa expansão no comércio estão desde produtos típicos da Península Ibérica, como vinhos e azeites de oliva de alta qualidade, até bens manufaturados de alto valor agregado. Atualmente, a indústria automobilística espanhola é a segunda maior da União Europeia, atrás apenas da alemã, graças às vendas aos demais países do bloco.

A força da manufatura espanhola é resultado de ganhos de produtividade da mão de obra local, que desde 2013 cresce acima da média da União Europeia, em parte por causa da flexibilização das leis trabalhistas. É uma realidade bem diferente da Itália, também duramente atingida pela recessão, mas que não vem fazendo a lição de casa e viu a produtividade da mão de obra estagnar nos últimos cinco anos. O que é mais surpreendente na experiência espanhola é que a retomada foi acompanhada de uma redução do tamanho do Estado, um desafio enorme colocado para o próximo governo no Brasil. Em 2013, os gastos e investimentos da máquina pública espanhola abocanhavam 48% do PIB, patamar semelhante à média europeia. Hoje, essa relação está em 41% na Espanha, quatro pontos percentuais abaixo do padrão da União Europeia.

Fila de candidatos a emprego em Madri: a taxa de desocupação da mão de obra espanhola só perde para a da Grécia | Angel Navarrete/Getty Images

Tudo indica que a receita espanhola fez o país deixar a crise para trás. O PIB per capita, que havia diminuído 10% na fase mais dura da crise, de 2008 a 2012, voltou a crescer de lá para cá, e no ano passado bateu o patamar pré-crise, de 25.000 euros (aproximadamente 105.000 reais). Até mesmo o mercado imobiliário, que há pouco tempo estava estagnado por causa do estouro da bolha local, já deu sinais de retomada.

Desde meados do ano passado, preços de aluguel e de venda de residências vêm subindo a taxas de dois dígitos nas principais cidades espanholas. O conjunto empresarial Cuatro Torres, arranha-céus desenhados por arquitetos renomados como o britânico Norman Foster na zona norte de Madri, era um mico até há pouco tempo. Entregues no começo da década, justamente no auge da crise, os prédios ficaram quase totalmente vazios por muito tempo. Hoje, estão com ocupação de 90%, atraindo novas obras ao redor.

A escola de negócios IE está construindo ali uma torre de 160 metros de altura para servir como sua nova sede. Quando ficar pronta, em 2020, deve ser um dos maiores campi universitários da Europa. O projeto inclui laboratórios para startups dos alunos da escola. Para além dos espigões espelhados do Cuatro Torres, há ruas de Madri que têm hoje um jeitão de Vale do Silício. Uma moda entre os jovens da metrópole de 5 milhões de habitantes é zanzar para cá e para lá sobre patinetes de uso compartilhado. Quem fornece os equipamentos é a Lime, startup da Califórnia que tem entre os madrilenhos um de seus maiores mercados no mundo (para desespero dos motoristas locais, alvos frequentes das barbeiragens dos adeptos da novidade).

Nas principais praças e avenidas de Madri, a internet é gratuita e veloz. As conversas no metrô de 300 quilômetros de extensão (três vezes a rede de São Paulo, a maior do Brasil) volta e meia giram em torno de novas ideias de negócios de uma juventude nascida ali ou que vem de fora. Em 2017, a Espanha atraiu 500.000 novos residentes, o primeiro saldo positivo em cinco anos. Com o vigor renovado da economia local, até mesmo tradições gastronômicas estão se adaptando aos novos tempos: os tradicionais bares de tapas e vinhos, presentes em quase toda esquina, agora competem com casas de sushi ou restaurantes vegetarianos pelo paladar dos madrilenhos.

É claro que nem tudo está perfeito na Espanha. A crise deixou cicatrizes profundas na população. A taxa de desemprego, de 17% da população ativa (o equivalente a 3,5 milhões de trabalhadores), ainda é a segunda maior da União Europeia, atrás somente da encrencada Grécia. Entre os jovens de até 30 anos, a taxa beira 50%, a maior do continente. “Os benefícios das reformas para os trabalhadores foram modestos, pois resultaram num crescimento salarial anêmico desde então”, diz Tiziana Papa, analista da agência de classificação de risco Fitch em Madri.

A formação do pessoal para o mercado de trabalho deixa a desejar. Embora tenha crescido após uma reforma do ensino médio introduzida em 2013, na linha da aprovada no Brasil no ano passado, a oferta de cursos técnicos aos estudantes espanhóis de 15 a 17 anos ainda é 25% inferior à média da União Europeia, onde o padrão é que a maioria saia da escola com alguma formação profissional. Um em cada cinco jovens larga os estudos antes de terminar o ensino médio, a maior taxa da Europa, com exceção da pequena Malta.

A burocracia estatal ainda é um enrosco na vida de quem quer empreender. Nove entre dez madrilenhos apontam sem pestanejar que o papelório é um atraso para a economia do país. Na raiz do problema está o processo de descentralização de poderes às regiões e às prefeituras consagrado na Constituição de 1977, uma estratégia para manter unido um país com culturas e idiomas distintos e recém-saído de um período de chumbo de quatro décadas sob a ditadura de Francisco Franco. O problema é que as regulações para a abertura e o fechamento de negócios na Espanha mudam de região para região, provocando retrabalho desnecessário numa economia que pretende ser global. Sintoma disso é que no Doing Business, ranking do Banco Mundial sobre a facilidade de fazer negócio, a Espanha está em 30o lugar, muito à frente do Brasil (109o), mas ainda bem atrás de potências europeias, como o Reino Unido (9o).

O problema poderia ser contornado transferindo mais poderes para o governo central em Madri. A questão é superar o sentimento separatista de algumas regiões. Em especial o da Catalunha, onde um referendo informal no ano passado, confirmando o desejo de secessão, resultou na intervenção no governo local e na prisão de dezenas de lideranças separatistas. Um ano depois, o que fazer com a Catalunha é ainda uma questão em aberto. O premiê socialista Pedro Sánchez, que assumiu o governo em junho após uma moção de censura ao governo de Rajoy, tem demonstrado abertura ao diálogo com os separatistas, mas o impasse segue. De todo modo, até aqui a trajetória dos espanhóis para superar a crise tem sido exemplar. Para os brasileiros, é uma história que, mais do que causar inveja, pode oferecer algumas boas lições. 


A AUSTERIDADE VALEU A PENA

Depois de enfrentar uma profunda recessão, a Irlanda apertou o cinto e reduziu os gastos públicos. Agora é o país que mais cresce na Europa | Filipe Serrano, de Dublin 

Poucos países no mundo foram tão afligidos pela crise de 2008 quanto a Irlanda. Durante os dois anos mais severos da recessão, o produto interno bruto irlandês acumulou uma queda de 13% — na crise brasileira, a retração foi de 8%. Com a atividade econômica em baixa, as empresas na Irlanda foram obrigadas a demitir para reduzir custos, e a taxa de desemprego disparou, chegando a 15% em 2011 e 2012. A população irlandesa, que havia tomado grande volume de empréstimos imobiliários nos anos 1990 e 2000, ficou sem dinheiro para pagar pelas casas. O preço dos imóveis diminuiu 55%, e houve quebradeira geral dos bancos irlandeses que detinham os empréstimos. Durante três anos, nenhum novo metro quadrado de escritório foi construído na capital, Dublin.

Em meio ao colapso, a arrecadação de impostos também minguou e as contas públicas ficaram desequilibradas. O déficit primário — diferença entre as despesas e as receitas do governo, descontado o pagamento de juros da dívida pública — chegou a alcançar um nível desastroso de 30% do PIB em 2010. O governo ficou encurralado e teve de recorrer a um resgate emergencial de 67,5 bilhões de euros bancados pelo Fundo Monetário Internacional, pela União Europeia e pelo Banco Central Europeu. A maior parte dos recursos foi usada para recapitalizar os bancos que ainda podiam ser recuperados, e o governo irlandês comprou das instituições os empréstimos imobiliários mais tóxicos, trocando os papéis por títulos públicos.

O segundo passo foi fazer um pesado ajuste fiscal para reequilibrar as finanças públicas. As contratações de servidores foram congeladas. Os contratos de aluguel de agências do governo, ministérios e órgãos públicos foram renegociados. E, inevitavelmente, também foi necessário aumentar impostos e criar novas taxas. Um exemplo é um novo tributo sobre a compra de imóveis residenciais. O governo ainda fez cortes em benefícios sociais. O auxílio-desemprego foi reduzido para as pessoas mais jovens (abaixo de 26 anos) e programas assistenciais foram extintos. Ao todo, um terço do ajuste foi feito com o aumento de impostos e dois terços com o corte de gastos.

As medidas representaram o equivalente a 30 bilhões de euros (aproximadamente 126 bilhões de reais) ao longo de 2008 e 2015, valor que corresponde a 17% do PIB da Irlanda. Apesar de os cortes terem sido duros para a população, eles aceleraram a recuperação e evitaram uma piora da situação fiscal. A dívida pública, que chegou a 125% do PIB — uma das maiores da Europa —, hoje está em 68%. Na estimativa do governo, ela teria atingido 150% do PIB em 2015 se as medidas de austeridade não tivessem sido tomadas. “O que aconteceu de lá para cá é que a Irlanda se tornou uma aposta mais segura e a confiança dos investidores voltou”, diz Phillip O’Sullivan, economista-chefe do banco de investimentos Investec, um dos maiores do país.

Nas ruas de Dublin, a recuperação é visível, principalmente na antiga zona portuária, que hoje é ocupada por escritórios de multinacionais e empresas de tecnologia. A construção de novos prédios voltou com tudo. Nas margens do Liffey, o rio que corta a cidade, é possível ver guindastes de construção para qualquer lado que se olhe. Em 2018, o país deverá registrar o quarto ano seguido com taxa de crescimento acima de 5%. “Sem uma gestão fiscal prudente e os esforços para tornar a Irlanda o sexto país mais competitivo no mundo, não teríamos tido uma recuperação assim”, diz Heather Humpfreys, ministra de Negócios, Empresas e Inovação. A austeridade da Irlanda merece a atenção do Brasil.

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