Qual será o próximo setor a sofrer intervenção do governo?

Executivos ouvidos por EXAME acreditam que, depois dos bancos, das empresas de energia e da indústria de petróleo, companhias de ao menos quatro setores podem sofrer intervenção do governo

São Paulo – Analistas de corretoras e gestores de fundos de ações começam o ano analisando os números mais recentes das empresas e as declarações de seus executivos. O objetivo, sempre, é fazer previsões para os próximos meses e decidir que papéis comprar ou recomendar a seus clientes.

Mas 2013 começou diferente. Esses profissionais têm usado boa parte de seu tempo para tentar adivinhar o que passa pela cabeça da equipe econômica do governo e evitar ser pegos de surpresa por mais uma canetada (já que, recentemente, houve intervenções nos setores bancário e de energia elétrica e uma série delas na indústria de petróleo).

“Estamos lendo e relendo os relatórios do Banco Central para adivinhar o que mais o governo pode fazer para tentar segurar a inflação”, diz o diretor de um grande banco.

EXAME ouviu 12 bancos e gestoras para vislumbrar os setores que podem ser vítimas de uma nova intervenção do governo. A maioria acredita que os mercados em que os preços são altos e têm um peso relevante nos índices de inflação estarão na mira do Planalto. Veja os principais a seguir.                       

1 Gás natural

Uma intervenção do governo é dada como certa, já que Guido Mantega, ministro da Fazenda, afirmou recentemente que, depois da redução das tarifas de energia elétrica, “o próximo passo é trabalhar para baratear o gás”.


Os executivos de mercado avaliam que os combustíveis, de forma geral, são o principal alvo do governo, porque têm forte influência sobre os índices de preços do país. Além disso, podem ser usados para diminuir os custos de produção industrial e tornar as empresas mais competitivas. 

Empresas abertas que podem ser prejudicadas: Comgás, Cosan e Petrobras   

2 Concessões rodoviárias

A margem de lucro das empresas de concessões rodoviárias no Brasil é de 60%, em média. Como o serviço não é lá essas coisas, teme-se que o governo queira mexer em contratos antigos para baixar o preço dos pedágios e a taxa de retorno das concessões — algo semelhante ao que foi feito no setor elétrico. Nos novos leilões de rodovias no país, o governo tem oferecido taxas de retorno de 5,5% ao ano, enquanto as concessões mais antigas recebem 9%. 

Empresas abertas que podem ser prejudicadas: CCR, EcoRodovias, Invepar e Triunfo

3 Saúde

Assim como os combustíveis, os planos de saúde têm um peso importante no índice oficial de inflação, o IPCA. Para os gestores de investimento, algum reajuste dos combustíveis pode ser liberado neste ano, o que colocaria o setor de saúde sob os holofotes. “O governo pode querer tentar segurar a inflação com medidas mais duras para o setor”, afirma Carlos Eduardo Rocha, diretor da gestora Brasil Plural.


Os reajustes dos planos individuais precisam ser aprovados anualmente pela Agência Nacional de Saúde (ANS), e, no ano passado, foram maiores que o IPCA. Mas os planos coletivos (aqueles que as empresas contratam para seus funcionários) podem aumentar seus preços livremente — por enquanto. O temor de uma intervenção do governo foi um dos motivos que levaram o empresário Edson Bueno a vender a operadora de planos de saúde Amil ao grupo americano UnitedHealth em 2012, dizem pessoas próximas.

Empresas abertas que podem ser prejudicadas: Amil, OdontoPrev e Tempo Participações

4 Telecomunicações

As empresas de telecomunicações precisam mostrar os resultados efetivos dos investimentos em qualidade anunciados no ano passado, depois que a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) suspendeu as vendas de operadoras com serviços ruins — e, ao mesmo tempo, estabeleceu para os serviços de TV por assinatura metas de redução de reclamações de clientes até o fim de 2013.

Alguns analistas acreditam que, passada essa primeira fase de ajustes, o governo pode atuar para diminuir as tarifas de telefone e internet no país, que estão entre as mais altas do mundo — e são as mais elevadas entre os Brics, segundo um levantamento da Organização das Nações Unidas (ONU).

Empresas abertas que podem ser prejudicadas: Oi, Telefônica e TIM