Podemos relaxar com commodities, diz Jim Rogers

Respeitado no mercado de commodities, Jim Rogers diz que a subida de preços dos produtos primários não tem data para acabar — para a felicidade dele e do Brasil

Além de ter amealhado uma fortuna com os mercados de matérias-primas, o americano Jim Rogers goza de sólida reputação como analista econômico e um dos maiores especialistas do mundo no mercado de commodities.

Aos 68 anos, é também uma das vozes mais otimistas quanto ao futuro das commodities, muitas delas com preços já em patamares próximos de recordes históricos.

Para Rogers, que junto com George Soros criou, em 1973, o lendário fundo de investimento Quantum, se souber administrar bem suas riquezas naturais, o Brasil só tem a ganhar com as vendas para clientes como a China no longo prazo. Comentarista habitual dos principais canais de notícias econômicas dos Estados Unidos e da Ásia, Rogers também é famoso por seu hobby de pilotar motos e carros de luxo.

De 1999 a 2002, deu a volta ao mundo num Mercedes-Benz amarelo, passando pelo Brasil. A jornada de 245 000 quilômetros rendeu-lhe um recorde no Guinness Book. Ardoroso defensor do livre mercado, ele falou a EXAME de Singapura, onde vive desde 2007 com a mulher e duas filhas pequenas, com quem conversa em inglês e mandarim.

EXAME – Como o senhor explica a valorização das commodities?

Jim Rogers – Nos últimos 20 anos, as commodities têm sido um ótimo investimento. A principal razão é o forte crescimento global. Se, de um lado, o consumo tem crescido, o mesmo não acontece com a oferta. É o caso do petróleo: nos últimos 40 anos, com exceção de poucas reservas, como o pré-sal brasileiro, não se descobriu nada de novo. Por esse motivo, investir em commodities é e será a melhor aposta durante muito tempo. Se a economia global crescer em ritmo acelerado, a demanda por matérias-primas e alimentos vai crescer junto. Se a economia global não se recuperar, alguns bancos centrais de países importantes, como os Estados Unidos e o Reino Unido, vão continuar cometendo os mesmos erros imbecis de hoje, imprimindo dinheiro e aumentando o risco de inflação. Nesse ambiente de liquidez, o melhor é investir em ativos reais, como petróleo, arroz ou prata, do que em ações.

EXAME – Dada a atuação dos fundos de hedge, há o risco de uma bolha no mercado das commodities?

Jim Rogers – Hoje não. A única commodity que vive uma valorização inédita é o ouro. Nos últimos anos, seu valor real cresceu 200% sobre o pico histórico. Só no ano passado o ouro subiu 30%. Por outro lado, vejo uma bolha no mercado imobiliário das grandes cidades ao longo da costa chinesa e outra bolha nos títulos de longo prazo do Tesouro americano. Creio que uma bolha irá aparecer algum dia nas commodities, mas estamos bem distantes dela. Quanto à participação dos fundos de hedge, quando há liquidez abundante, como agora, os mercados financeiros investem — pode ser em terras na Califórnia, em petróleo, em arroz etc. Acontece que os fundamentos dos mercados de commodities estão extremamente bons. Logo, não há como os fundos ficarem fora delas, já que vivemos numa economia de mercado.


EXAME – Além do baixo crescimento da oferta, que outros fatores estão por trás do aumento dos preços das commodities?

Jim Rogers – Um dos principais fatores é o comportamento da Ásia, especialmente da China e da Índia. Nos anos 70, quando aconteceu o último grande choque de demanda, ambos os países não integravam o mercado mundial. A China era governada por Mao Tsé Tung, e a Índia, por Nehru e Indira Gandhi. Hoje, a demanda por commodities vem da Ásia e de várias outras partes do mundo, como o Brasil. Está cada vez mais difícil satisfazer esse nível de demanda global.

EXAME – Qual sua previsão para o preço do petróleo?

Jim Rogers – Creio que ao longo da próxima década o preço do barril, que hoje se aproxima dos 90 dólares, pode ir muito além da marca de 200 dólares.

EXAME – As reservas do pré-sal brasileiro não aliviam a situação no mercado de petróleo?

Jim Rogers – Elas são uma ótima notícia para o Brasil, mas equivalem ao consumo global de apenas um ano. 

EXAME – O Brasil já é bastante dependente da produção de commodities minerais e agrícolas. As reservas do pré-sal não aumentariam a dependência, principalmente em relação às exportações para a China?

Jim Rogers – Não necessariamente, desde que o Brasil seja bem administrado e que seu governo não volte a cometer um grande número de erros econômicos graves, como fazia até os anos 90. Quanto à China, é verdade que ela irá sofrer correções, o que é normal em seu processo de ascensão. No século 19, os Estados Unidos também tiveram uma guerra civil, várias crises e até depressões econômicas. A China vive o mesmo processo agora. No longo prazo, porém, a China beneficiará todos que têm commodities para vender, como é o caso do Brasil.

EXAME – As mudanças climáticas podem agravar o aumento de preço de alimentos?

Jim Rogers – Sim. O clima atua como mais um fator limitante da oferta. Se tivéssemos imensos estoques de alimentos — o que não é o caso —, estaríamos numa situação mais confortável. Isso explica por que o açúcar apresenta sua maior alta dos últimos 30 anos. Além dele, o arroz, a soja e o trigo também têm subido fortemente. Normalmente, esses eventos causam altas sazonais e seus efeitos acabam se dissipando. Mas, à medida que os problemas climáticos se repetem, temos mais pressões altistas. Nos próximos anos veremos uma escalada impressionante no preço dos alimentos.


EXAME – Há o risco de tensão social e violentos protestos de rua, como os que aconteceram em 2008?

Jim Rogers – Infelizmente, isso é altamente previsível, porque a pressão sobre o preço dos alimentos será mais avassaladora do que no passado. O preço do açúcar, por exemplo, pode dobrar em breve. Especialmente em países pobres, a carestia dos alimentos coloca muita pressão sobre os governos. Logo, podemos esperar mais tensão social e protestos violentos.

EXAME – Recentemente, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, propôs a criação de controles de preços para produtos agrícolas. Daria certo?

Jim Rogers – Claro que não. Sempre que o preço dos alimentos sobe, alguém vem com a ideia idiota de controle de preços. Historicamente, os controles destroem os mercados, pois os produtores deixam de ter incentivos para produzir. Se você disser a um produtor indiano que o preço do arroz será controlado, ele produzirá cada vez menos. Quem sofrerá mais é quem come arroz, principalmente os mais pobres. Quando os políticos percebem que controles de preços não resolvem, eles removem esses controles e os mercados voltam a funcionar. O que os governos podem fazer para estimular a produção é criar um ambiente propício para que os produtores invistam mais na produção, e não atrapalhar a vida deles.

EXAME – Quem perde mais com o boom de commodities?

Jim Rogers – Obviamente são os países e os investidores que não têm commodities. Mas mesmo quem está na ponta ganhadora precisa ter cuidado. No caso dos países produtores de commodities, é preciso uma boa gestão das riquezas e da economia. Vamos lembrar que cedo ou tarde o mercado entrará em baixa. No caso de países mal administrados, haverá o risco de um golpe de Estado, como no Congo, extremamente rico em ouro e diamantes. Há também aqueles que não têm commodities e são mal administrados, como Portugal e Bélgica. Estes vão sofrer muito com a subida de preços.