Sistema de saúde deveria pagar por resultado, e não por procedimento

Para o presidente global de uma das maiores fabricantes de dispositivos de saúde, a remuneração de hospitais e médicos deve levar em conta o resultado

Na maior parte do mundo, hospitais e médicos são remunerados pelos planos de saúde ou pelo governo, de acordo com os procedimentos realizados. Não importa se o paciente de fato melhorou com o tratamento. Na visão de Omar Ishrak, presidente mundial da Medtronic, uma das maiores fabricantes de dispositivos médicos do planeta, com faturamento anual de 29 bilhões de dólares, esse modelo precisa ser repensado porque incentiva o desperdício e eleva os custos. Nascido em Bangladesh, Ishrak falou a EXAME numa visita recente a São Paulo.

Num país como o Brasil, o senhor acha possível fornecer um serviço de saúde de qualidade e ao mesmo tempo acessível?

O Brasil não é o único país que enfrenta esse problema. Na verdade, nenhum país do mundo tem acesso igualitário à saúde atualmente. Mas, antes de pensar no custo, é necessário ter meios para fazer o diagnóstico correto. É preciso ter hospitais e clínicas. O custo não é o maior problema.

Por que não?

Dou um exemplo: posso doar marca-passos modernos a uma vila no interior e ninguém usá-los. Porque não há hospital. Não há médicos. É claro que as terapias mais avançadas sempre serão feitas nos grandes centros. Mas a diferença hoje é grande demais. Alguns tratamentos que são comuns há décadas em países ricos simplesmente não estão disponíveis em outras regiões.

Há alguma política que poderia ajudar a resolver o problema?

Precisamos de um modelo que seja mais focado em alcançar resultados. O que temos hoje é um sistema em que os pacientes pagam pelos serviços que utilizam, independentemente do resultado. Minha sugestão é esta: buscar um modelo em que a remuneração esteja ligada ao valor que é gerado para o paciente.

Mas, e nos casos em que o paciente não pode ser curado? Como remunerar os médicos, hospitais e planos de saúde?

Nesses casos, é importante ter uma compreensão clara sobre se o resultado pode de fato ser alterado ou não. Dependendo do estágio da doença, não há tratamento disponível. É melhor administrar a situação de uma maneira menos custosa, o que não é feito hoje. Não há incentivo para manter os custos baixos.

O modelo que o senhor propõe é financeiramente viável?

É a única coisa que é viável. Se alguém paga por um serviço de saúde é porque quer melhorar. Do jeito que está hoje, o sistema de saúde está se tornando — e vai se tornar cada vez mais — um fardo, porque há muito desperdício de dinheiro.

Como resolver esses problemas na prática?

Deixe-me dar um exemplo. Existe um tipo de infarto do miocárdio chamado Stemi, na sigla em inglês. Começa com uma dor no peito e, se o paciente não procurar tratamento com rapidez, pode ter complicações e morrer. Existem poucos hospitais especializados em tratar essa doença. O que fizemos foi escolher algumas clínicas e ensinamos as equipes a diagnosticá-la. Se der positivo, o paciente será encaminhado ao hospital especializado.

Onde estão essas clínicas? Aqui no Brasil?

Sim. No Brasil, são 102 centros. Mais de 4 500 pacientes já foram diagnosticados e diminuímos as taxas de mortalidade em 50%. É isso que quero dizer com um modelo que tenha foco no resultado. Vender mais tecnologia não vai resolver esse problema. É preciso de uma abordagem inteligente para entender onde está o problema e como resolvê-lo. Todos ganham assim. Claro que nós vendemos mais dispositivos. Mas vendemos porque as pessoas precisam deles. É assim que expandimos os negócios. 

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